por Sylvio Micelli

Não tenho a intenção de contar aqui a história do Sport Club Corinthians Paulista. Falta-me competência para tanto. Sou apenas um torcedor desta nação, religião, clube, sociedade, enfim. Sou mais um, em meio a tantos e tantos milhões.

Minha ascendência italiana sempre rendeu-me perguntas do porquê de torcer pelo Corinthians. Era mais ou menos óbvio, no imaginário das pessoas, que eu fosse torcedor do Palmeiras.

Conto-lhes, enfim, o porquê.

Nasci e fui criado no Jaçanã, um bairro de classe média pobre (se é que ainda existe este patamar econômico), no extremo norte da cidade de São Paulo. O bairro, famoso graças ao “hino” do Adoniran Barbosa, era composto por gente simples, batalhadora, trabalhadora que demorava, nos antigos ônibus da extinta CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), cerca de duas horas para chegar ao centro da cidade. Lembro-me, aliás, que era comum falarmos em “ir à Cidade”, quando referências eram feitas ao centro da Capital. O metrô mais perto, à época, era a recém-inaugurada estação de Santana.

Lá não existia muito lazer, situação por sinal que, infelizmente, pouco foi alterada mesmo depois de quase 40 anos. A diversão da molecada era jogar bola, taco (bets) e quando alguém tinha um troco a mais, improvisávamos uma rede de voleibol no meio da rua presa aos portões das casas.

A rua aonde morava – a Ubaporanga – era uma espécie de rua corinthiana. Lá não existia outro clube, exceção feita ao Guapira. Parecia torneio de um time só. E em meados dos anos 70, todos os finais de semana, a rua recebia retoques de tintas branca e preta. Vejam que não era uma pintura em época de Copa do Mundo. Era uma pintura para ouvirmos, vejam bem, ouvirmos o Corinthians no final de semana. Que a molecada saiba que naquela época, pouco se transmitia jogos na TV.

Aos domingos pela manhã, o cheiro de macarronada com frango dominava a rua. Eu ía na padaria da esquina comprar uma garrafa de guaraná caçulinha, que rendia o dia todo.

Pontualmente, dez minutos antes de começar o jogo, todos – sem exagero – todos ligavam o rádio na Bandeirantes para ouvir o locutor da torcida brasileira, Fiori Gigliotti. Sua narração declamada e metafórica com os bordões “abrem-se as cortinas e começa o jogo” ou “crepúúúússssculo de jogo, torcida brasileira” ecoavam como se o Pacaembu ou Morumbi ficassem na porta de casa.

Os gols eram comemorados com uma paixão incomensurável. Ao final do jogo, os rádios íam sendo desligados e nossa rua se recolhia porque na segunda era dia de trampo.

E foi assim ao longo de muitos anos.

Na zona abissal de minha memória lembro-me de vizinhos indo para a “invasão do Maracanã” em 1976.

Mas o ano seguinte – 1977 -, a narração do gol do Basílio ainda ecoa no meu cérebro. Já era fanático. Ouvi o Fiori Gigliotti, o José Silvério e o Osmar Santos. E ouvi, ouvi, ouvi milhões de outras vezes. E vi, vi, vi, vivi e revivi outras centenas de vezes. E quando revejo, meu coração se aperta. Sempre tenho a sensação de que aquela maldita bola não vai entrar, mesmo já sabendo o resultado.

O primeiro jogo que assisti em estádio foi no dia 08 de julho de 1979 no Estádio Municipal Doutor Paulo Machado de Carvalho, conhecido mundialmente como Pacaembu. Uma vitória tranquila por 2 a 0 contra o Marília com gols de Geraldão e Sócrates que, por sinal, foram os artilheiros da equipe daquele campeonato que teve o Corinthians como campeão.

Depois desse, muitos outros jogos vieram. Já perdi a conta. Já vi o Corinthians em diversas regiões e estádios, jogos antológicos, ruins, alegres ou tristes. Mas o cantor e compositor Toquinho já nos ensinou:

“Ser corinthiano é ir além
De ser ou não ser o primeiro.
Ser corinthiano é ser também
Um pouco mais brasileiro.”

Para montar uma seleção do Corinthians, a minha ideal é a seguinte: Ronaldo; Zé Maria, Domingos da Guia, Gamarra e Wladimir; Luizinho, Sócrates e Rivelino; Cláudio, Baltazar e Marcelinho Carioca.

Não dá para expressar a paixão em poucas palavras e ainda que eu usasse todos os vocábulos do mundo, eles seriam poucos para descrevê-la.

Também não adianta tentar explicar aos outros. Como disse a nossa querida Hortência Marcari, maior jogadora do basquete nacional e corinthiana fanática (pleonasmo!!!!) no filme “23 anos em 7 segundos”: “não adianta querer explicar. Quem é corinthiano sabe o que estou falando. E quem não é, nunca vai entender”.

Respeito verdadeiramente os outros times. Claro que brinco com meus amigos, por vezes irrito-me, mas não tinha jeito. Estava escrito. Mesmo sendo descendente de italianos eu tinha de ser a ovelha negra. Ou melhor: alvinegra. Sou povo. Sou Timão. E com muita honra: corinthiano, maloqueiro e sofredor.

Graças a Deus!