São Pedro: o eterno culpado
- janeiro 3rd, 2010
- Posted in Jornalismo e nada mais
- Write comment
por Sylvio Micelli
Deu apagão no país? A chuva caiu e inundou o Rio Tietê? Queda de barreira na Mogi-Bertioga? Mortes em Angra dos Reis e Ilha Grande? Para esses e outros fatos que já aconteceram e que venham a acontecer já há um culpado. E é o melhor culpado que o ser, dito humano, poderia arrumar. Ele é um santo!
Trata-se de São Pedro, o detentor das chaves do céu.
Pedro nasceu Simão. Era pescador. Ao se tornar um dos doze apóstolos de Jesus, teve seu nome alterado por Cristo: “E eu te declaro: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra, será desligado nos céus”. E aí começou o martírio de São Pedro, o primeiro Papa da Igreja Católica.
Sobre ele recaem todas as culpas das intempéries de nosso tresloucado clima. Nossos governantes, quaisquer que sejam eles, alegam que o “excesso de chuvas” ou que “mudanças climáticas” causaram isso ou aquilo. Nossa população também o culpa pelas chuvas ou estiagens prolongadas.
Nosso querido Pedro, independente da religião que se tenha, não tem culpa de nada. Não foi ele quem desmatou florestas que mudaram o clima. Também não é ele que construiu casas, barracos e moradias nas encostas dos morros ou lugares de fácil inundação. Tampouco foi Pedro que abriu estradas que desrespeitam a Natureza. E sendo guardião dos céus, também não foi Pedro que jogou todos os lixos que são arremessados nos córregos, rios, ruas.
Quando acontecem essas tragédias, os mortos são contados e depois de sepultados nada é resolvido. Nossos políticos não investem o que deveriam em políticas habitacionais. As cidades continuam crescendo de forma desordenada e muitas vezes invadindo terrenos que não poderiam. E só o fazem com a leniência do poder público. Nossa gente continua sem educação jogando, em qualquer lugar, tudo o que deveria ser jogado no lixo. As políticas de reciclagem do material inservível ainda são pálidas iniciativas de organizações sociais.
Ou seja. São Pedro não tem nada a ver com a história. Nem na bela Angra dos Reis, nem no pobre Jardim Romano. O máximo que lhe compete é saber se os mortos podem adentrar os céus ou não. Quanto à maioria dos nossos políticos e às pessoas que jogam lixo na Natureza, a possibilidade de encontrarem com São Pedro é bem remota.
Ainda não foi aprendida a lição que Einstein deixou: “Quando agredida, a natureza não se defende. Apenas se vinga.”



No comments yet.