Archive for julho, 2005

Resumo da Ópera-Bufa Lulesca-Jeffersoniana

por Sylvio Micelli

A questão primordial que vejo neste caso todo é um processo de desmistificação de Lula e companhia graças ao “holofotismo” da mídia… Nós jornalistas, e que atire a primeira pedra quem pensar o contrário, adoramos sangue! Ver o circo pegar fogo. Algo como: “tá vendo, eu não falei?” Torcer pelo inferno de Dante… Citar “O Príncipe” de Maquiavel como um bálsamo para todos os males.

Quando Lula fala – e fala cada besteira – “que todo mundo já fez”, ele está certo! O jeitinho brasileiro já está intrínseco à cultura tupiniquim. Quem de nós já não pensou em dar um “jeitinho”, ou pagar um “cafezinho”, numa situação em que estivemos do outro lado da lei ou do que quer que seja? Atirem quantas pedras quiserem.

A própria eleição de Severino Cavalcanti à presidência da Câmara dos Deputados é reflexo disso. Ele se autodenominava representante do “baixo-clero”. Uma espécie de Robin Hood às avessas. Ele é o povão sim! Aquele que ajuda pinguços na cidade-natal. Ou que aceita o nepotismo diplomado.

A questão lulesca-jeffersoniana é muito menos importante que a patuléia nacional. Se houver o “impeachment” de Lula – o que acho pouco provável e nem torço para isso – vai apenas ser mais um caso, como o de Collor, nessa endemia nacional pouco resolutiva. Precisamos pensar, ainda, que vivemos num país novo (são 500 anos) em relação a outros tantos milenares e ainda buscamos uma identidade… Meus ancestrais vieram da Calábria e descendem dos mouros… Aqui, as múltiplas etnias não nos concedeu uma cara. Tenho que lembrar, com infinita saudade, de Cazuza! “Brasil, mostra a tua cara!”

Para piorar há diferenças gritantes na sociedade brasileira… Enquanto estou aqui no computador conversando com o “mundo”, não muito longe daqui em Marsillac, na zona sul ou Terceira Divisão, no final de Sapopemba na leste (nem precisa ir ao Nordeste) há comunidades que desconhecem luz, esgoto etc e tal… E estou falando da cidade de São Paulo, a esquina do mundo…

Pois bem. Nunca achei que Lula fosse resolver todos os problemas. Primeiro porque seria um maniqueísmo burro e não me deixo levar pelos sofismas que aqui ou acolá, tentam nos impor. Segundo porque nossa pseudo-democracia é ainda imberbe… E o mais importante dos fatores: nossa sociedade pequeno-burguesa sugou o país de tal forma sem conceder-lhe nada em troca que seria boçal da minha parte aceitar mudança radical em 4 anos. Aliás… acho que se começarmos a alterar algumas coisas, os efeitos serão lá na frente. 10, 20, 30 anos.

Traço críticas aqui à democracia porque ainda não tenho como compreender a democracia como um regime de governo que mantém crianças nos sinais, mendigos assassinados, malas e cuecas milionárias andando por aí. Mas, por enquanto, não apareceu outro regime despojado de idiossincrasias em contraponto às ditaduras que não cerceie liberdades, nem mate Herzog.

Esta ópera-bufa maluca traz à tona uma sensação geral de corrupção. Mas, o que sobra de fato é uma paralisia que prejudica o Brasil. O que mais me entristece, além da situação em si, porque quem me conhece sabe o quanto amo a ciência Política, é o agravamento da crise e as desculpas esfarrapadas do partidários de Lula.

Resquentar denúncias velhas, afirmar que todos fazem as mesmas coisas, tentar conspurcar a opinião pública e transformar corrupção em crime eleitoral é golpe baixo daqueles que sempre investiram-se da aurela de anjos, arcanjos e querubins. Agora acenam com um grande acordo… Uma enorme pizza a cobrir o Eixão Monumental. Que nem prefiro comentar. Mas que de modo algum assustar-me-á…

Oras… Os ainda partidários de Lula pensam que eu sou burro. Ou ingênuo. Ou imbecil. Até posso ser tudo isso. Ou cada vez menos saber das coisas como diz o mestre Cony. Mas eu sei muito bem o que todos fizeram nos verões passados.

Eu sei o que Sarney fez para permanecer no poder. Sei o que ele fez para chegar ao Poder. Sair do PDS e se juntar à Tancredo. Eu sei todos os casos de corrupção do Collor e até em que circunstâncias ele foi alçado ao poder pela mesma mídia que o derrubou. Também sei da língua afiada de Itamar e suas namoradas e sei muito mais dos oito anos de tucanato do FHC. Sei que houve compra de votos no caso da reeleição. Sei das privatizações que foram nefastas ao país. E é bem provável que Marcos Valério já estivesse aí a financiar o propinoduto aéreo Pampulha-JK e conexões.

Mas também sei que Lula foi um metalúrgico que se transformou no maior líder sindical do país. E não entro aqui na questão de mérito de seus atos enquanto sindicalista. Sei que ele lutou para chegar aonde chegou com seus parcos recursos que todos conhecemos. Sei também das idéias que ele defendeu. Dos discursos que proferiu. E de todas as ilações e frases feitas que proferiu.

E aí – e sempre tem um condicional para atrapalhar – a roda pega. Nunca apreciei Genoíno ou Zé Dirceu. Nem sabia da existência de Delúbio, Silvinho e outros “companheiros”. Nunca pensei tampouco que Lula daria um “cheque em branco” a Roberto Jefferson. Aquele mesmo que sempre gravitou em torno do poder constituído.

Em nome da tal “governabilidade”, que expressa apenas um projeto de poder e não um projeto de administração, Lula fez os acordos que não devia. Este Lula não é o mesmo de 1989. Hoje é um Lula pasteurizado em embalagem Tetra Pak para regozijo dos pequeno-burgueses que acham uma “gracinha” ter um presidente que bebe pinga e leva sua finada cadela para passear em carro oficial.

Enfim, ele se cercou das pessoas erradas. Ouviu conselhos errados. Não posso acreditar que ele não soubesse das coisas. E tudo isso é lastimável. Porque eu e mais 52 milhões de sonhadores votamos, como já escrevi, numa promessa de paraíso. Não votamos em Delúbio, Genoíno e companhia. Votamos no ícone. Elegemos o novo Messias. Pusemos nossas esperanças na brejeirice a la Mazzaropi de Lula. Ele era o comum do povo. Um pedaço de nós todos. E não foram promessas eleitoreiras. Durante um quartel de século, o Partido dos Trabalhadores com Lula, seu maior expoente, foi o Tim Maia da política. O síndico. Aquele pronto a soar o alarme. A derrubar o regime militar. A bradar pelas Diretas. A derrubar Collor. Lula foi esse brasileiro – que não desiste nunca. E nunca desistimos. Até eu que NUNCA havia votado no PT, porque sempre vi um ranço totalitário em suas hostes, rendi-me ao bordão nacional após o Penta: “agora vai!!!!!!!!!!!”.

E não foi. E o “medo” venceu a “esperança”. E tudo era tão igual que os petistas se armam para a defesa com comida resquentada. Ninguém fala “eu sou inocente”. Todos falam “ele também fez”. Todos correm em busca de provas contra os outros, mandam recados ameaçadores e não se defendem. A regra é mais ou menos assim “eu não me limpo, mas eu te sujo”. Agora temos aí, dinheiro, poder, corrupção, mentiras… Ninguém fala em milhares, mas em milhões. Mas os milhões são outros. Não são de dólares ou de reais. Mas são reais. Somos nós…

E nós? E quem nos defende da fome, do desemprego, da “doença” pública que não é mais saúde? Das terras que não são cultivadas, dos malabares nos semáforos e da prostituição infantil em troca de comida? Não queria tudo resolvido em 4 anos. Mas pelo menos o começo.

Sei de tanta coisa. Mas isso não sei. Não sei em quem votar. Não sei em que acreditar. O Brasil perdeu a cor. E como disse recentemente o grande Luiz Fernando Veríssimo “quem quase vive já morreu”.

A Daslu e a cueca

por Sylvio Micelli

A moda anda em alta depois da São Paulo Fashion Week. Nunca, em tão pouco tempo, as roupas de cima ou de baixo foram objetos constantes dos noticiários.

Outro dia, um “aspone” de um irmão do Zé Genoíno foi pego no Aeroporto de Congonhas com 200 mil reais numa pastinha com a inscrição “No Stress“. Quem se estrassaria com essa grana? Mas o que realmente “pegou” foram os 100 mil dólares na cueca… Imagino meu avô calabrês, se vivo fosse, falando de suas ceroulas. A cena inusitada foi motivo de pilhéria da turma do Pânico. E foi risível ouvir e ver os apresentadores de jornal falarem a palavra “cueca” com suas vozes impostadas de seda. Genoíno deu área e o PT tenta, via popularidade de Lula, restabelecer um pouco a ordem perdida no país. A cueca no noticiário foi mais importante que os milhões de dízimos nas malas da Igreja Universal.

Agora a Daslu. Uma megaoperação chamada Narciso dá indícios fortes de que os proprietários da Daslu eram, na verdade, sacoleiros de luxo. A grande diferença é que, ao invés de irem para Foz do Iguaçu, eles íam para a California ou sei lá onde.

Foi um baque para os consumistas de plantão que “a–do–ram” pagar 2 mil reais numa camisetinha “básica” como se estivessem na Rodeo Drive. Nunca passei nem perto da Daslu. Só sei que a primeira hora de estacionamento lá – 30 reais – me garante o “prato-feito” da semana.

Não sei se o nome Narciso foi para distinguir a Daslu ou a polícia. Aliás, eles têm uma capacidade incontestável de criar nomes para operações.

Soa estranho, porém, que parte da mídia ache exagerada a operação. Entendo que o editorial do Grupo Bandeirantes, por exemplo, subliminarmente, defende o status quo da classe dominante, representada pela Daslu, e é equivocado. Primeiro, a questão dos crimes, se houveram ficou relegado a um plano inferior. Em nenhum momento, exceção feita a jornalista Maria Lydia, se falou sobre o ato em si, ou seja, os motivos que ensejaram a operação conjunta da Polícia Federal e da Receita Federal. Também não entendo porque pelo fato de ser a Daslu, a polícia deveria declarar voz de prisão e cumprir seus mandados com rosas e perfume Paco Rabane.

Houve uma crítica ao “exibicionismo” da Polícia Federal. Parece-me um paradoxo, porque a loja, em si, tem como principal característica o exbicionismo. Não estou aqui para criticar quem acha legal comprar uma roupinha de 10 mil reais. Cada um faz o que quer com o seu dinheiro. Mas é inegável que a loja, contrastando com uma favela ao lado, fortalece as diferenças sociais gritantes da sociedade brasileira.

Quanto ao fato da quantidade de policiais podemos até questionar o modus operandi, mas ficou uma sensação de que a mídia ainda prefere defender o “colarinho branco”, aqueles que não são tão iguais perante a lei, graças ao capital, independente de onde os “colarinhos” se encontrem, do que a real apuração dos fatos.

Soa estranho, também, que a mesma mídia não se assuste ou pouco fale dos policiais que invadem favelas matando gente inocente. Todos são iguais perante a lei. Infelizmente, a lei não é igual perante todos.

Os pecados de Deus

crime.5por Sylvio Micelli

Calma, calma… Não vou fazer discursos ateístas. Tampouco vou proferir blasfêmias. Muito menos, brigarei com Ele, como de costume.

Mas Deus – figura emblemática de nossa existência – deve arrepender-Se dos pecados que cometeu. Não os fez com dolo, óbvio. Fê-los por amor.

Quando acontecem essas coisas como em Londres, onde neuróticos mal assumidos, de personalidade duvidosa e idealismo torpe matam inocentes em atentados terroristas tento imaginar o Pai de todos nós diante de seus filhos.

Estará Ele resignado? Louco? Insandecido? Poderá Ele questionar os porquês da maledicência e ineficácia humanas? Certamente não sabemos e jamais saberemos. E até é bom que seja assim.

A Humanidade – que pouco tem de humano – caminha tropegamente para o fim. O ser humano, este conjunto de ossos e músculos, pouco tem de humano. E eu resolvo perguntar a mim mesmo – um ignorante de natureza vil, rude, quase elementar – onde iremos parar… Londres, na verdade, é apenas um retrato 3X4 de uma realidade cotidiana.

A mídia, sempre esfrega as mãos em casos como esse, ou Madrid, ou Nova Iorque… Mas na verdade são apenas pontos esporádicos de uma realidade que poucos conhecem. No Iraque, por exemplo, os ataques terroristas são diários. No continente africano as mortes famélicas de crianças são diárias. Mas isso nem conta mais…

Como robôs desplugados da verdade nós, humanos, vamos vivendo ou sobrevivendo dia após dia, sem formar um grupo coeso. Um nexo causal qualquer que justificasse porque Ele resolveu nos colocar por aqui.

E nem vou falar de política… Gostaria apenas de poder, sendo um robô ou (me perdoem o gerúndio) estando robotizado, poder formatar a HD do meu cérebro e instalar novos programas. Escrever novos textos ou reescrever a história.

Mas isso é impossível. Portanto, paro por aqui. E se você chegou até aqui, quem sabe seja um descontente como eu… Obrigado.

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Sylvio Micelli

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