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Ainda a tal da independência

A independência do Brasilpor Sylvio Micelli

Não há dia mais propício para escrever sobre independência do que no 7 de setembro. Não que eu ache que o ato de Pedro I seja relevante. O interesse dele era a Marquesa. E reproduzimos a mesma história, dois séculos depois, como se fosse uma grande imagem como é o imortal quadro “O Grito do Ipiranga” de Pedro Américo.

Não. Não é. A pseudo-independência deflagrada por Pedro I foi um ato rebelde do filho da coroa. Ele não foi nenhum Bolivar. Ninfomaníaco, como sabemos, o interesse dele era outro e, Portugal já não gozava do mesmo prestígio na Europa. Resolveu Pedro, então, ficar por estas plagas de clima tropical.

A história do Brasil tem uma série de erros, mais ou menos grosseiros, que ainda não nos concedeu uma identidade. Quem somos, afinal? Os índios foram dizimados. Os degredados foram trazidos para cá. Os escravos foram arrancados de suas origens. Vieram os imigrantes. Depois os migrantes neste caleidoscópio multi-facetado.

Falta-nos um libertador. Eis aí o nosso grande problema. Nossos mártires, cada qual à sua época, não nos trouxe uma “cara”. Sei. Tem muita gente que se locupleta, num nacionalismo estúpido, que o Brasil é o país de todas as caras. Ledo engano, companheiros!

Até o “Duas Caras”, um dos inimigos de Batman, tinha lá suas crises de consciência. O que dizer, então, de um povo com várias faces. Não prego aqui, de forma nenhuma, a raça única defendida por Hitler, mas o Brasil ainda tem muita coisa a galgar em busca de sua própria identidade.

Voltemos à Brasília. Agora descobri porque a comida no restaurante da Câmara dos Deputados era ruim. Pagava-se o tal do “mensalinho” e pronto. E pau no Severino Cavalcanti. Ao menos dá um refresco para Lula terminar seu mandato. Porque Severino entrou de cabeça no furacão Katrina que assola o Congresso há quase meio ano. E é uma cabeça fácil de ser decaptada para o regozijo das cleópatras do poder.

Ontem aconteceu em São Paulo um ato da OAB, centrais sindicais e partidos políticos, contra a corrupção. Estive lá, até porque o partido ao qual sou filiado, passa longe dos escândalos e tornou-se um reduto moral diante dos acontecimentos. Entretanto, ainda não consigo compreender, ainda não desce pela garganta, um ato contra o atual governo de origem trabalhadora. Ainda mais com a participação de parlamentares de partidos focados na tal da social democracia. Na Praça da Sé lembrei da minha adolescência, 21 anos atrás, no ato pelas Diretas, Já! Não consigo absorver o paradoxo.

Irrita-me, profundamente, uma campanha crescente pela Internet em prol do voto nulo. Da abstenção generalizada. Inocência ou burrice, tal ato traz enormes prejuízos para o país. O custo das eleições é caro. Mas eles acham que podem cancelar a eleição e realizar outra, com outros candidatos. Melhores ou piores? Abster-se ou votar nulo, apesar do reconhecido caráter opinativo, é se omitir da decisão. Digo isso com conhecimento de causa. Já anulei meu voto e arrependi-me amargamente. Sou um ardoroso defensor da política e julgo-a com um bem necessário. Temos errado, dia após dia, nas pessoas escolhidas. Mas isso não significa que devamos abrir mão do direito de escolhê-las. É um aprendizado, repito, de nosso embrionária democracia.

Finalizo aqui com uma alegria e uma reconhecida preocupação. Sou fanático por futebol. E simplemente torço, e que me desculpem meus muitos amigos contrários, para o time mais popular do país. Meu amado e idolatrado Corinthians que, semana passada, completou 95 anos de bons serviços em nome da alegria e da emoção.

Enfim, estamos na Copa do Mundo. Mais uma. Todas. Apenas o Brasil, que engoliu o Chile em parcos 18 minutos. Mas tive instantes de razão que torci contra. Por que iremos para a Copa? Para fomentar, mais uma vez, a questão do pão que nos falta para o circo, que temos em excesso? Por que temos que paralisar o país durante um mês? Ainda mais num ano eleitoral? Justamente nós, que precisamos aprender tanto na política e na sociedade para sermos imbatível como no futebol. Mas, enfim, temo que a Copa do Mundo seja mais uma vez usada eleitoralmente. Como em 50. E 70. E tantas outras. E será inivitável como sempre.

Problemas de Aritmética

por Sylvio Micelli

Mais uma semana de paralisia geral nestas plagas. Mas também. Sem problemas. O Brasil caminha muito bem. Há casa, comida e roupa lavada para todos, não é mesmo?

Mais uma semana de paralisia geral. E com o devido respeito, uma sensação de coito interrompido na discussão entre Jefferson e Dirceu que não houve. Na terça-feira parecia jogo de Copa do Mundo. Todos grudados na telinha torcendo pelo Brasil. Contra um adversário invisível. Ou quiçá, indizível. Jogo de 0 a 0. E este périplo de CPIs começa a cansar.

Dizem que quanto mais provas, mais documentos, mais prolixidade, menos solução. Fujo aqui da turba que almeja sangue e cabeças em bandejas para regozijo das Salomés de plantão. Mas quero solução e começo a desconfiar que o caso de Lula, Valério e companhia, será como Collor, PC e companhia. Apenas um emblema. Uma pregação no deserto. Mas ao final, inexoravelmente, mudar-se-ão os cães, mas as coleiras lá permanecerão incólumes.

Nosso presidente – sim, votei nele e não me escondo agora – começou uma campanha pela reeleição. Substituiu o “aquilo roxo” de Collor pelo “terão que me engolir” que nem é dele e sim de Zagallo, nosso interminável técnico. Roteiro de filme velho. Lula, porém, não disse quem deverá engoli-lo. Se é a patuléia da qual faço parte, já estamos engolindo, num eterno gerúndio, anos a fio, diversos sapos – barbudos ou não. Lula foi para sua terra natal. Quem sabe para recobrar as energias que lhe faltam no Planalto. Afinal, o clima seco e inóspito de Brasília deve estar potencializado estes dias.

Resolver o problema do Brasil é simples. Caso de aritmética. Pouco conheço de números. Não gosto deles. Sei, apenas, contas de subtração do meu salário que nunca chega ao fim do mês. Prefiro as letras. Mas suponho que se soubéssemos as quatro operações matemáticas tudo seria resolvido. Quem sabe ressucitássemos Pitágoras ou Tales para que eles nos explicassem alguma coisa. Se bem que nunca entendi seus teoremas. O único teorema que compreendi na minha vida ignara foi o de Renato Russo.

Mas Pitágoras ou Tales ou ambos talvez explicassem, com os milhões que ouvimos nas últimas semanas, o quanto do nosso parco dinheiro multiplica-se para poucos dividirem. Com os catetos e a hipotenusa poderíamos comprender o salário mínimo do brasileiro. E volto ao caso da casa, comida e roupa lavada. Com R$ 300 de salário é impossível atender a esta versão básica, 1.0 de ser humano. Não há subtração que faça milagres.

O cofrinho do brasileiro não tem direito ao mensalão. O brasileiro não consegue pensar em um mês… Porque luta no dia-a-dia pela sobrevivência. Pode parecer até discurso panfletário. Mas não me resta outro pela situação.

Resumo da Ópera-Bufa Lulesca-Jeffersoniana

por Sylvio Micelli

A questão primordial que vejo neste caso todo é um processo de desmistificação de Lula e companhia graças ao “holofotismo” da mídia… Nós jornalistas, e que atire a primeira pedra quem pensar o contrário, adoramos sangue! Ver o circo pegar fogo. Algo como: “tá vendo, eu não falei?” Torcer pelo inferno de Dante… Citar “O Príncipe” de Maquiavel como um bálsamo para todos os males.

Quando Lula fala – e fala cada besteira – “que todo mundo já fez”, ele está certo! O jeitinho brasileiro já está intrínseco à cultura tupiniquim. Quem de nós já não pensou em dar um “jeitinho”, ou pagar um “cafezinho”, numa situação em que estivemos do outro lado da lei ou do que quer que seja? Atirem quantas pedras quiserem.

A própria eleição de Severino Cavalcanti à presidência da Câmara dos Deputados é reflexo disso. Ele se autodenominava representante do “baixo-clero”. Uma espécie de Robin Hood às avessas. Ele é o povão sim! Aquele que ajuda pinguços na cidade-natal. Ou que aceita o nepotismo diplomado.

A questão lulesca-jeffersoniana é muito menos importante que a patuléia nacional. Se houver o “impeachment” de Lula – o que acho pouco provável e nem torço para isso – vai apenas ser mais um caso, como o de Collor, nessa endemia nacional pouco resolutiva. Precisamos pensar, ainda, que vivemos num país novo (são 500 anos) em relação a outros tantos milenares e ainda buscamos uma identidade… Meus ancestrais vieram da Calábria e descendem dos mouros… Aqui, as múltiplas etnias não nos concedeu uma cara. Tenho que lembrar, com infinita saudade, de Cazuza! “Brasil, mostra a tua cara!”

Para piorar há diferenças gritantes na sociedade brasileira… Enquanto estou aqui no computador conversando com o “mundo”, não muito longe daqui em Marsillac, na zona sul ou Terceira Divisão, no final de Sapopemba na leste (nem precisa ir ao Nordeste) há comunidades que desconhecem luz, esgoto etc e tal… E estou falando da cidade de São Paulo, a esquina do mundo…

Pois bem. Nunca achei que Lula fosse resolver todos os problemas. Primeiro porque seria um maniqueísmo burro e não me deixo levar pelos sofismas que aqui ou acolá, tentam nos impor. Segundo porque nossa pseudo-democracia é ainda imberbe… E o mais importante dos fatores: nossa sociedade pequeno-burguesa sugou o país de tal forma sem conceder-lhe nada em troca que seria boçal da minha parte aceitar mudança radical em 4 anos. Aliás… acho que se começarmos a alterar algumas coisas, os efeitos serão lá na frente. 10, 20, 30 anos.

Traço críticas aqui à democracia porque ainda não tenho como compreender a democracia como um regime de governo que mantém crianças nos sinais, mendigos assassinados, malas e cuecas milionárias andando por aí. Mas, por enquanto, não apareceu outro regime despojado de idiossincrasias em contraponto às ditaduras que não cerceie liberdades, nem mate Herzog.

Esta ópera-bufa maluca traz à tona uma sensação geral de corrupção. Mas, o que sobra de fato é uma paralisia que prejudica o Brasil. O que mais me entristece, além da situação em si, porque quem me conhece sabe o quanto amo a ciência Política, é o agravamento da crise e as desculpas esfarrapadas do partidários de Lula.

Resquentar denúncias velhas, afirmar que todos fazem as mesmas coisas, tentar conspurcar a opinião pública e transformar corrupção em crime eleitoral é golpe baixo daqueles que sempre investiram-se da aurela de anjos, arcanjos e querubins. Agora acenam com um grande acordo… Uma enorme pizza a cobrir o Eixão Monumental. Que nem prefiro comentar. Mas que de modo algum assustar-me-á…

Oras… Os ainda partidários de Lula pensam que eu sou burro. Ou ingênuo. Ou imbecil. Até posso ser tudo isso. Ou cada vez menos saber das coisas como diz o mestre Cony. Mas eu sei muito bem o que todos fizeram nos verões passados.

Eu sei o que Sarney fez para permanecer no poder. Sei o que ele fez para chegar ao Poder. Sair do PDS e se juntar à Tancredo. Eu sei todos os casos de corrupção do Collor e até em que circunstâncias ele foi alçado ao poder pela mesma mídia que o derrubou. Também sei da língua afiada de Itamar e suas namoradas e sei muito mais dos oito anos de tucanato do FHC. Sei que houve compra de votos no caso da reeleição. Sei das privatizações que foram nefastas ao país. E é bem provável que Marcos Valério já estivesse aí a financiar o propinoduto aéreo Pampulha-JK e conexões.

Mas também sei que Lula foi um metalúrgico que se transformou no maior líder sindical do país. E não entro aqui na questão de mérito de seus atos enquanto sindicalista. Sei que ele lutou para chegar aonde chegou com seus parcos recursos que todos conhecemos. Sei também das idéias que ele defendeu. Dos discursos que proferiu. E de todas as ilações e frases feitas que proferiu.

E aí – e sempre tem um condicional para atrapalhar – a roda pega. Nunca apreciei Genoíno ou Zé Dirceu. Nem sabia da existência de Delúbio, Silvinho e outros “companheiros”. Nunca pensei tampouco que Lula daria um “cheque em branco” a Roberto Jefferson. Aquele mesmo que sempre gravitou em torno do poder constituído.

Em nome da tal “governabilidade”, que expressa apenas um projeto de poder e não um projeto de administração, Lula fez os acordos que não devia. Este Lula não é o mesmo de 1989. Hoje é um Lula pasteurizado em embalagem Tetra Pak para regozijo dos pequeno-burgueses que acham uma “gracinha” ter um presidente que bebe pinga e leva sua finada cadela para passear em carro oficial.

Enfim, ele se cercou das pessoas erradas. Ouviu conselhos errados. Não posso acreditar que ele não soubesse das coisas. E tudo isso é lastimável. Porque eu e mais 52 milhões de sonhadores votamos, como já escrevi, numa promessa de paraíso. Não votamos em Delúbio, Genoíno e companhia. Votamos no ícone. Elegemos o novo Messias. Pusemos nossas esperanças na brejeirice a la Mazzaropi de Lula. Ele era o comum do povo. Um pedaço de nós todos. E não foram promessas eleitoreiras. Durante um quartel de século, o Partido dos Trabalhadores com Lula, seu maior expoente, foi o Tim Maia da política. O síndico. Aquele pronto a soar o alarme. A derrubar o regime militar. A bradar pelas Diretas. A derrubar Collor. Lula foi esse brasileiro – que não desiste nunca. E nunca desistimos. Até eu que NUNCA havia votado no PT, porque sempre vi um ranço totalitário em suas hostes, rendi-me ao bordão nacional após o Penta: “agora vai!!!!!!!!!!!”.

E não foi. E o “medo” venceu a “esperança”. E tudo era tão igual que os petistas se armam para a defesa com comida resquentada. Ninguém fala “eu sou inocente”. Todos falam “ele também fez”. Todos correm em busca de provas contra os outros, mandam recados ameaçadores e não se defendem. A regra é mais ou menos assim “eu não me limpo, mas eu te sujo”. Agora temos aí, dinheiro, poder, corrupção, mentiras… Ninguém fala em milhares, mas em milhões. Mas os milhões são outros. Não são de dólares ou de reais. Mas são reais. Somos nós…

E nós? E quem nos defende da fome, do desemprego, da “doença” pública que não é mais saúde? Das terras que não são cultivadas, dos malabares nos semáforos e da prostituição infantil em troca de comida? Não queria tudo resolvido em 4 anos. Mas pelo menos o começo.

Sei de tanta coisa. Mas isso não sei. Não sei em quem votar. Não sei em que acreditar. O Brasil perdeu a cor. E como disse recentemente o grande Luiz Fernando Veríssimo “quem quase vive já morreu”.

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Sylvio Micelli

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