“Dez entre dez jogadores querem jogar no Corinthians”

por Sylvio Micelli

Texto originalmente escrito para o Blog Canelada

Este texto tem destino certo. Vai, com carinho alvinegro, para o companheiro de Canelada e sãopaulino Vinícius Vidal que destilou o mais puro preconceito na pseudo-análise “Curintcha quer ídolos, mas quem quer o Curintcha?

O texto, já preconceituoso no título, nem me incomoda mais. A falta de argumento dos torcedores contrários ao Sport Club Corinthians Paulista já virou lugar comum. Eles talvez não saibam, mas pela grandeza e magnitude da torcida temos os maiores números de ignorantes, de bandidos, de desempregados, mas certamente, também temos os maiores números de doutores, altos executivos e professores. Também devemos ter ampla maioria de homossexuais e heterossexuais, pois afinal, estamos falando de mais de 30 milhões de pessoas, população numericamente superior a qualquer estado brasileiro, exceção feita a São Paulo, e a muitos países da Europa.

Tais números explicam o incômodo dos contrários ao Corinthians. Se fôssemos apenas um “timinho” qualquer, aquele da Marginal S/N, aquele dos bandidos, destentados e abandonados de qualquer espécie, certamente, ninguém perderia seu valoroso tempo e letras conosco. Também virou lugar comum citar a ausência da conquista da Libertadores da América, numa tentativa desesperada de não reconhecer as outras dezenas de títulos que o Corinthians sempre conquistou.

O São Paulo Futebol Clube, agremiação pela qual tenho respeito, em que pese as brincadeiras com meus vários amigos e até parentes sãopaulinos, tem um sério problema de estima. Acha-se superior aos demais. Pensa que é o Barcelona, Real Madrid, Milan, mas é apenas o São Paulo, com suas glórias e derrotas. Esta postura prepotente de seus diretores e torcedores, transformou o clube numa espécie de persona non grata do futebol brasileiro. Anda com seu estádio vazio, distante dos grandes clássicos que fizeram sua história, pois os clubes grandes cansaram-se de pagar pelo uso do Morumbi. Tem muito dinheiro de corinthiano “maloqueiro e sofredor”  empregado no estádio Cícero Pompeu de Toledo. O clube foi excluído sumariamente da Copa do Mundo de 2014, muito mais pela arrogância que, propriamente pelo seu belo estádio que, apenas para lembrar, foi conquistado por meio de tratativas políticas que nenhum outro clube no Brasil teve.

O companheiro Vini, com o devido respeito, parte da presunção equivocada de que o Corinthians vai atrás de ídolos de outros clubes. Cita Roberto Carlos, Ronaldo, Luís Fabiano, Kaká, Diego Forlán, Paulo Henrique Ganso, Tévez e dá até a sugestão de Diego Lugano. Ironiza o atacante Jô e por aí vai…

Então vamos por partes:

1. Ninguém tem propriedade sobre nenhum jogador e é natural que o Corinthians busque grandes atletas. Tem a maior torcida, tem a maior mídia, tem os maiores patrocínios e o futebol é regido hoje, sobretudo, por estas questões. O fato de um atleta ter atuado pelo São Paulo não proíbe que outras equipes queiram o jogador. O Ricardinho saiu do Corinthians para jogar no São Paulo. O Souza (soneca), a mesma coisa. O grande Rivellino foi para o Fluminense. Qual é, afinal, o problema de um jogador que tenha atuado pelo São Paulo faça o caminho inverso? Ah! Esqueci! Vocês são superiores. Ninguém no Brasil ou na América Latina é melhor que vocês… Menos, sãopaulino. Bem menos.

2. Dizer que Roberto Carlos não é ídolo de ninguém, demonstra total desconhecimento de futebol, que por sinal é comum aos sãopaulinos. Prefiro discutir futebol com palmeirenses e até com santistas. Pergunte a qualquer torcedor do Palmeiras e até mesmo para boa parte da torcida do Corinthians. O cara será homenageado pelo Real Madrid. Será que ele não é ídolo do clube madrilenho? Será homenageado por que? O cara é, há anos, o maior lateral esquerdo do mundo.

3. Afirmar que Ronaldo “ofendeu” a maior torcida do Brasil (Flamengo) por ter ído jogar no Corinthians é uma ilação tosca. Ronaldo é business e foi onde rolaria maior grana, patrocínio etc. Como todos sabemos, havia problemas de patrocínio no Flamengo e o Ronaldo foi para o Corinthians, também simples assim. O Fenômeno, conforme matéria veiculada no UOL nesta semana, sempre jogou nos maiores clubes dos países por onde passou. Ah! Mas já sei. A mídia defende o Corinthians? Pode ser. Mas por que a mídia defenderia o Corinthians se este é um time de pobres, famélicos etc? Ronaldo não deu certo no Flamengo, simplesmente porque não tinha que ser.

4. Luís Fabiano é um jogador em nível de seleção brasileira. Acho até que há melhores que ele, mas por que o Corinthians não poderia procurá-lo se haviam desavenças no Sevilla? Dizer que o Fabigol desistiu de vir para o Timão porque os torcedores tricolores pediram a ele para não fazer isso é digno da prepotência do clubinho do Jardim Leonor.

5. Qual seria o problema do Kaká vir jogar no Corinthians? Acho que se trata (sempre achei) de um jogador limitado e que a inteligentíssima torcida do São Paulo vaiou por diversas vezes. Ou será que não vaiou? Um dia ele se encheu de vocês, perdeu até dinheiro e foi embora. Aliás, a mesma torcida inteligente anda pegando no pé do Dagoberto, que não se cansa de fazer gols. Depois que perderem o Dagol vão chorar o leite derramado. Particularmente, quero o Kaká bem longe do Parque São Jorge. O Dagol será bem recebido.

6. Diego Forlán é um grande jogador e se chegar ao Corinthians vai ser ótimo. Oras. Só porque ele é filho do grande Pablo Forlán que defendeu o São Paulo entre 1970 e 1976, isso o impede de jogar pelo Corinthians? O São Paulo, com sua peculiar arrogância, vai avocar o Jus sanguinis, princípio do Direito pelo qual uma nacionalidade pode ser reconhecida a um indivíduo de acordo com sua ascendência. Ou seja: jogou no São Paulo, todos os filhos devem apenas jogar no Tricolor… Menos né? O ultra-maravilhoso São Paulo se esquece de que só tem estádio porque foi beneficiado políticamente pelo futuro governador do estado que era torcedor do time. Ou será que estou enganado?

7. Carlito Tevéz teve sua carreira potencializada depois de jogar pelo Corinthians e já afirmou, dezenas de vezes, que se voltasse para a América Latina só jogaria em dois clubes: Boca Juniors e Corinthians. Isso deve incomodar, né? Ele teve problemas de relacionamento no clube como tantos outros caras têm. Isso não significa que as portas estão fechadas. Ainda acho que ele volta. E não vai demorar.

8. Sobre o Paulo Henrique Ganso, não foi o Corinthians que foi atrás. Talvez o companheiro esteja mal informado, mas a DIS, empresa que possui 45% dos direitos do atleta veio oferecê-lo ao “timinho da marginal s/n”. Depois ele desmentiu, disse que eram boatos. Mas vamos aguardar o desenrolar dos fatos.

9. Você ainda se esqueceu de Ronaldo Gaúcho. Já que existia a palhaçada, grana não era o problema. Por que Grêmio, Flamengo e Palmeiras podem e o Corinthians não pode?

10. Por fim, depreende-se de seu texto, que o Corinthians não é formador de jogadores. Claro que isso não condiz com a verdade. O Lucas, que certamente você está apaixonado, foi revelado nas categorias de base do Corinthians sob a alcunha de “Marcelinho”, numa clara referência ao maior Marcelinho de todos – o Carioca. Acredito que a Diretoria do Corinthians comeu bola, mas isso faz parte do processo. São coisas que acontecem. E que o Lucas seja feliz, aonde queira ser e se um dia quiser voltar e se nós o quisermos de volta, as portas estarão abertas.

Para encerrar, conto-lhes uma historinha de quem já viu e viveu muita coisa no futebol. Aliás, conto duas.

Uma das minhas primeiras entrevistas, já na condição de jornalista formado, foi com Roberto Rivellino. Nem preciso dizer que foi uma dupla alegria. Em quase uma hora de conversa, ele disse duas coisas que ficarão para sempre guardadas na minha memória. A primeira é que a maior tristeza dele é não ter vencido um campeonato com o Corinthians. Ele não se conforme, mesmo tantos anos passados. E ele disse que sabia que na “invasão do Maracanã” em 1976, o Corinthians sairia vitorioso contra o Fluminense. A segunda coisa que ele me disse é que um tal de Edson Arantes do Nascimento, vulgo Pelé, sempre disse na boca miúda que jamais tinha engolido o fato de não ter conseguido êxito no Corinthians. Claro que por falha nossa. Mas mesmo sendo o astro que foi, jamais esqueceu da camisa que ele desejou vestir.

Segunda historinha. Há alguns anos, eu encontrei o Dadá Maravilha, que dispensa comentários e apresentações, num aeroporto. Fui “reclamar” o gol que ele fez pelo maravilhoso Internacional de 1976 contra nós na final do Brasileiro daquele ano. Ele sorriu, disse que era profissional e que só lamentava o fato de nunca ter jogado pelo Corinthians. E deixou claro que outros grandes jogadores da época, que foram campeões por onde passaram, nutriam a mesma tristeza de nunca ter vestido o manto sagrado do Parque São Jorge. E arrematou: “Dez entre dez jogadores querem jogar no Corinthians, nem que seja por uma partida só.”

E esqueçam do nosso Todo Poderoso Timão, afinal ele não vale nada, exceto para nós, pois parafraseando Friedrich Nietzsche, “aquilo que não nos mata, só nos fortalece”.

You may also like...

2 Responses

  1. 21 de fevereiro de 2011

    […] This post was mentioned on Twitter by Sylvio Micelli, Sylvio Micelli. Sylvio Micelli said: “Dez entre dez jogadores querem jogar no #Corinthians” | [Sylvio Micelli] http://t.co/u7V9h9n via @micelli […]

    Like or Dislike: Thumb up 0 Thumb down 0

  2. 10 de abril de 2011

    […] essa percepção. Por sinal, como já escrevi por aqui, Dadá Maravilha já sentenciou que “dez entre dez jogadores querem jogar no Corinthians“. Então aproveite essa oportunidade única e seja […]

    Like or Dislike: Thumb up 0 Thumb down 0

Deixe uma resposta

3 visitantes online agora
0 visitantes, 3 bots, 0 membros
Máx. de visitantes hoje: 10 às 04:20 am BRT
Este mês: 23 às 04-09-2018 06:03 am BRT
Este ano: 29 às 03-29-2018 05:20 am BRT
No total: 111 às 03-18-2011 02:35 am BRT