por Sylvio Micelli

Muitos amigos não entendem o apreço que tenho pelo futebol sulamericano. Sobretudo o argentino e o uruguaio. Sei que são concorrentes diretos do Brasil, mas a raça de ambos torna o esporte ainda mais especial.

Exemplo claro disso foi a segunda partida das quartas de final da Copa da África do Sul entre Uruguai e Gana, que aconteceu nesta sexta (02), logo depois de lambermos as feridas pela desclassificação do Brasil diante da Holanda.

A equipe africana dominou boa parte do jogo, contou com o imenso apoio da torcida, mas ao final, a magia da velha Celeste Olímpica voltou a brilhar.

Tudo seria mais um jogo complicado com empate no tempo normal e na prorrogação e a decisão nos pênaltis, quando no último minuto do segundo tempo da prorrogação, o atacante Luis Suárez, que nada fez no jogo inteiro (exceto perder um gol incrível), agiu do modo que somente um latino poderia fazer.

Numa cobrança de falta e no bate e rebate da bola, Adiyiah tocou para o gol que fatalmente colocaria Gana na semifinal da Copa, algo inédito para uma equipe do continente africano. A única alternativa de Suárez foi defender a bola com as mãos. Foi corretamente expulso e o pênalti marcado para os africanos. Um dos principais jogadores ganenses – Asamoah Gyan – bateu e a bola no travessão foi para fora.

Entrou em campo o imponderável e de um ato antidesportivo, ainda que dentro das regras do futebol – um jogador da linha defender a bola com as mãos – cria-se um herói. Logo após o pênalti perdido, o jogo foi encerrado. Suárez, a caminho dos vestiários, troca o choro compulsivo pela comemoração de um gol que ele não permitiu com “la otra mano de Dios”.

Robustecido pela inimaginável decisão de pênaltis, Uruguai venceu Gana, com direito a mais um gol maravilhosamente nervoso de El Loco Abreu com o seu habitual e irritante sangue frio nas cobranças de penalidade. E como disse Asamoah Gyan para o jornal português “A Bola” sobre o ato de Suárez, “agora é ele o herói do seu país…”.

Coisas que só o futebol tem.

E desde já torço por uma final entre Uruguai e Argentina. Seria fantástico ver a “reprise” da primeira final de uma Copa do Mundo, 80 anos depois.

Abram o olho. 40 anos depois, a Celeste Olímpica está de volta.