Democracia corinthiana: o contexto histórico e o documentário

por Sylvio Micelli

Texto originalmente escrito para o Blog Canelada


Na Grécia Antiga, a partir de Ágora, surgiu o conceito de democracia. Algo bem simples e singelo, como devem ser as grandes democracias – o governo do povo e para o povo. A ideia central e original de democracia, no entanto, foi adquirindo ao longo dos séculos, um enorme valor agregado. Democracia é ter e dar liberdade na mesma proporção dentro de um convívio pleno em sociedade. Trazendo isso para nosso pequeno microcosmos do Canelada, democracia é composta pela minha escrita e pela sua leitura e comentários. E veja que isso, trinta anos atrás, não era tão simples assim.

Pela ótica dos gregos, que criaram tudo, o poder deveria emanar do povo e as decisões deveriam convergir em nome da democracia. E escrevo deveria porque, ainda hoje, as ditaduras persistem como podemos observar em vários países africanos, asiáticos e do Oriente Médio. Há ainda, as pequenas ditaduras do nosso dia-a-dia, não menos perigosas e perpetuadas pelos falsos democratas. Geralmente são pessoas “democráticas” quando opinam e criticam os outros, mas tornam-se déspotas e cerceiam liberdades quando contestadas ou criticadas. Mas, enfim, sobrevivemos e sobreviveremos a tudo isso, até porque para cada ditador (ainda bem) nascem milhares de democratas.

Pois bem. A Democracia Corinthiana surgiu num momento efervescente da história do Brasil. E quero deixar claro que, em que pese ter sido protagonizado pelo meu amado Sport Club Corinthians Paulista, o que faz com que eu ainda tenha mais orgulho dele, o movimento teria relevância qualquer que fosse o clube envolvido.

A Democracia surgiu de uma necessidade do clube, da presença de jogadores altamente politizados e de uma campanha de marketing bem estruturada pelo “papa” Washington Olivetto. Tudo isso foi captado de forma extremamente sensível e estava em sintonia com a massa que almejava redemocratizar o Brasil e encerrar o nefasto período do regime militar.

As necessidades do Corinthians: há exatos 30 anos, em 1981, o clube vinha mal. Péssimo nos campeonatos paulista e brasileiro, o Timão sentia falta de oxigenação. Waldemar Pires foi eleito para assumir a presidência do clube, em substituição a Vicente Matheus. Para diretor de futebol foi nomeado o sociólogo Adílson Monteiro Alves que revolucionou o modelo de gestão e a relação com os atletas. Foi instituído um sistema de autogestão, onde jogadores, comissão técnica e diretoria decidiam tudo no voto. Todos os assuntos, de contratações até o local da concentração, eram votados e os votos tinham peso igual, dos jogadores até o presidente.

Com o slogan “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia“, o período da Democracia Corinthiana foi benéfica ao clube financeiramente, quando as dívidas foram sanadas, e vitoriosa. Entre 1982 e 1984, o clube chegou às finais no Campeonato Paulista nos três anos, sendo bicampeão em 1982 e 1983 e fez boas campanhas nos Brasileirão de 1982 e 1984, chegando à quarta colocação em ambas as edições.

Jogadores altamente politizados: Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon formaram o núcleo duro da Democracia. Sócrates, além de ter sido um dos mais geniais artistas da bola, defendia a democracia ainda em pleno regime ditatorial. Sua retórica, até hoje é a mesma. Foi o porta-voz do movimento com suas jogadas de classe e as críticas mais que ácidas. Casagrande deve ter sido um dos primeiros bad-boy da bola, antes de inventarem o termo. Molecão e despojado era a juventude da Democracia. Criado dentro do próprio Corinthians foi artilheiro do Paulistão de 1982. Wladimir, um dos maiores laterais esquerdos da história do País é o jogador que mais vestiu a camisa do Timão, ao longo de 806 partidas. De fala serena, o camisa 4 do alvinegro era o oráculo do movimento e chegou a enveredar pela carreira política. Por fim, Zenon. Catarinense exímio cobrador de faltas era o mais tímido do grupo mas base de sustentação de todo o resto.

Tais atletas inovaram numa época em que tudo era proibido. A molecada de 20 e poucos anos talvez não tenha a real dimensão disso, mas foi uma fase complicada. Reunir-se em nome dessa tal democracia poderia acabar com um atentado a bomba como aconteceu no Riocentro, em 1981, num show de 1º de Maio, organizado por Chico Buarque.

Marketing: falar do publicitário Washington Olivetto é chover no molhado. Genial, foi o criador do termo “Democracia Corinthiana” e instituiu dizeres nas camisas dos atletas como “Diretas, Já” ou “Eu quero votar para presidente”. Foi o primeiro planejamento de marketing no futebol brasileiro.

O contexto histórico: entre 1982 e 1984 foram lançadas as bases da redemocratização do País. Em 82, os brasileiros voltaram a eleger seus governadores após duas décadas. Nos principais estados do Brasil, os candidatos da oposição ao regime militar derrotaram a ditadura de forma fragorosa. Franco Montoro (São Paulo), Leonel Brizola (Rio de Janeiro) e Tancredo Neves (Minas Gerais) deram um baile nas urnas. No ano seguinte é criada a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e cresce a pressão pela realização de “Diretas, Já” para a escolha do presidente do Brasil, por meio da emenda constitucional criada pelo deputado matogrossense Dante de Oliveira.

No dia 25 de janeiro de 1984, aniversário da cidade de São Paulo, mais de 1 milhão de pessoas fazem o histórico comício das Diretas que contou com políticos envolvidos com o movimento à época (destaque para os futuros presidentes do País, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva). O histórico narrador Osmar Santos, o não menos importante jornalista Juarez Soares e os jogadores da Democracia lá estavam. A emenda Dante não foi aprovada, mas a história ficou marcada.

Por que acabou? A partir de 1984 começou a articulação política para criar o Clube dos 13. O sistema presidencialista acabava com o ideal de autogestão. Além disso, a saída de Sócrates para a Fiorentina e o empréstimo de Casagrande para o rival São Paulo, enfraqueceram o clube que voltaria a ser campeão apenas em 1988. O modelo de gestão clássica, principalmente do Flamengo, fazia acreditar que um sistema tão democrático não tinha como perdurar e, logo depois, se consolidaria o sistema privado de gestão dos clubes, novidade vinda da Europa.


O documentário

Ser Campeão é Detalhe – O Filme” é um documentário que a Muzy Corp traz para comemorar as três décadas da “Democracia Corinthiana” e como é bom ter vivido e sabido que o Sport Club Corinthians Paulista também capitaneou o processo de redemocratização do Brasil.

Democracia, sempre! Em qualquer circunstância. Mesmo que contra tudo e contra todos afinal, ser campeão, para nós, é um mero detalhe.

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