por Sylvio Micelli

A mais recente pesquisa eleitoral para o cargo de presidente da República indica que a candidata Dilma Rousseff (PT) conta com mais de 50% dos votos. Não confio muito em pesquisas. Elas sempre tem interesses subjacentes. Seja como for, todas as pesquisas apontam que a petista vencerá José Serra (PSDB) no primeiro turno.

Para boa parte dos tucanos que julgavam Dilma Rousseff um poste, o que não condiz com a realidade dos fatos, Serra está perdendo para ela. E se fosse Marina Silva (PV), Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), ou um cone de trânsito, ele seria derrotado da mesma forma.

Isso porque Serra já perdeu. E pior: para ele mesmo.

Ao longo da última década, José Serra adotou estratégias políticas erradas. Dono de uma peculiar arrogância, tratorou colegas de partido e correligionários e agora paga o altíssimo preço do abandono. O PSDB virou-lhe as costas de uma forma tão cristalina que a situação, além de inusitada, chega a ser patética.

Lembremos um pouco da história.

Em 2002, Serra se candidatou à presidência. Lá ele já não era uma unanimidade dentro de seu partido. Mas depois de oito anos de FHC era o melhor quadro que os tucanos dispunham. Mário Covas tinha acabado de falecer e Geraldo Alckmin assumiu o cargo de governador de São Paulo para “aprender” o ofício no maior estado do País. Serra foi derrotado por Lula, o que era meio óbvio. Mesmo com todo o terrorismo eleitoral perpetrado pela mídia da época, o risco-país em patamares astronômicos, o dólar na casa de R$ 4, não havia jeito de Lula ser derrotado, até pelo processo histórico de redemocratização do país. Talvez aí tenha sido o primeiro erro de avaliação de Serra. Ele poderia ter deixado outra cabeça, que não a dele, rolar na disputa contra Lula. Porque o mundo sabia que a vitória do petista era inevitável.

Em 2004, Serra candidatou-se à prefeitura de São Paulo tendo como vice, Gilberto Kassab (DEM). Ao não investir numa chapa “pura”, composta apenas por membros do PSDB, Serra gerou uma grave fissura no partido, uma ferida não curada até hoje. Criou-se a briga interna travada por “serristas” e “alckimistas”.

Dois anos depois, sem terminar o mandato de prefeito, ele sai candidato ao Governo do Estado de São Paulo. Serra opta agora por uma chapa pura com Alberto Goldman. Vence, mas também não termina o mandato.

Seu maior erro, a meu ver, aconteceu em 2008. Serra apoiou claramente a reeleição de Gilberto Kassab (DEM), mesmo tendo o PSDB um candidato próprio, Geraldo Alckmin, que chegou em 3º lugar. Ao entrar no barco vitorioso de Kassab, o tucano virou as costas para o seu partido.

Há um ditado italiano a ensinar, há séculos, que “a vingança é um prato que se come frio”.

José Serra, que já havia cometido muitos erros em suas estratégias, fez impor seu nome para a corrida ao Palácio do Planalto. Chegou a dar um cargo para Alckmin, em seu governo, como a saldar suas dívidas. Mas isso não resolveu.

Perdeu o segundo maior colégio eleitoral do Brasil com Aécio Neves, seu colega de Minas Gerais. Escolheu um vice-presidente, o senador Álvaro Dias (PSDB) que não contava com o respaldo da aliança demo-tucana. Teve que trocar de vice na marra com Índio da Costa (DEM) e gerou mais fissuras também no DEM.

E como dizem no popular: a casa caiu. Aliás, nem caiu. Sequer chegou a ser alicerçada.

Sua campanha vai de mal a pior. Além da favela cenográfica que foi criticada até por seus apoiadores, ele está visivelmente perdido. Virou alvo de chacota como o vídeo que reproduzo acima.

Como escrevi aqui no blog no último dia 08, no primeiro debate entre os candidatos à presidência, “Serra com sua empáfia habitual, foi tragado durante o debate. Desatento, não prestava atenção às perguntas formuladas. Falou a maior parte do tempo sobre as questões de saúde. Chegou até a falar de cirurgia de varizes, assunto de somenos importância diante do caos da saúde brasileira. De prático disse apenas que irá criar a Nota Fiscal Brasileira, a exemplo da Nota Fiscal Paulista, um embuste que serve para dar grandes prêmios a poucos e que não resolve os colossais problemas tributários do Brasil.

Para quem é de São Paulo, conhece José Serra de longa data. Ele faz com que eu lembre de uma antiga propaganda de um jornalão paulista. Ele tem “cara de conteúdo”. Faz a alegria da centro-direita dominante. Julga-se acima do bem e do mal. Mas não sabe dialogar com as massas. Odeia ser lembrado que faz parte da turma do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin e relata uma série de coisas que pretende fazer em nível nacional que não fez em nível estadual”.

O futuro de José Serra é incerto e não sabido. Talvez ele ganhe um prêmio de consolação, caso Geraldo Alckmin seja eleito. Talvez volte em dois anos para concorrer à prefeitura de São Paulo ou só reapareça em 2014 pleiteando uma vaga no Senado Federal ou na Câmara dos Deputados.

Quero deixar claro que não estou menosprezando a campanha da petista. Também não entrarei no mérito de nenhuma das campanhas. Particularmente, tenho motivos suficientes para não votar em nenhum dos dois. Também não gosto desse maniqueísmo eleitoral que transforma as campanhas num jogo de truco. A grande mídia – do lado de cá e do lado de lá – escolhe seus preferidos e jogam isso para o eleitor.

Nesta pseudo-democracia em que vivemos, o pluripartidarismo e a pluralidade de ideias e propostas deveria ser melhor explorada e não ficar meramente no discurso. Mas para tanto falta uma profunda reforma política que não interessa a ninguém. Perdemos todos, mas isso pouco importa. Há, de lado a lado, apenas planos de poder e não planos de governo.

Para quem ainda acha que os resultados só saem após a apuração dos votos devo avisar que milagres eleitorais acontecem na mesma proporção que coelhinhos da Páscoa ou Papais-Noel aparecem na janela aqui de casa.