O estádio do Corinthians, a inveja alheia e o investimento público

por Sylvio Micelli (*)

Na semana de seu centenário, o Corinthians anunciou o projeto de um novo estádio e o governo e a prefeitura acenaram com a possibilidade de que este estádio venha a sediar jogos da Copa do Mundo de 2014. Isso levantou várias discussões e a ira de torcedores de outros clubes. As análises são feitas, no geral, de forma irracional. Os textos e manifestações que li são escritas por torcedores de outros clubes cuja paixão futebolística não permite a reflexão e a importância do projeto para a cidade de São Paulo.

A paixão do torcedor é plenamente explicável. Sou corinthiano e sei como é. Mas daí a criticar projetos dos clubes é uma bobagem e um desserviço à cidade. Eu não sou contra a Arena do Palmeiras. Também não sou contra o Estádio do São Paulo. Gostaria que a Portuguesa tivesse uma estrutura ainda melhor, diante da excelente localização do Canindé e que o “Monumental” da Rua Javari, estádio do nosso amado Juventus, ao menos tivesse iluminação que possibilitasse jogos noturnos. Também não discordo de que o Santos deveria ter um estádio digno de sua história. Enfim, acho uma tremenda bobagem, críticas enlouquecidades. Ao detonar o estádio do time alheio, dá-se um tiro no pé.

O novo estádio do Corinthians deve ficar em Itaquera, zona leste de São Paulo. Digo novo porque os detratores do Corinthians se esquecem, propositadamente, do estádio Alfredo Schürig, nossa popular “Fazendinha” que, se acanhada hoje, já abrigou muitos jogos no passado. É óbvio que a “Fazendinha” não tem suporte para os nossos milhares de torcedores e também é verdadeiro que, histórica e lamentavelmente, o Corinthians sempre foi muito mal administrado. Do contrário, pela grandeza de sua torcida, o time já teria estádio há muito tempo e, sem nenhum exagero poderia estar entre os clubes mais rentáveis do planeta.

O projeto de um estádio no bairro de Itaquera também não é novo. Tanto, que a estação de metrô que lá se instalou há mais de duas décadas, leva o nome de Corinthians-Itaquera. Depois, por inveja alheia e proselitismo eleitoral, nossos digníssimos vereadores resolveram colocar nomes de clubes de futebol em diversas estações. Tem até clube que nem é da cidade, mas recebeu o nome de uma estação próxima à rodovia que leva à cidade. Original, porém, só a que leva o nome do Corinthians.

Investimento público e promiscuidade

Li muitas críticas dizendo que há uma relação “promíscua” de Andrés Sanchez, presidente do Corinthians; Ricardo Teixeira, presidente da CBF e dos políticos em geral. Seria muito inocente da minha parte desacreditar que não haja um forte lobby para tal finalidade. Entretanto, tem muito clube aí se comportando como noiva virgem e que se esquece da história de seus estádios.

O Parque Antarctica, por exemplo, foi construído pela Companhia Antarctica Paulista para o seus funcionários no final do século XIX. Entre idas e vindas, problemas com o Germânia à época da Primeira Grande Guerra e dificuldades financeiras, o Palestra Itália (com o apoio da Companhia Matarazzo) efetuou, em 1920, a compra do campo de futebol e de grande parte do terreno do Parque Antarctica, pelo valor total de 500 contos de réis (uma ninharia hoje que não chega a 1 milhão de reais), sendo 250 contos à vista, e outras duas parcelas anuais de 125 contos cada, além de um contrato “perpétuo” de venda dos produtos da Companhia Antarctica nas dependências do estádio. Claro que aqui, parece não haver dinheiro público envolvido, mas o Palmeiras comprou seu estádio com o apoio de uma empresa que dava suporte ao clube por laços italianos, por uma pechincha e ainda fez um contrato “perpétuo” de venda de produtos. Convenhamos que não é uma relação comercial tão ilibada assim.

Mas o grande problema ocorre com o estádio do São Paulo.

Todos sabemos que o clube teve fortíssimo apoio do poder público numa relação que envolveu o governador de São Paulo, Adhemar de Barros; o prefeito de São Paulo, Armando Arruda Pereira; o presidente do clube e que dá nome ao estádio, Cícero Pompeu de Toledo e Laudo Natel que foi tesoureiro, presidente do São Paulo e até governador biônico no regime militar anos depois.

Em dezembro de 1950, a Imobiliária Aricanduva (cujo dono era Adhemar de Barros), conseguiu empréstimo do Governo do Estado (cujo governador era, por coincidência, Adhemar de Barros) para terraplanar e criar toda a infraestrutura em uma gleba na região do Morumbi. Foi um escândalo de corrupção à época. O bairro, com todas as benfeitorias, passou a se chamar Jardim Leonor, nome da esposa de Adhemar de Barros. Um ano depois, em 1951, o São Paulo convidou Laudo Natel (político ligado a Adhemar de Barros) para ser o tesoureiro do clube. Este negociou a compra de 68 mil metros quadrados na região e “ganhou” do Governo do Estado mais 90 mil metros quadrados. Em 1955, três anos depois, o São Paulo vendeu ao Governo do Estado o terreno do Canindé (que o clube havia ganhado 11 anos antes), sem qualquer benfeitoria adicional. O Governo comprou e repassou à Portuguesa, que se viu obrigada a construir campo e arquibancada para começar a usar, pois estava completamente abandonado.

Ao lado há um documento histórico, datado de 04 de agosto de 1952. É o termo de doação do terreno, onde está localizado hoje o estádio do Morumbi, para o São Paulo. Foi doado pela Imobiliária e Construtora Aricanduva S/A, com intermediação do prefeito de São Paulo na época, Armando de Arruda Pereira. Pelo São Paulo assinou Cícero Pompeu de Toledo. Pelo acordo o São Paulo se compromete a utilizar 3/4 do terreno para a construção do estádio. O problema vem a seguir. No restante do terreno teriam que ser construídos:

1- Parque Infantil que deveria ser mantido pelo São Paulo, com entrada franca para as crianças;

2- Estacionamento em uma área de 25.000 m² do terreno doado.

O São Paulo nunca cumpriu essa parte do acordo.

Em 1966, em pleno regime militar, Laudo Natel já havia se tornado presidente do São Paulo e, ao mesmo tempo, Governador do Estado, quando o seu “mentor”, Adhemar de Barros, foi cassado por corrupção. O então governador determinou que os estudantes da rede pública vendessem carnês chamados “Paulistão”. O dinheiro arrecadado seria para a formatura dos alunos, mas, parte da arrecadação serviu para ajudar na construção do novo Estádio. Ou seja, em um período de ditadura, de censura aos jornais, sem explicações sobre a origem do dinheiro, sem um clube de associados que pudesse gerar receita, sem rendas (pois jogava em estádios praticamente vazios), o São Paulo construiu um estádio que nem nos dias atuais (de direitos de TV, patrocínios, venda de atletas) conseguiria construir…

Também não podemos nos esquecer que, nos anos que se seguiram, o estádio do Morumbi passou a sediar partidas de outras equipes grandes (Corinthians, Palmeiras, Santos) que sempre pagaram caro pelo uso do local e deram muito dinheiro ao São Paulo.

Claro que não defendo que o dinheiro público deve ser usado num clube particular. Mas se houver projetos de interesse da cidade, que estado e prefeitura contribuam para tais projetos e que as hipocrisias e os falsos puritanismos sejam deixados de lado.

Quem deve ganhar é a cidade e projetos dessa natureza sempre trazem dividendos a todos, independente do clube de futebol que amem.

E podem chamar o futuro (se Deus quiser!) estádio do Corinthians de “Gambazão”, “Cadeião” ou “Marginalzão”. Além de manifestações preconceituosas, como se a torcida só fosse composta por importantes pessoas do proletariado (o que não condiz com a realidade corinthiana), a inveja sempre apequena quem a sente e engradece o alvo da inveja cada vez mais.

(*) Com informações do Site Mídia sem Média

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4 Responses

  1. 29 de agosto de 2010

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  2. 17 de fevereiro de 2011

    […] Menos né? O ultra-maravilhoso São Paulo se esquece de que só tem estádio porque foi beneficiado políticamente pelo futuro governador do estado que era torcedor do time. Ou será que estou […]

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  3. 29 de março de 2013

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  4. 14 de abril de 2013

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