[Copa América 2011] O Brasil na Copa América: as verdades sem enrolação
- julho 19th, 2011
- Write comment
por Sylvio Micelli
Texto originalmente escrito para o Blog Canelada
Inicio este post com um pedido de desculpas ao amigo, à amiga do Canelada. Queria ter feito uma cobertura da Copa América, uma análise legal (ao menos tentar) de jogo a jogo mas, infelizmente, o tempo – este maldito – não me permitiu tal compromisso. Como eram dois jogos por dia, tudo acabou acumulando e não tive mais como escrever sobre a Copa América.
Segundo, que fiz questão de escrever este texto após ver o VT do jogo Brasil e Paraguai, que não pude acompanhar ao vivo devido ao retorno de uma viagem. Nem mesmo ouvi o jogo no carro. Apenas consegui sintonizar algum dial, justamente, na hora da cobrança dos pênaltis.
Pois bem. Desculpas e explicações feitas, vamos malhar em ferro frio e só para (não) variar, eu vou na contramão das opiniões reinantes, até porque, no meu humilde entender e pensar, muita bobagem foi escrita e dita após a eliminação do Brasil pelo “esquadrão” de Larissa Riquelme.
É sempre assim. O Brasil perdeu, a culpa é do técnico, da CBF, do Ricardo Teixeira, da Dilma, do gramado, do Kassab, do Datena e como diria Carlos Heitor Cony, ainda não encontraram os ossos da Dana de Teffé.
Quase ninguém fala da culpa dos jogadores e do establishment que envolve esses atletas, tratados como sultões, porque a paixão pelos clubes que todos defendemos e pelos mitos, ainda que tenham pés-de-barro, impede uma análise ao menos razoável. Por isso, coloco minhas ideias para fomentar o debate.
O jogo
Obviamente que o Brasil não foi nenhuma maravilha. Mas o jogo em si, foi o ataque brasileiro contra a defesa paraguaia. Foi a melhor partida do time na Copa América e, salvo engano, o melhor jogo do Brasil sob o comando de Mano Menezes. A equipe falhou na finalização, durante longos 120 minutos e foi extremamente incompetente na cobrança dos pênaltis. Deve, também, ter sido a melhor partida na vida do goleiro paraguaio Justo Villar.
A rigor, portanto, a eliminação do Brasil foi um acidente de percurso, tal e qual por exemplo, a eliminação do País na mesma competição, dez anos atrás. Para quem não se lembra, em 23 de julho de 2001, o time de Luiz Felipe Scolari foi eliminado em Manizales, na Colômbia, pela “fortíssima” seleção de Honduras. Muito se falou sobre o técnico, a CBF e blá blá blá blá… Com poucas alterações, Felipão foi campeão do mundo no ano seguinte e calou a boca de todos até porque os cães sempre ladram e a caravana sempre passa. E depois que Felipão ganhou o mundo, ninguém se lembra de que ele perdeu a Copa América.
Como já tive a oportunidade de escrever aqui para o Canelada incomoda-me, sobremaneira, esse complexo de vira-lata que parte do povo tem. Tem gente que não quer a Copa no Brasil. Tem gente que não quer as Olimpíadas no Rio de Janeiro. Prá piorar, a próxima Copa América, em 2015, também será aqui.
Tem gente que adora falar mal. Tem gente que gosta de torcer contra. Tem gente que deu graças a Deus porque o Brasil foi eliminado porque os atletas podem voltar aos clubes. Sei lá… Tô ficando cada vez mais velho, mais chato e mais ranzinza, mas venho de um tempo, não tão remoto assim, que a gente sentia orgulho dos jogadores que eram convocados para defender a Pátria de chuteiras.
Cadê aquela brasilidade de outrora? Nessas horas eu gostaria que tivéssemos o nacionalismo do povo americano ou até do japonês, mas somos brasileiros e tudo o que está aí é o reflexo, direto ou indireto, de cada um de nós. Doa a quem doer.
O brasileiro, no geral, não sabe perder. Não sabe nem mesmo reconhecer a competência adversária e, como a derrota, assim como a morte, são órfãs, sempre busca-se a desculpa certa para explicar o inexplicável. Mais que isso, busca-se o culpado para jogar sobre ele todas as nossas outras mazelas estruturais que não sabemos resolver.
Ora… o Brasil é o atual bicampeão da Copa América. Bicampeão sobre a Argentina, ainda. Reclamamos do quê, afinal? A eliminação contra o Paraguai foi uma fatalidade e o maior problema do Brasil não foi o jogo de domingo, mas os três jogos da fase de classificação, quando empatamos com Venezuela e o mesmo Paraguai e apenas vencemos o Equador, que foi o saco de pancadas do grupo. Se a Venezuela e o Paraguai estão nas semifinais e o Brasil não está, é porque ambos foram, da forma deles, mais competentes que nós. Simples assim. E dane-se quem fez bico (Mano Menezes) porque o Paraguai empatou os quatro jogos. Aquela seleção poderá empatar todos os jogos e ser campeã nos pênaltis e assim o regulamento permite.
Os vilões
No Brasil, o técnico é sempre o primeiro que vai ao cadafalso. Além de ser mais fácil, é uma cultura burra nossa (vide o texto sobre a demissão do Falcão da colega Marcela Semler) e que dela não conseguimos nos livrar.
Mano Menezes foi subindo degrau a degrau, desde o Interior do Rio Grande do Sul. Chegou ao Corinthians para fazer a melhor campanha da série B, ganhar o Campeonato Paulista – o regional de maior disputa – de forma invicta, vencer a Copa do Brasil de forma soberba. Foi eliminado na Libertadores do ano seguinte, nas oitavas de final diante do Flamengo, depois de ter ganho as seis partidas na fase inicial. Saiu para assumir a seleção, deixando o Corinthians na liderança do Campeonato Brasileiro, até porque Muricy Ramalho, que era treinador do Fluminense à época, não quis a seleção brasileira alegando ser cumpridor de contratos, coisa que ao final ele não fez.
Aí eu pergunto: reclamam do quê? Não era, afinal, essa a seleção que os lambe-sacos da imprensa patropi queriam? Todos os atletas que a grande maioria das pessoas queria lá, Mano Menezes trouxe.
Dunga quase foi excomungado no ano passado porque não levou a “criançada” para a Copa. Na verdade, Dunga caiu em desgraça porque não deu atendimento Vip à Globo na África do Sul. Cheguei a ouvir e ler no ano passado, antes da Copa, que a seleção brasileira era Neymar, Paulo Henrique Ganso e mais 9.
E aí dizem que o Mano não sabe escalar? Muita gente na imprensa chegou a afirmar que com a dupla Neymar e Ganso, bastava distribuir as camisas que o resto eles destruíam.
Ah, já sei. Os jogadores devem estar cansadinhos, né? Estão numa rotina estressante, mesmo ganhando seus milhões. Os que jogam na Europa vão justificar que estão no final de temporada e que o calendário é complicado e blá blá blá blá. Os que jogam no Brasil vão alegar que acabou, há pouco, os campeonatos estaduais, a Libertadores e que o calendário é complicado é blá blá blá blá. Isso sem falar naquelas desculpas velhas como a falta de entrosamento e as contusões.
A questão fundamental é a seguinte. Há jogador e há treinador que servem apenas para time. E de preferência time pequeno, aonde a cobrança é pouca. Fica mais fácil. Não tem que carregar o peso de uma camisa com milhões de torcedores nas costas. Não tem que carregar o peso de vestir a camisa amarela e seus 190 milhões de técnicos. Sendo assim, o jogador ou jogadores, quaisquer que sejam eles, fazem qualquer frescurinha e aí aquela meia dúzia de gatos pingados que nem enchem estádio acham o máximo. E a mídia – que vende qualquer coisa – abraça a causa.
Agora, depois do fracasso na Copa América, um ou outro começa a pensar se Dunga não tinha razão. Se até Dorival Júnior, que ousou peitar a molecadinha mass media, também não tinha razão.
Outro culpado das mazelas do futebol brasileiro, já eternizado, é Ricardo Teixeira. Particularmente, acho o cara podre e incomoda-me vê-lo há séculos no comando da Confederação Brasileira de Futebol. Tirá-lo, porém, não é a solução dos problemas. Não é ele quem bate pênalti na lua. Não é ele que pensa no corte de cabelo ou nos contratos milionários do futebol europeu. A parada dele é muito maior e assim será com os seus sucessores, ainda que haja pessoas que gostem de se enganar.
Não dá, enfim, para misturar tudo no mesmo balaio de gato.
A responsabilidade real é dos jogadores, todos sem exceção, incluso os queridinhos da mídia. Foram eles que jogaram sem vontade contra a medrosa Venezuela que não deu um único chute a gol. Foram eles que acharam que venceriam o Paraguai a hora que bem entendessem no primeiro jogo e conseguiram empatar com um gol do reserva Fred no finalzinho da partida. Foram eles que resolveram jogar o segundo tempo contra o Equador, tomando ainda dois frangos. E até que eles bem que tentaram fazer “o que dava” para que o Brasil permanecesse na competição. Mas aí, sabe como é… a preocupação com a janela de transferências da Europa era muito maior.
A verdade sobre a eliminação é esta. Sem hipocrisia, sem tergiversações. E claro que você tem todo o direito de não gostar, mas com o devido respeito, a minha visão é de alguém que já acompanhou nove Copas do Mundo.
Em que pese ser um pensamento utópico, há muito tempo defendo uma seleção brasileira composta por jogadores que atuem apenas aqui no Brasil. Claro que eles devem almejar bons e merecidos contratos no futebol europeu, asiático ou no raio que o parta. Mas que comam a grama para chegar lá.
Hoje está tudo muito fácil. Qualquer caretinha que faz três embaixadinhas com a bola é chamado de craque, aparece empresário, às vezes da própria família e vira estrelinha.
Então é isso: enquanto permanecermos reféns dos empresários, da mídia tupiniquim, dos cortes ridículos de cabelo e da vaidade acima de tudo, o dilema será o mesmo.
E aí, meus caros, podem trocar o Mano Menezes por Telê Santana e Ricardo Teixeira por Jesus Cristo, que o resultado será o mesmo.

2. A ruindade do adversário contamina o time melhor.
9. Foi pênalti da Venezuela no primeiro tempo.
É preciso muito mais que cabelo, marketing, arrogância e mídia baba-ovo para jogar futebol.
BRASIL 0 X 0 VENEZUELA
Meu avô materno ensinou-me que futebol é um jogo de onze homens contra onze homes. E que não se deve cantar vitória antes.

