por Sylvio Micelli

Imagine a seguinte situação: você, trabalhador, comete um ato de insubordinação em seu trabalho. O resultado, no geral, pode ser a demissão por justa causa. Caso você seja do serviço público, certamente será instaurado um processo administrativo que poderá, também, resultar numa demissão a bem do serviço público. No mínimo, uma severa punição acontecerá.

No maravilhoso mundo das estrelas do futebol é diferente. Um ato de desrespeito é visto como uma “molecagem” e o superior hierárquico – no caso o técnico – é transformado no algoz da situação. Foi exatamente isso que aconteceu no caso envolvendo o jogador Neymar do Santos Futebol Clube e o técnico Dorival Júnior.

Neymar cometeu uma dupla infração. Desrespeitou o capitão de sua equipe – o atleta Edu Dracena – bateu boca e xingou o treinador ao ter sido preterido numa cobrança de pênalti num jogo que já estava resolvido para a sua equipe.

Inicialmente, o clube multou o atleta. O treinador desrespeitado quis puní-lo com a suspensão por algumas partidas e todas as declarações que li e ouvi de Dorival Júnior foram no sentido de que o jogador refletisse sobre o seu ato. Neymar ficou ausente de um jogo, mas no seguinte, diante do Corinthians, a corda arrebentou do lado mais fraco. A diretoria do Santos, até então tida e havida como moderna, rendeu-se ao amadorismo habitual dos cartolas do futebol e ao invés de demonstrar seriedade, optou por dispensar o técnico. Achei “interessante” a nota do clube ao afirmar que o técnico teria “quebrado a hierarquia”. Afinal, quem quebrou a hierarquia primeiro…

O caso Neymar X Dorival rendeu muitas páginas na mídia esportiva e a maioria passou a mão na cabeça do jogador. Neymar foi analisado como um garoto que ainda precisa amadurecer. Cheguei até a ler um texto que o considera um clássico representante da chamada Geração Y, esta formada pela molecada que já nasce com o mouse nas mãos a navegar pela Internet.

O técnico da Seleção Brasileira, Mano Menezes, também foi criticado por não convocar o atleta para amistosos, logo depois do ocorrido.

É preciso ter a ideia clara de que Neymar errou. E não foi um ato isolado. Ele já havia se envolvido em outras confusões, tanto em partidas de futebol, como no seu dia-a-dia. Endossar seus atos é apenas piorar a situação.

Outro fato lamentável que devo salientar é que, ao reduzir o ato de Neymar a uma mera “molecagem”, e este sendo ídolo de sua geração, induz-se a criançada a acreditar que desrespeitar é legal e no final, se você for competente naquilo que fizer, tudo estará resolvido.

Falta ao atleta um apoio psicológico que deveria ser obrigação de qualquer clube que se preze. A maioria dos jogadores vem das camadas mais pobres da sociedade e, de repente, por competência, dom e magia, tornam-se milionários da noite para o dia. Nem sempre (quase nunca) contam com o apoio da família e não sabem lidar com dinheiro, fama e os novos “amigos” que aparecem nessas horas.

É sempre bom lembrar que na história do mundo tivemos ditadores, déspotas e seres com desvio de caráter diversos que foram muito competentes naquilo que fizeram. E isso foi péssimo para a humanidade.