O mundo encantado de Gilberto Kassab
- janeiro 4th, 2010
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por Sylvio Micelli
Diferentemente do que pensou a então candidata Marta Suplicy (PT), no início do segundo turno das eleições paulistanas em 2007, a vida pessoal de Gilberto Kassab (DEM) nunca me interessou. Gostaria, sim, que ele fosse um bom prefeito, mesmo sem o meu voto. Aliás, tenho por hábito votar em candidatos que raramente são eleitos. Isso porque voto em pessoas com as quais me identifico e não me submeto à polarização que a mídia sempre provoca nas eleições.
É lamentável constatar que a cidade de São Paulo está abandonada sob todas as formas e aspectos que o decoro permite relatar. Kassab, tanto na gestão herdada de José Serra como na sua própria, tem como marcas registradas, o vacilo, o balão de ensaio e a não solução dos problemas.
1. Cidade Limpa: a primeira grande meta de Gilberto Kassab, logo após a eleição de José Serra para o Governo do Estado, foi o projeto Cidade Limpa. Na verdade, um factóide que decepou a publicidade da maior cidade do país. Kassab alegou, à época, que a poluição visual era enorme. Isso é fato. E eu concordo. Mas deveria regulamentar a publicidade externa de forma decente. Acabou com os outdoors e reduziu o tamanho da publicidade externa. Muitos estabelecimentos abandonaram suas fachadas. O Cidade Limpa deixou a cidade sem poluição visual, mas suja, mal acabada. Além disso, as pixações, pinturas velhas e outras aberrações permanecem. Quem assistiu a Corrida de São Silvestre pela TV na semana passada, teve vergonha de ser paulistano.
2. Transportes: calcanhar de Aquiles desta e de outras gestões. Kassab, há mais de 3 anos no poder, pouco fez.
a) Rodízio de veículos: uma aberração do ponto de vista constitucional, pois fere o direito de ir e vir e que vem sendo mantida. O rodízio é, com perdão da palavra, uma burrice. A população comprou um segundo carro, o que aumentou a quantidade de veículos na cidade e, consequentemente, a poluição. Horário de pico? Agora você escolhe sua opção. Quer ficar preso em congestionamentos antes, durante ou depois do rodízio? Tanto pela manhã como no final do dia. Isso pouco importa. Quer sair da Mooca e ir à Praça da Sé, como é o meu caso? Você tem três opções: de carro – um trajeto de 5 km pode demorar mais de uma hora; de ônibus – idem ao carro. Além disso, os ônibus aqui são os elétricos. Quando cai a energia, nem quero comentar…; de metrô – tome um ônibus por uns 20 minutos para chegar ao Metrô Bresser. Ou vá na caminhada por igual período. Se conseguir entrar no vagão do metrô, vá como sardinha em lata até a Estação Sé;
b) Ônibus Fretados: outro vacilo de Kassab e de seu braço direito, o secretário Alexandre de Moraes. Os fretados abusavam da boa vontade no caótico trânsito paulistano? Por que eu vou regulamentar se é melhor podar, não é mesmo? Simples! Jogo os fretados para os pontos mais longínquos da cidade e faço todos acreditarem que um ônibus com 40, 50 passageiros incomoda mais do que se estes mesmos passageiros estivessem com seus carros. Depois eu me arrependo da bobagem que fiz e resolvo liberar os fretados na Berrini, ponto de grandes empresas da cidade.
c) Zona Azul: os agentes da CET (Companhia de Engenharia e Tráfego), que nada entendem de engenharia, nem de tráfego servem apenas para multar. Quando resolvem agir no trânsito, mais atrapalham do que se nada fizessem. Além disso, o cartão de Zona Azul pulou de R$ 1,80 para R$ 3,00. A alegação é de que foram anos sem aumento. Oras… Isso não significa que, quando você vai aumentar, precisa trazer toda a inflação do período. Raramente se encontra cartões a preço oficial. E você ainda estaciona, em determinados lugares para ser furtado.
d) Estacionamentos: a prefeitura nada faz. Estacionar na cidade é sinônimo de extorsão. Ano passado eu tive que pagar R$ 10 por 8 minutos de estacionamento. Há regiões da cidade onde o cartel rola solto. A prefeitura deveria subsidiar os estacionamentos para que a cidade pudesse respirar.
e) Inspeção Veicular: este tema foi a piada de 2009. E promete ser a piada de 2010. De mau gosto, óbvio! Em 2009, a prefeitura de Kassab decidiu fazer a inspeção veicular. Para isso, obrigou apenas os veículos novos de fazê-la. Oras… Se a inspeção é para manter a qualidade do ar, não seria correto começar com os carros mais antigos? Ou todos de uma vez? Além disso, você pagava uma taxa de R$ 52,73 para depois ser ressarcida pela prefeitura. A empresa responsável pela inspeção era a desconhecida Controlar e de repente se transformou numa potência adquirida pelo Grupo CCR, que controla as maiores estradas do país. Tudo muito estranho, num curto espaço de tempo. E a piada em 2010 permanece. Agora a prefeitura não vai devolver a taxa alegando que uma lei federal a impede de fazer o ressarcimento.
f) Tarifa de Ônibus: o presente de Ano Novo de Gilberto Kassab é aumentar a passagem de ônibus de R$ 2,30 para R$ 2,70. A alegação é a mesma da Zona Azul. Há tempos não se aumentava. Isso não significa que precisa ser tudo de uma vez. E, possivelmente, teremos que aguentar o prefeito falando que cumpriu uma promessa de campanha, afinal, desde sua posse, o valor permaneceu inalterado.
3. Serviço Público: seguindo a linha neoliberal característica da parceria PSDB/DEM, Kassab fez duas coisas com o funcionalismo público da cidade de São Paulo:
a) transformou o Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), patrimônio dos servidores paulistanos em hospital geral. A prefeitura deixou de descontar os 3% que o funcionalismo contribuía para o custeio do HSPM e abriu suas portas ao SUS. Vendeu a ideia como se fosse um grande negócio, afinal os servidores tiveram um “aumento real” nos vencimentos. Uma bobagem: aumento e reposição são coisas que o funcionalismo geralmente luta muito para ter muito pouco;
b) deu publicidade ao salário do funcionalismo, no mais alto estilo “Caçador de Marajás” de Fernando Collor de Mello. Outra grande bobagem. O subteto do funcionalismo não pode ser refém do proselitismo político. Nem de Kassab, nem de Serra. Se há abusos, estes devem ser corrigidos. Simples, assim.
4. Chuvas e inundações: culpar São Pedro pelo excesso de chuvas nada resolve. É sabido que a população tem boa parcela de responsabilidade nas inundações ao jogar de tudo nos córregos e rios. Mas cabe ao poder público: a) educar a população, b) agir de forma rígida, limpar córregos e rios, antecipando-se às inundações; c) promover políticas habitacionais que visem retirar moradores de áreas comprometidas; d) não ser leniente nem corrupto com ocupações desorganizadas e crescimento desordenado da cidade. O total abandono que vimos dos moradores do Jardim Romano, Jardim Pantanal e adjacências foi um absurdo. Duvido que se a inundação tivesse ocorrido na Vila Olímpia, se a prefeitura não teria tomado as devidas providências. Importante destacar aqui, que as subprefeituras continuam sendo usadas como moeda de troca política e competência, não necessariamente, faz parte dos indicados.
5. IPTU: o glorioso Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) chega no Ano Novo, mais gordo com “módicos” índices de até 45%. Aqui, mais uma vez, Kassab recuou. O projeto original encaminhado à Câmara Municipal previa índices de até 60%. O prefeito alega que algumas melhorias feitas na cidade, como estações de metrô por exemplo, valorizaram os imóveis e aumentaram o valor venal das propriedades. E os donos devem pagar. Os aumentos agora devem ser bienais.
Resumindo: a cidade de São Paulo está suja, triste e abandonada. Com as chuvas de verão, a tendência é piorar. Buracos, inundações, trânsito, caos, lixo e a sensação de que não há comando na maior cidade do País. Mas Kassab diz o contrário num mundo encantado aonde ele e seus apaniguados políticos habitam.



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