por Sylvio Micelli

Texto originalmente escrito para o Blog Canelada

Acordei no final da manhã deste domingo (trabalhei até de madrugada) com uma triste notícia. Meu filho informou-me que Sócrates, o velho “Magrão” faleceu pela manhã. Sua morte era pedra cantada, mas sempre torcemos para que o inevitável seja postergado ao máximo. Mas, verdade seja dita, não haveria melhor data para o Magrão sentar-se ao lado direito de Deus, num dia em que o Corinthians pode ganhar mais um título.

Sócrates foi o maior jogador que vi entrar em campo nas últimas quatro décadas pelo Sport Club Corinthians Paulista. E com os olhos marejados sou obrigado a escrever um texto que jamais queria fazê-lo.

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nasceu diferenciado pelo nome retumbante. Trazia uma homenagem ao filósofo ateniense que foi um dos responsáveis pela democracia que o Magrão tanto defendeu e já nasceu brasileiro para representar o seu País.

Saído de Belém do Pará, para a gloriosa Ribeirão Preto, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira começou no futebol jogando no Botafogo e de lá saiu para o Corinthians para conquistar o Brasil e o Mundo. Foi um jogador diferenciado e, particularmente, reputo ao lado de Falcão, Zico, Careca e Maradona, como um dos maiores jogadores que vi atuar.

Vê-lo em campo era uma atração a parte. Magro, espadaúdo, era um lorde com a bola nos pés. E como a bola era bem tratada… De cabeça, com a perna direita e com a esquerda e, principalmente, no toque mágico de calcanhar que ninguém conseguiu reproduzir. Um calcanhar abençoado que destruía as desfesas em nome do bom futebol. Seus gols eram comemorados britanicamente, como os lordes: o braço direito erguido, o punho cerrado e o braço esquerdo nas costas.

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira foi um homem diferenciado. Um médico formado que optou pela vida no futebol. Uma pessoa humilde que dizia não saber jogar e via no irmão mais novo, o “pivete” Rai, o melhor atleta da família…

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira sempre envolvido políticamente, foi um dos mentores da Democracia Corinthiana. Uma célula revolucionária que saiu do Parque São Jorge, com dois títulos, para ganhar as ruas e o País por meio das “Diretas, Já!”

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira fez história. Não foi campeão mundial injustamente. Mas ganhou o mundo e a eternidade. E o Brasil deve muito a ele.

Obrigado, Doutor. Pelas tardes maravilhosas no Pacaembu e no Morumbi.

Obrigado, Doutor. Pela democracia que você tanto defendeu e pelo aprendizado que você me deu.

Obrigado, Doutor. Pelo exemplo de caráter que você sempre foi.

Obrigado, Doutor. Você não foi um jogador. Você não foi um médico. Você não foi nada. Eternamente, você será um artista.

Obrigado, Doutor!