Archive for agosto, 2010

Corinthians – 100 anos: “Ser corinthiano é ir além”

por Sylvio Micelli

Não tenho a intenção de contar aqui a história do Sport Club Corinthians Paulista. Falta-me competência para tanto. Sou apenas um torcedor desta nação, religião, clube, sociedade, enfim. Sou mais um, em meio a tantos e tantos milhões.

Minha ascendência italiana sempre rendeu-me perguntas do porquê de torcer pelo Corinthians. Era mais ou menos óbvio, no imaginário das pessoas, que eu fosse torcedor do Palmeiras.

Conto-lhes, enfim, o porquê.

Nasci e fui criado no Jaçanã, um bairro de classe média pobre (se é que ainda existe este patamar econômico), no extremo norte da cidade de São Paulo. O bairro, famoso graças ao “hino” do Adoniran Barbosa, era composto por gente simples, batalhadora, trabalhadora que demorava, nos antigos ônibus da extinta CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), cerca de duas horas para chegar ao centro da cidade. Lembro-me, aliás, que era comum falarmos em “ir à Cidade”, quando referências eram feitas ao centro da Capital. O metrô mais perto, à época, era a recém-inaugurada estação de Santana.

Lá não existia muito lazer, situação por sinal que, infelizmente, pouco foi alterada mesmo depois de quase 40 anos. A diversão da molecada era jogar bola, taco (bets) e quando alguém tinha um troco a mais, improvisávamos uma rede de voleibol no meio da rua presa aos portões das casas.

A rua aonde morava – a Ubaporanga – era uma espécie de rua corinthiana. Lá não existia outro clube, exceção feita ao Guapira. Parecia torneio de um time só. E em meados dos anos 70, todos os finais de semana, a rua recebia retoques de tintas branca e preta. Vejam que não era uma pintura em época de Copa do Mundo. Era uma pintura para ouvirmos, vejam bem, ouvirmos o Corinthians no final de semana. Que a molecada saiba que naquela época, pouco se transmitia jogos na TV.

Aos domingos pela manhã, o cheiro de macarronada com frango dominava a rua. Eu ía na padaria da esquina comprar uma garrafa de guaraná caçulinha, que rendia o dia todo.

Pontualmente, dez minutos antes de começar o jogo, todos – sem exagero – todos ligavam o rádio na Bandeirantes para ouvir o locutor da torcida brasileira, Fiori Gigliotti. Sua narração declamada e metafórica com os bordões “abrem-se as cortinas e começa o jogo” ou “crepúúúússssculo de jogo, torcida brasileira” ecoavam como se o Pacaembu ou Morumbi ficassem na porta de casa.

Os gols eram comemorados com uma paixão incomensurável. Ao final do jogo, os rádios íam sendo desligados e nossa rua se recolhia porque na segunda era dia de trampo.

E foi assim ao longo de muitos anos.

Na zona abissal de minha memória lembro-me de vizinhos indo para a “invasão do Maracanã” em 1976.

Mas o ano seguinte – 1977 -, a narração do gol do Basílio ainda ecoa no meu cérebro. Já era fanático. Ouvi o Fiori Gigliotti, o José Silvério e o Osmar Santos. E ouvi, ouvi, ouvi milhões de outras vezes. E vi, vi, vi, vivi e revivi outras centenas de vezes. E quando revejo, meu coração se aperta. Sempre tenho a sensação de que aquela maldita bola não vai entrar, mesmo já sabendo o resultado.

O primeiro jogo que assisti em estádio foi no dia 08 de julho de 1979 no Estádio Municipal Doutor Paulo Machado de Carvalho, conhecido mundialmente como Pacaembu. Uma vitória tranquila por 2 a 0 contra o Marília com gols de Geraldão e Sócrates que, por sinal, foram os artilheiros da equipe daquele campeonato que teve o Corinthians como campeão.

Depois desse, muitos outros jogos vieram. Já perdi a conta. Já vi o Corinthians em diversas regiões e estádios, jogos antológicos, ruins, alegres ou tristes. Mas o cantor e compositor Toquinho já nos ensinou:

“Ser corinthiano é ir além
De ser ou não ser o primeiro.
Ser corinthiano é ser também
Um pouco mais brasileiro.”

Para montar uma seleção do Corinthians, a minha ideal é a seguinte: Ronaldo; Zé Maria, Domingos da Guia, Gamarra e Wladimir; Luizinho, Sócrates e Rivelino; Cláudio, Baltazar e Marcelinho Carioca.

Não dá para expressar a paixão em poucas palavras e ainda que eu usasse todos os vocábulos do mundo, eles seriam poucos para descrevê-la.

Também não adianta tentar explicar aos outros. Como disse a nossa querida Hortência Marcari, maior jogadora do basquete nacional e corinthiana fanática (pleonasmo!!!!) no filme “23 anos em 7 segundos”: “não adianta querer explicar. Quem é corinthiano sabe o que estou falando. E quem não é, nunca vai entender”.

Respeito verdadeiramente os outros times. Claro que brinco com meus amigos, por vezes irrito-me, mas não tinha jeito. Estava escrito. Mesmo sendo descendente de italianos eu tinha de ser a ovelha negra. Ou melhor: alvinegra. Sou povo. Sou Timão. E com muita honra: corinthiano, maloqueiro e sofredor.

Graças a Deus!

Greve: relator do dissídio entende que greve é legal e limita a 40% a possibilidade de adesão ao movimento

por Sylvio Micelli / ASSETJ

CLIQUE AQUI E CONFIRA A ÍNTEGRA DO VOTO DO RELATOR SAMUEL ALVES DE MELO JÚNIOR

Aconteceu na tarde desta segunda (30), no Palácio da Justiça, sede do Judiciário paulista, mais uma Audiência de Conciliação da Ação de Dissídio Coletivo por Greve (Nº 990.10.205854). Foi a terceira audiência do dissídio impetrado em maio e a primeira com a participação do novo relator, desembargador Samuel Alves de Melo Júnior, que assumiu a complexa missão na semana passada. Além do relator, participaram da audiência, o desembargador Antonio Carlos Malheiros, representantes de Entidades dos Servidores (associações e sindicato), o representante do Ministério Público, subprocurador Sérgio Turra Sobrane; a representante do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Lilian Salvador Paula, da Secretaria de Recursos Humanos; representantes do Governo do Estado de São Paulo e todos os advogados das entidades.

O relator da ação iniciou a audiência com algumas informações sobre a demora no julgamento. “O dissídio coletivo é uma novidade para todos nós”, alegou. Em seguida passou a analisar, de forma pormenorizada, os itens descritos na ação. Fez comentários de ordem jurídica, avaliou sua responsabilidade como relator do feito e iniciou a leitura de seu voto.

Percentual de paralisação

O primeiro embate da audiência foi a questão do índice de paralisação. A secretária do SRH, Lilian Salvador Paula, no ato representando o TJ-SP, afirmou que deveria ser garantida a permanência de 90% da categoria trabalhando, “tendo em vista a duração da greve” [que hoje completou 125 dias]. As entidades defenderam o que está estabelecido na Lei Federal nº 7783/89, que regulamenta o exercício da greve na iniciativa privada, ou seja, 70% em greve. O MP ponderou por um percentual de 85% de servidores trabalhando contra 15% em greve. O TJ-SP fez nova contraproposta de 70% da categoria trabalhando e as entidades chegaram a um percentual de 50% a 50%.

O RELATOR VOTOU: 60% DE SERVIDORES TRABALHANDO E 40% DE SERVIDORES EM GREVE

Como vai funcionar: cada unidade cartorária deverá manter este percentual. Se um cartório tiver 10 servidores haverá o limite de 4 em greve. Se houver necessidade de arredondamento, este será para mais em matéria de servidores trabalhando. Uma unidade cartorária que tiver 9 funcionários deverá ter, no máximo, 3 em greve (60% de 9 = 5,4 e pelo arredondamento serão 6 trabalhando). Caso isso não for cumprido, as entidades serão multadas em R$ 10 mil por dia com base no Artigo 10º da Lei Federal nº 7783/89. O artigo trata dos chamados serviços essenciais (*).

Sobre a legalidade da greve

Com base no Artigo 37, VII da Constituição Federal (*) e o julgamento dos Mandados de Injunção 708-DF e 712-PA pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e ainda com base no Artigo 5, II também da CF (*), o relator afirmou que “não há como declarar a greve como ilegal“. Lembrou que são normas constitucionais “aptas aos seus efeitos” e a que a greve é um “fato social de autodefesa” na garantia dos direitos. Ele reproduziu trecho de voto do Ministro Celso de Mello sobre a matéria e refutou o voto do Ministro Eros Grau, alegado pela Procuradoria Geral do Estado, afirmando que o voto do ministro foi apenas uma opinião pessoal que “não fez coisa julgada” por não ter sido aprovada pela maioria dos ministros do STF.

O RELATOR VOTOU: RECONHEÇO O DIREITO DE GREVE COMO PRINCÍPIO LEGAL

Como vai funcionar: o voto do relator, além de embasado, é contundente. É sempre importante lembrar que a decisão final cabe ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e o relator afirmou, por várias vezes, da necessidade de permanecer em negociação para um acordo. Lembrou, ainda, das consequências sérias caso a greve seja declarada abusiva.

Sobre as faltas-greve

O relator entendeu que a ação de dissídio suspende o contrato de trabalho, ainda que seja numa relação do serviço público e que as faltas não podem ser anotadas como justificadas ou injustificadas porque isso só cabe na análise do mérito da ação.

O RELATOR VOTOU: AS FALTAS DOS SERVIDORES GREVISTAS DEVEM SER ANOTADAS COMO FALTAS-GREVE RETROAGINDO SEUS EFEITOS AO INÍCIO DO MOVIMENTO, OU SEJA, 28 DE ABRIL DE 2010

Como vai funcionar: o TJ-SP deve anotar, “provisoriamente”, todas as faltas como faltas-greve estando impedido de colocá-las como justificadas ou injustificadas. O relator alegou que nada impede que, após e somente após o julgamento do mérito, elas podem ser transformadas em justificadas ou injustificadas, com as sanções decorrentes ou extintas num processo de acordo por mutirão que já está sendo discutido.

Segundo o relator, os descontos feitos nos salários dos grevistas devem ser negociados por acordo.

Após a realização desta audiência, os representantes das entidades permaneceram no Palácio da Justiça reunidos com os desembargadores Willian Campos e Antonio Carlos Malheiros para continuarem o processo de negociação. A maior discussão permanece a questão do índice de reposição. Willian Campos afirmou que ocorrerá, nesta semana, reuniões entre o Judiciário e o Executivo na tentativa de suplementação de verba.

Nova rodada de negociação entre os desembargadores e os representantes das entidades acontece entre amanhã (31) e quinta-feira (02), com data ainda a ser confirmada.

Ao descer do Palácio da Justiça, dezenas de servidores receberam informações sobre a audiência pública feitas pelo presidente da Associação dos Servidores do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, José Gozze, acompanhado pelos demais representantes das entidades.

Gozze avaliou que o voto do relator Samuel Alves de Melo Júnior foi “importante”. “São três itens de suma importância na nossa luta: ele reconheceu que a greve não é ilegal como havia tentado a Procuradoria Geral do Estado; determinou um percentual importante de paralisação que norteará os desdobramentos do nosso movimento e definiu, como já havíamos falado várias vezes, que falta-greve não é justificada ou injustificada. Greve é greve”.

(*) Confira as leis citadas na matéria

CONSTITUIÇÃO FEDERAL

Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
(…)
II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.

Art. 37 – A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
(…)
VII – o direito de greve será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)

LEI FEDERAL nº 7783/89, DE 28 DE JUNHO DE 1989

Artigo 10 – São considerados serviços ou atividades essenciais

AGENDE-SE

01 DE SETEMBRO – 127º DA GREVE – QUARTA-FEIRA

- 09 HORAS – REUNIÃO DO COMANDO ESTADUAL (Local: Lega Italiana – Praça Almeida Júnior, 86 – Liberdade – São Paulo)

- 14 HORAS – DÉCIMA-NONA ASSEMBLEIA GERAL ESTADUAL NA PRAÇA JOÃO MENDES

O horário político eleitoral e o exame de próstata

por Sylvio Micelli

Há duas semanas começou o horário político eleitoral no rádio e na televisão. Até o final de setembro seremos brindados (ou não) com promessas evasivas que transformam o Brasil numa Dinamarca.

De dois em dois anos são sempre as mesmas reclamações.

Os grandes conglomerados de mídia reclamam do fato de ser um horário gratuíto que os impedem de auferir lucros ainda maiores. Alegam, por exemplo, que o custo de mais de R$ 800 milhões (nesta campanha de 2010) saem dos bolsos do contribuinte e que é injusto ser gratuíto para eles. Afirmam, ainda, que prejudicam a “prestação de serviço” que acreditam dar ao cidadão. As emissoras de rádio e TV acham que fazem um relevante favor em nome da democracia, ao realizarem debates com os principais candidatos, geralmente escolhidos pela própria mídia. Nunca é concedido espaço igual a todos os candidatos, sempre sob a pálida desculpa de que são muitos candidatos.

A população, em boa parte alienada, reclama da qualidade dos programas e, principalmente da qualidade dos próprios candidatos pois, afinal, toda a eleição tem um novo Cacareco (*). Muitos alegam que o debate de ideias fica camuflado por trás de programas que visam apenas conquistar votos. Outros não estão nem aí. Preferem desligar a TV ou o rádio na hora dos programas.

Diz um velho ditado que “casa onde falta pão, todo mundo reclama e ninguém tem razão”.

As reclamações, tanto da mídia como do eleitorado, parecem-me equivocadas.

A democracia ainda é imberbe no Brasil. Há uma sensação generalizada de que eleição é um mal necessário, pelo qual devemos passar a cada dois anos, como se fossem terríveis sessões de quimioterapia a expugar todo o mal que a classe política nos concede.

Os veículos de comunicação deveriam abster-se das críticas. Não poderiam se esquecer de que são concessões públicas e que eles não fazem mais do que a obrigação em divulgar as candidaturas. Eles poderiam ir além, ao promover debates amplamente democráticos e com candidatos a todos os cargos eletivos. Uma ou outra emissora ainda tenta. Mas ainda é muito pouco.

Ao eleitor, ainda falta cultura política. Por exemplo: os candidatos famosos compostos por humoristas, ex-atletas, cantores, filhos de apresentadores e mulheres que atendem por nome de frutas e afins, não deveriam ser criticados. É uma ironia. A mesma sociedade que lhes concede fama, ainda que sejam os tais quinze minutos eternizados por Andy Warhol, critica-lhes pelo exercício de cidadania.

Eu não me importo com candidatos famosos. Se eles forem competentes, que mal há. Há muitos candidatos desconhecidos (a grande maioria) que são o mais puro creme do lixo.

Enfim, vejo o horário eleitoral tal e qual o exame de próstata na avaliação do médico Dráuzio Varella, cuja competência e didatismo superou os consultórios e virou até filme. Varella, sobre o exame que traz desconforto e uma certa irritabilidade aos homens, afirma que é necessário, mas não o vê como um mal necessário. E, sendo um exame de toque, foi feito para uma avaliação médica e não para dar prazer.

Horário político é a mesma coisa. Não é um programa de entretenimento igual a tantos de qualidade duvidosa que passam em nossas péssimas emissoras de rádio e TV. Foi feito, mesmo com limitações, para uma avaliação dos candidatos.

A qualidade do horário e dos candidatos é um reflexo da sociedade. À medida que esta sociedade for amadurecendo, há uma tendência de sensível melhora nos candidatos e propostas. Abrir mão do horário político é uma aberração que remete aos tempos da ditadura e que uma sociedade, ainda que levemente democrática, não pode permitir.

(*) Cacareco foi um rinoceronte do Zoológico de São Paulo que, nas eleições de outubro de 1958  para vereador da cidade, ganhou cerca de 100 mil votos. À época, a eleição era realizada com cédulas de papel e os eleitores escreviam o nome de seu candidato de preferência.

Cacareco foi um dos mais famosos casos de voto nulo em massa da história da política brasileira, uma vez que se tornou o “candidato” mais votado do pleito: o partido mais votado não chegou a 95.000 votos.

Após o resultado das eleições, Stanislaw Ponte Preta comentou no jornal Última Hora que “diversos membros da cúpula do PSP andaram rondando a jaula de Cacareco, para o colocarem no lugar de Adhemar de Barros”. Já o então presidente Juscelino Kubitschek declarou: “Não sou intérprete de acontecimentos sociais e políticos. Aguardo as interpretações do próprio povo”.

A idéia de lançar o animal como candidato teria sido do jornalista Itaboraí Martins, em protesto contra o baixo nível dos outros 450 concorrentes. O fato se tornou notório e serviu como referência para várias análises de percentuais no Brasil de voto nulo e dos chamados votos de protesto.

Fonte: Wikipedia

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