Archive for janeiro, 2010

Esta década ainda não acabou. Ou já?

Calendáriopor Sylvio Micelli

O assunto, em si, não é muito importante. Mas ao final de todo o ano terminado em “9″ e, consequentemente, o início de um ano terminado em “0″, a discussão volta à tona. Afinal: acabou a primeira década do terceiro milênio? Li e ouvi jornalistas discutindo o tema e cada um defendendo esta ou aquela tese.

Todo final de ano aparecem aquelas indefectíveis listas disso ou daquilo e muitas publicações optaram pelos Top-qualquer-coisa da década. A Revista Época, por exemplo, estampou em sua última capa de 2009, uma reprise da década reproduzindo uma das muitas trágicas fotos dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque (EUA).

Do ponto de vista histórico e lógico, a década não acabou. A primeira década dos anos 2000 encerra-se no próximo 31 de dezembro de 2010, ou seja, em 360 dias. A explicação é bem simples. A chamada Era Cristã em que vivemos não teve um ano zero. Tivermos um ano de número 1 d.C que sucedeu ao de número 1 a.C e, obviamente, se contarmos até 10 teremos, enfim, uma década.

É importante destacar que o Brasil e um grande número de países, principalmente do mundo Ocidental, utilizam-se do calendário gregoriano que foi promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582 para substituir o calendário juliano. A tentativa do Papa era unificar o tempo e corrigir a medição do ano solar, em voga até hoje (365 dias solares e aproximadamente, 6 horas). Logo: se usamos um calendário que tem como referência a Era Cristã, nada mais lógico que cada década tenha início em …1 e seja finalizada em ..10.

Há um entendimento, já bastante difundido na população, de que as décadas iniciam-se em “0″ e terminam em “9″. Ou seja, sob esta ótica a primeira década do novo milênio já se encerrou (2000 – 2009). Há até uma tentativa de explicação matemática porque o zero é o número que precede o inteiro positivo um. Entretanto, isso é apenas uma convenção e que cresceu em 1999, quando a Humanidade resolveu comemorar o novo milênio, equivocadamente ou não, em 2000 e não em 2001.

Como iniciei o artigo, o assunto não é importante. Eu, particularmente, prefiro usar a tradição gregoriana e torcer para que este último ano da primeira década do novo milênio seja pleno em realizações a todos nós. Mas não tenho dúvidas de que o uso popular consagrará às décadas o período compreendido entre “0″ e “9″. E o resto da discussão ficará para as Calendas Gregas.

O mundo encantado de Gilberto Kassab

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab - Foto: Sylvio Micellipor Sylvio Micelli

Diferentemente do que pensou a então candidata Marta Suplicy (PT), no início do segundo turno das eleições paulistanas em 2007, a vida pessoal de Gilberto Kassab (DEM) nunca me interessou. Gostaria, sim, que ele fosse um bom prefeito, mesmo sem o meu voto. Aliás, tenho por hábito votar em candidatos que raramente são eleitos. Isso porque voto em pessoas com as quais me identifico e não me submeto à polarização que a mídia sempre provoca nas eleições.

É lamentável constatar que a cidade de São Paulo está abandonada sob todas as formas e aspectos que o decoro permite relatar. Kassab, tanto na gestão herdada de José Serra como na sua própria, tem como marcas registradas, o vacilo, o balão de ensaio e a não solução dos problemas.

1. Cidade Limpa: a primeira grande meta de Gilberto Kassab, logo após a eleição de José Serra para o Governo do Estado, foi o projeto Cidade Limpa. Na verdade, um factóide que decepou a publicidade da maior cidade do país. Kassab alegou, à época, que a poluição visual era enorme. Isso é fato. E eu concordo. Mas deveria regulamentar a publicidade externa de forma decente. Acabou com os outdoors e reduziu o tamanho da publicidade externa. Muitos estabelecimentos abandonaram suas fachadas. O Cidade Limpa deixou a cidade sem poluição visual, mas suja, mal acabada. Além disso, as pixações, pinturas velhas e outras aberrações permanecem. Quem assistiu a Corrida de São Silvestre pela TV na semana passada, teve vergonha de ser paulistano.

2. Transportes: calcanhar de Aquiles desta e de outras gestões. Kassab, há mais de 3 anos no poder, pouco fez.

a) Rodízio de veículos: uma aberração do ponto de vista constitucional, pois fere o direito de ir e vir e que vem sendo mantida. O rodízio é, com perdão da palavra, uma burrice. A população comprou um segundo carro, o que aumentou a quantidade de veículos na cidade e, consequentemente, a poluição. Horário de pico? Agora você escolhe sua opção. Quer ficar preso em congestionamentos antes, durante ou depois do rodízio? Tanto pela manhã como no final do dia. Isso pouco importa. Quer sair da Mooca e ir à Praça da Sé, como é o meu caso? Você tem três opções: de carro – um trajeto de 5 km pode demorar mais de uma hora; de ônibus – idem ao carro. Além disso, os ônibus aqui são os elétricos. Quando cai a energia, nem quero comentar…; de metrô – tome um ônibus por uns 20 minutos para chegar ao Metrô Bresser. Ou vá na caminhada por igual período. Se conseguir entrar no vagão do metrô, vá como sardinha em lata até a Estação Sé;

b) Ônibus Fretados: outro vacilo de Kassab e de seu braço direito, o secretário Alexandre de Moraes. Os fretados abusavam da boa vontade no caótico trânsito paulistano? Por que eu vou regulamentar se é melhor podar, não é mesmo? Simples! Jogo os fretados para os pontos mais longínquos da cidade e faço todos acreditarem que um ônibus com 40, 50 passageiros incomoda mais do que se estes mesmos passageiros estivessem com seus carros. Depois eu me arrependo da bobagem que fiz e resolvo liberar os fretados na Berrini, ponto de grandes empresas da cidade.

c) Zona Azul: os agentes da CET (Companhia de Engenharia e Tráfego), que nada entendem de engenharia, nem de tráfego servem apenas para multar. Quando resolvem agir no trânsito, mais atrapalham do que se nada fizessem. Além disso, o cartão de Zona Azul pulou de R$ 1,80 para R$ 3,00. A alegação é de que foram anos sem aumento. Oras… Isso não significa que, quando você vai aumentar, precisa trazer toda a inflação do período. Raramente se encontra cartões a preço oficial. E você ainda estaciona, em determinados lugares para ser furtado.

d) Estacionamentos: a prefeitura nada faz. Estacionar na cidade é sinônimo de extorsão. Ano passado eu tive que pagar R$ 10 por 8 minutos de estacionamento. Há regiões da cidade onde o cartel rola solto. A prefeitura deveria subsidiar os estacionamentos para que a cidade pudesse respirar.

e) Inspeção Veicular: este tema foi a piada de 2009. E promete ser a piada de 2010. De mau gosto, óbvio! Em 2009, a prefeitura de Kassab decidiu fazer a inspeção veicular. Para isso, obrigou apenas os veículos novos de fazê-la. Oras… Se a inspeção é para manter a qualidade do ar, não seria correto começar com os carros mais antigos? Ou todos de uma vez? Além disso, você pagava uma taxa de R$ 52,73 para depois ser ressarcida pela prefeitura. A empresa responsável pela inspeção era a desconhecida Controlar e de repente se transformou numa potência adquirida pelo Grupo CCR, que controla as maiores estradas do país. Tudo muito estranho, num curto espaço de tempo. E a piada em 2010 permanece. Agora a prefeitura não vai devolver a taxa alegando que uma lei federal a impede de fazer o ressarcimento.

f) Tarifa de Ônibus: o presente de Ano Novo de Gilberto Kassab é aumentar a passagem de ônibus de R$ 2,30 para R$ 2,70. A alegação é a mesma da Zona Azul. Há tempos não se aumentava. Isso não significa que precisa ser tudo de uma vez. E, possivelmente, teremos que aguentar o prefeito falando que cumpriu uma promessa de campanha, afinal, desde sua posse, o valor permaneceu inalterado.

3. Serviço Público: seguindo a linha neoliberal característica da parceria PSDB/DEM, Kassab fez duas coisas com o funcionalismo público da cidade de São Paulo:

a) transformou o Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), patrimônio dos servidores paulistanos em hospital geral. A prefeitura deixou de descontar os 3% que o funcionalismo contribuía para o custeio do HSPM e abriu suas portas ao SUS. Vendeu a ideia como se fosse um grande negócio, afinal os servidores tiveram um “aumento real” nos vencimentos. Uma bobagem: aumento e reposição são coisas que o funcionalismo geralmente luta muito para ter muito pouco;

b) deu publicidade ao salário do funcionalismo, no mais alto estilo “Caçador de Marajás” de Fernando Collor de Mello. Outra grande bobagem. O subteto do funcionalismo não pode ser refém do proselitismo político. Nem de Kassab, nem de Serra. Se há abusos, estes devem ser corrigidos. Simples, assim.

4. Chuvas e inundações: culpar São Pedro pelo excesso de chuvas nada resolve. É sabido que a população tem boa parcela de responsabilidade nas inundações ao jogar de tudo nos córregos e rios. Mas cabe ao poder público: a) educar a população, b) agir de forma rígida, limpar córregos e rios, antecipando-se às inundações; c) promover políticas habitacionais que visem retirar moradores de áreas comprometidas; d) não ser leniente nem corrupto com ocupações desorganizadas e crescimento desordenado da cidade. O total abandono que vimos dos moradores do Jardim Romano, Jardim Pantanal e adjacências foi um absurdo. Duvido que se a inundação tivesse ocorrido na Vila Olímpia, se a prefeitura não teria tomado as devidas providências. Importante destacar aqui, que as subprefeituras continuam sendo usadas como moeda de troca política e competência, não necessariamente, faz parte dos indicados.

5. IPTU: o glorioso Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) chega no Ano Novo, mais gordo com “módicos” índices de até 45%. Aqui, mais uma vez, Kassab recuou. O projeto original encaminhado à Câmara Municipal previa índices de até 60%. O prefeito alega que algumas melhorias feitas na cidade, como estações de metrô por exemplo, valorizaram os imóveis e aumentaram o valor venal das propriedades. E os donos devem pagar. Os aumentos agora devem ser bienais.

Resumindo: a cidade de São Paulo está suja, triste e abandonada. Com as chuvas de verão, a tendência é piorar. Buracos, inundações, trânsito, caos, lixo e a sensação de que não há comando na maior cidade do País. Mas Kassab diz o contrário num mundo encantado aonde ele e seus apaniguados políticos habitam.

São Pedro: o eterno culpado

São Pedro por Albrecht Dürerpor Sylvio Micelli

Deu apagão no país? A chuva caiu e inundou o Rio Tietê? Queda de barreira na Mogi-Bertioga? Mortes em Angra dos Reis e Ilha Grande? Para esses e outros fatos que já aconteceram e que venham a acontecer já há um culpado. E é o melhor culpado que o ser, dito humano, poderia arrumar. Ele é um santo!

Trata-se de São Pedro, o detentor das chaves do céu.

Pedro nasceu Simão. Era pescador. Ao se tornar um dos doze apóstolos de Jesus, teve seu nome alterado por Cristo: “E eu te declaro: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra, será desligado nos céus”. E aí começou o martírio de São Pedro, o primeiro Papa da Igreja Católica.

Sobre ele recaem todas as culpas das intempéries de nosso tresloucado clima. Nossos governantes, quaisquer que sejam eles, alegam que o “excesso de chuvas” ou que “mudanças climáticas” causaram isso ou aquilo. Nossa população também o culpa pelas chuvas ou estiagens prolongadas.

Nosso querido Pedro, independente da religião que se tenha, não tem culpa de nada. Não foi ele quem desmatou florestas que mudaram o clima. Também não é ele que construiu casas, barracos e moradias nas encostas dos morros ou lugares de fácil inundação. Tampouco foi Pedro que abriu estradas que desrespeitam a Natureza. E sendo guardião dos céus, também não foi Pedro que jogou todos os lixos que são arremessados nos córregos, rios, ruas.

Quando acontecem essas tragédias, os mortos são contados e depois de sepultados nada é resolvido. Nossos políticos não investem o que deveriam em políticas habitacionais. As cidades continuam crescendo de forma desordenada e muitas vezes invadindo terrenos que não poderiam. E só o fazem com a leniência do poder público. Nossa gente continua sem educação jogando, em qualquer lugar, tudo o que deveria ser jogado no lixo. As políticas de reciclagem do material inservível ainda são pálidas iniciativas de organizações sociais.

Ou seja. São Pedro não tem nada a ver com a história. Nem na bela Angra dos Reis, nem no pobre Jardim Romano. O máximo que lhe compete é saber se os mortos podem adentrar os céus ou não. Quanto à maioria dos nossos políticos e às pessoas que jogam lixo na Natureza, a possibilidade de encontrarem com São Pedro é bem remota.

Ainda não foi aprendida a lição que Einstein deixou: “Quando agredida, a natureza não se defende. Apenas se vinga.”

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Sylvio Micelli

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