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Tiririca e outros bichos

por Sylvio Micelli

Desde o início da campanha eleitoral, muito se fala da candidatura de Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço, humorista, cantor (?) e “abestado” Tiririca.

Já li vários e-mails e reportagens, aqui e ali, no geral muito críticas à candidatura. Listas circulam pela Internet detonando candidatos famosos compostos por humoristas, ex-jogadores de futebol e até mulheres que atendem pelo nome de frutas. Pessoas ironizam a formação educacional de tais postulantes. Seja como for, o fato é que Tiririca dominou os noticiários e deverá ser eleito sem nenhuma dificuldade.

Toda essa celeuma é uma tremenda hipocrisia que (juro!) pensei que tivesse deixado de existir após a eleição de Lula ao maior cargo do País.

Tenho, enfim, algumas ponderações sobre o tema:

1. O cidadão Francisco Everardo Oliveira Silva, bem como seus companheiros de (má) fama, tem todo o direito de votar e ser votado. A Constituição Federal garante isso a todo o brasileiro.

2. Sua campanha é de uma ironia deslavada e de extrema perspicácia. Seu slogan “Pior que tá, não fica” não deve ser motivo de risos e sim, de reflexão. Suas perguntas capiciosas do tipo “você sabe o que faz um deputado?” demonstra com exatidão que boa parte da população não acredita no Legislativo.

3. Suas roupas alegres e seu material de campanha fazem troça com esta triste realidade nacional.

E aí eu pergunto: estará ele errado? Estará seu partido (PR – Partido da República) errado?

Tiririca, assim como aconteceu com Enéas Carneiro (do extinto Prona e que se fundiu ao Partido Liberal para formar o PR) e em priscas eras com o rinoceronte Cacareco, é fruto de uma sociedade, em parte alienada, em parte descrente.

Caso ele seja eleito – e tudo indica que o será e com mais de 1 milhão de votos – teremos mais um deputado fruto do voto de protesto que, apesar de imbecil para os que se julgam acima do bem e do mal – demonstra que boa parte da população não está nem aí para a política, porque já sabe que as promessas dos engravatados, repetidas a cada pleito, estão esvaziadas e raramente são cumpridas.

A possível eleição de Tiririca também é um aviso para que os próximos governantes pautem, discutam e votem as reformas que o Brasil precisa – política, econômica, tributária e, quiçá, moral – mas que não interessa a ninguém, porque geralmente mexe no interesse de todos.

O problema, enfim, não está no Tiririca e nos outros “famosos”. O problema está na classe política, em boa parte desacreditada e no eleitorado, em boa parte alienado.

Candidatos ruins, propostas velhas, debate morno e audiência pífia

por Sylvio Micelli

O primeiro debate entre os candidatos à presidência da República, promovido pelo Grupo Bandeirantes e suas diversas mídias, foi uma decepção. Ressalte-se, aqui, a importância da realização de debates e, historicamente, a Bandeirantes sempre deu o pontapé inicial nas eleições desde o primeiro encontro lá em 1982.

Os candidatos, no geral, foram fraquíssimos. Cheguei a ler em algum lugar, um comentário de um crítico que dizia ter sentido “saudade do Aureliano Chaves”. Para os abaixo dos 30 anos, que nem sabem quem foi o político mineiro, abro aqui um parêntese.

Aureliano Chaves foi governador biônico de Minas Gerais nos anos 70 e foi o último dos vice-presidentes do regime militar. Atuou na gestão do general João Baptista de Oliveira Figueiredo até 1985 e com o presidente José Sarney foi ministro de Minas e Energia até 1988. Pouco expressivo, daí a ironia crítica de se ter saudade de sua performance, tentou a eleição na disputa presidencial de 1989, quanto “trocentos” candidatos concorreram na primeira eleição direta depois de quase três décadas. Teve uma votação inexpressiva com cerca de 0,9% dos votos e terminou o pleito em oitavo lugar. Encerrou sua vida política filiado ao PSDB.

Voltando a 2010, o debate mostrou uma carência total dos candidatos. Se o crítico disse ter saudade de Aureliano Chaves, eu tive saudade de Mário Covas, Jânio Quadros, Leonel Brizola e, pasmem, até de Paulo Maluf.

Dos candidatos

O “hipocondríaco”

José Serra (PSDB), com sua empáfia habitual, foi tragado durante o debate. Desatento, não prestava atenção às perguntas formuladas. Falou a maior parte do tempo sobre as questões de saúde, o que lhe rendeu a ironia do candidato Plínio de Arruda Sampaio que o chamou de “hipocondríaco”. Chegou até a falar de cirurgia de varizes, assunto de somenos importância diante do caos da saúde brasileira. De prático disse apenas que irá criar a Nota Fiscal Brasileira, a exemplo da Nota Fiscal Paulista, um embuste que serve para dar grandes prêmios a poucos e que não resolve os colossais problemas tributários do Brasil.

Para quem é de São Paulo, conhece José Serra de longa data. Ele faz com que eu lembre de uma antiga propaganda de um jornalão paulista. Ele tem “cara de conteúdo”. Faz a alegria da centro-direita dominante. Julga-se acima do bem e do mal. Mas não sabe dialogar com as massas. Odeia ser lembrado que faz parte da turma do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin e relata uma série de coisas que pretende fazer em nível nacional que não fez em nível estadual.

O “poste”

Dilma Rousseff (PT) tentou provar que não era um “poste” como se imaginava e que só está no pleito por indicação direta e explícita do presidente Lula. Nervosa e gaguejando algumas vezes em seu primeiro debate, perdeu o tempo das falas por diversas vezes. Assumiu, publicamente, que será a continuidade (ou continuismo?) da atual administração. Deitou a falar dos feitos dos oito anos de Lula e da inserção do Brasil no mundo. Também passou longe dos grandes temas nacionais. Trouxe, como os outros candidatos, propostas esgarçadas pelos anos das promessas eleitorais.

Dilma conseguiu provar que fica difícil ser ela mesma, para o bem ou para o mal, sem o aparato bélico e sem o aparelhamento da atual administração. Ela não é um poste, mas também não é o “Lula de saias”. Não tem o mesmo carisma e, caso seja eleita, servirá, salvo melhor juízo, como ponte para o retorno do mesmo Lula daqui a quatro anos. Por sinal este é o sonho da maioria dos petistas que conheço.

A “ecocapitalista”

Marina Silva (PV) foi quem teve a atuação mais fraca. Não conseguiu se desvencilhar dos dogmas da petista que sempre foi, desde quase a primeira hora. Nem mesmo quando as discussões entraram na área ambiental, onde reconhecidamente ela é craque, seu desempenho melhorou. Serviu como base para Dilma Rousseff durante boa parte do debate, o que ajudou a isolar José Serra. Parecia uma velha dobradinha de petistas de longa data. Ela, enfim, está no Partido Verde, mas a alma permanece petista.

Não conseguiu posicionar-se como a “terceira via” que muitos desejariam. Deve receber votos de ambientalistas e petistas arrependidos.

O “bobo-da-corte”

Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), outro ex-petista histórico, foi um caso à parte, num debate insosso. Marujo de outras guerras, do alto dos seus 80 anos, foi o único que conversou com o eleitor, desde o primeiro momento. Cheio de ironias chamou José Serra de “hipocondríaco”, Marina Silva de “ecocapitalista” e se referiu à candidata petista como “Doutora Dilma” de forma sarcástica. Sua participação fez sucesso nas redes sociais, em especial o Twitter, quando atingiu os Trending Topics (*) mundial.

Nada disso fará com que ele chegue ao segundo turno. Ele se destacou, somente, diante da nulidade dos demais, mas com o devido respeito, exerceu muito mais o papel de “bobo-da-corte” ao trazer um pouco de cor para um embate anêmico. Suas propostas, as mesmas do petismo ancestral, são anacrônicas e, certamente, serão repudiadas pelo eleitorado. É bem verdade que ele se consolidou como a alternativa aos outros três candidatos que são bem semelhantes, mudando apenas a tonalidade do discurso. Por isso, e somente por isso, saiu vitorioso e aproveitou, como diria Andy Warhol, seus “quinze minutos de fama”.

Audiência nula

O brasileiro deu mais uma vez a demonstração de que não está nem aí com as eleições. E isso se reflete na qualidade do debate. A audiência média da Rede Bandeirantes foi de apenas 3%, o que equivale a pouco mais de 180 mil domicílios em São Paulo. Tudo bem que havia uma partida semifinal de Libertadores no mesmo dia e horário entre São Paulo e Internacional, mas ainda assim, a audiência foi tão nula quanto à performance dos candidatos. A Bandeirantes ficou atrás da Globo, SBT, Record e até da Rede TV!.

Nas redes sociais, o debate esteve mais animado e até apimentado pelos comentários e ataques feitos pelos correligeonários dos candidatos. Mas isso é pouco. Num País, onde o analfabetismo digital é proporcional ao analfabetismo real ficou provado que a maioria dos eleitores não se envolve com o processo. E todos perdemos com isso.

Perspectivas

Não acredito que o quadro mude nos próximos debates. Nem mesmo nos encontros entre os candidatos aos governos estaduais. Haverá, cada vez mais, a polarização entre José Serra e Dilma Rousseff num maniqueísmo eleitoral que interessa a ambos e que é prejudicial a todos. Muitas vezes penso o porquê de termos um pluripartidarismo de fachada, que serve apenas para mostrar o quanto somos “democráticos” e mais nada. Cada vez mais temos vivido o mesmo bipartidarismo nefasto do obscuro tempo de Arena X MDB.

Pelo resultado do primeiro debate, nosso atraso endêmico permenecerá nos próximos quatro anos com reflexos em muitos anos, independente do vencedor. Como já redigi em outras ocasiões não há projetos de governo. Apenas de poder interessa. O partido X e o partido Y acusam-se, mutuamente, de modus operandi iguais que atendem aos interesses para a manutenção do poder. As grandes reformas, em especial a política e a tributária, permacerá engavetada sem que se solucione tais problemas.

Mas não há problemas! Em 2014, a Copa do Mundo será aqui. Dois anos depois, os Jogos Olímpicos serão aqui. Teremos uma farta munição do Panis et circenses habitual para manter o nosso atraso histórico.

Não sou favorável ao voto nulo e até entendo que a eleição para o Legislativo é mais representativa e fundamental no processo democrático, mas que estamos mal representados, lamentavelmente estamos.

(*) Os Trending Topics ou TTs são uma lista em tempo real dos nomes mais postados no Twitter pelo mundo todo. Valem para essa lista as tagtemas ou hashtags (#) e nomes próprios. A lista não é aberta, isso significa que o usuário deve estar logado para ter acesso. Os TTs ganharam tanta força que são comentados frequentemente pelos usuários como TT e mobilizam correntes para colocar um tema na lista e ter exposição mundial. Os casos recentes mais famosos foi o “Cala a boca, Galvão” à época da Copa do Mundo e a “vitória” de Plínio de Arruda Sampaio no debate da semana passada. Fonte: Wikipedia e Twitter.

Acabou a Copa Mercosul…

por Sylvio Micelli

Na semana passada, quando começaram as disputas das quartas de final da Copa do Mundo da África do Sul, enchi-me de esperança e orgulho e decretei a muitos amigos: “vamos transformar isso numa Copa América dentro da Copa do Mundo”. Até chegaram a corrigir-me. Era, na verdade, uma Copa Mercosul pois Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai classificaram-se entre os oito melhores. E os quatro países fazem parte deste imbróglio chamado Mercado Comum do Sul, uma união aduaneira de livre comércio intrazona e política comercial comum que se arrasta desde a sua formação em 1995. Mas isso é uma outra história.

Voltando à Copa do Mundo eu via no horizonte uma final apoteótica entre Brasil e Argentina, o que era plenamente possível. Seriam semifinais entre Brasil e Uruguai e outra disputa entre Argentina e Paraguai.

A trilha do caminho mostrou-me, porém, que o futebol europeu mesmo sendo pasteurizado e talvez desprovido de emoção é tecnicamente perfeito. Parece até aquela escola de samba que não empolga na avenida, mas que tecnicamente cumpre todos os requisitos e é campeã.

Nosotros fomos sendo despedaçados pelo caminho. Primeiro, o Brasil. Perdeu o jogo e a cabeça para uma Holanda longe de suas melhores equipes mas que chega à final. Depois a Argentina com Messi, Tevez e Maradona foi estraçalhada pela Alemanha. Foram recebidos com alegria por seu povo, mas decepcionaram. O Paraguai caiu de pé. Vendeu caro a derrota para a Espanha. E de quebra apresentou a modelo Larissa Riquelme para o mundo.

O Uruguai foi mais longe. Conseguiu vencer Gana nos pênaltis depois de um jogo histórico, quando um outro pênalti contra cometido por Luis Suárez no último instante de jogo e perdido por Gyan deu aos uruguaios o ânimo necessário para a disputa final. Perdeu hoje da Holanda por 3 a 2. Mas foi por pouco. Mesmo com suas limitações, a aguerrida Celeste Olímpica, que chegou desacreditada à África do Sul, foi a melhor equipe sulamericana. Vamos lembrar que o Uruguai só foi à Copa na repescagem contra a Costa Rica.

A Holanda está na final. De outro lado virá Alemanha ou Espanha. Provavelmente, a Alemanha passa e deve ser campeã. Mas na horrorosa Copa da Jabulani tudo é possível.

Para mim, a Copa acabou.

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