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A hipocrisia do brasileiro nos gols irregulares (dos outros)

por Sylvio Micelli

Neste domingo de Copa do Mundo, erros capitais aconteceram nas duas partidas das oitavas de final da Copa do Mundo da África do Sul.

No jogo entre Alemanha e Inglaterra, Lampard fez um golaço, que não foi observado pelo juiz uruguaio Jorge Larrionda e o auxiliar Maurício Espinosa. Estava 2 a 1 para a Alemanha. Os ingleses empatariam a partida e como disseram todos os “entendidos do futebol”, a história do jogo poderia ter sido diferente.

Logo em seguida, na segunda partida do dia, o primeiro gol da Argentina contra o México veio num impedimento de Tevez. Mais uma vez, a mesma cantilena. Caso o gol tivesse sido anulado pelo italiano Roberto Rossetti, o jogo poderia ter sido outro.

Bobagem! Tanto Alemanha quanto a Argentina foram muito superiores aos seus adversários. Claro que existe a perspectiva de que as partidas poderiam ter sido mais difíceis, mas acho que o resultado final não seria outro senão a vitória e a bela disputa de quartas de final entre alemães e argentinos. Por sinal, as oitavas de final até aqui não apresentaram nenhuma zebra. A classificação uruguaia e mesmo a ganense, não são surpresas.

Quero deixar claro que sou totalmente favorável à tecnologia aplicada ao futebol em lances assim, ainda mais numa Copa do Mundo. Não veria problemas com um chip que ativaria um sinal quando a bola ultrapassasse a marca fatal. Também não vejo problemas com a anulação de gols irregulares depois de um replay para que juiz e bandeirinhas observassem jogadas complicadas. Sugiro, até, dois assistentes atrás de cada um dos gols para que a Fifa não venha com aquela discurseira tosca de que não dá para usar tecnologia em determinados lugares do mundo. Estamos falando de futebol profissional e que deve ser adaptado às necessidades que se impõem com o avanço tecnológico. A Copa do Mundo conta com 32 câmeras oficiais fora todas as máquinas nos estádios. Juiz e bandeirinhas contam com seis olhos, apenas.

O que realmente incomoda nessa história toda é a hipocrisia da maioria do brasileiro – o povo mesmo, jornalistas esportivos, comentaristas et caterva – quando o gol irregular é dos outros, especialmente se for argentino.

O maior problema do Brasil, num contexto macro, é o uso indiscriminado do velhíssimo, roto e esfarrapado   “dois pesos e duas medidas”. E isso é em tudo. Não apenas no futebol. Veja na política: o partido X ao ser criticado pelo partido Y, alega que o Y fez a mesma coisa no passado e assim, sucessivamente. Continuamos, dia após dia, mês após mês, ano após ano, sendo o País do jeitinho, do acerto, do cafezinho…

Voltando à Copa do Mundo, como dever de justiça, devemos resgatar o gol de Luís Fabiano contra a Costa do Marfim. Um belo gol, sem dúvida, mas que foi irregular pelo uso do antebraço. A partida estava 1 a 0 para o Brasil. A partida também poderia ter sido outra e a boa equipe marfinense, em que pese violenta, poderia ter desclassificado a seleção portuguesa.

Aí, esses hipócritas nada falam ou se falam, acham “engraçadinho” o vídeo flagrado da conversa de Luís Fabiano com o juiz francês Stephane Lannoy que, mesmo em dúvida, validou o gol.

Mais do que nunca está atual a célebre exortação de Sérgio Porto, o nosso inesquecível e maravilhoso Stanislaw Ponte Preta: “Ou restauremos a moralidade ou nos locupletemos todos”. Ou seja: quer reclamar de Tevez, ou do gol não dado de Lampard, ou do gol de mão do francês Henry nas Eliminatórias contra a Irlanda ou até “La Mano de Dios” do gênio Diego Armando Maradona, contra a Inglaterra em 1986, comecemos por dar o exemplo e não achar que nossos gols irregulares, ainda que validados, sejam “obra do acaso” ou porque somos o melhor futebol do mundo.

Maradona em 1986

Luís Fabiano e o juiz contra a Costa do Marfim

O gol de Lampard que Larrionda não viu

Impedido, Tevez põe a Argentina na frente contra o México

Alemanha e Inglaterra: o melhor jogo da Copa… e com vários lances para a história


por Sylvio Micelli

Alemanha e Inglaterra acabaram de protagonizar o melhor jogo desta fraca Copa do Mundo. A vitória alemã por 4 a 1 é incontestável. Tem melhor equipe que os ingleses e um contra-ataque mortal. Aliás, é uma injustiça para o futebol, ter um jogo deste nível numa “simples” disputa de oitavas-de-final. Fosse a Commembol, para o bem ou para o mal, seria inventada uma regra em que campeões do mundo não poderiam se enfrentar numa “partidinha mixuruca” dessas.

Mas há vários lances que entram para a história. O primeiro gol da Alemanha nasceu de um tiro de meta. O goleiro Neuer cobra com força. A bola viaja por 90 metros. O fantástico Klose protege a bola, ganha de Upson e bate na saída de James. Seu gol, o 12º em copas do Mundo, faz com que ele empate com Pelé em copas. Isso não é pouca coisa. Não se toma gol vindo de um tiro de meta. Nem na várzea. Ainda mais numa Copa do Mundo.

A Alemanha já vencia por 2 a 1, com gols de Podolski para os germânicos e Upson para os britânicos, quando a Inglaterra empata. O genial Lampard coloca de longe, por cobertura e a bola bate no travessão. Entra e sai do gol. O árbitro uruguaio Jorge Larrionda não vê nada e manda seguir.

Pausa para a história. Final da Copa de 1966 na Inglaterra, em 30 de julho, no templo de Wembley. Depois de um empate por 2 a 2 no tempo normal, no primeiro tempo da prorrogação o artilheiro Hurst bate. A bola quica na linha e nunca saberemos ao certo se a bola entrou ou não. Há um entendimento de que a bola não entrou, mas é importante ressaltar que 44 anos atrás não tínhamos dezenas de câmeras nem redes sociais.

Seja como for, o suiço Gottfried Dienst validou o gol inglês. Hurst faria, ainda, 4 a 2 para a alegria da terra da raínha.

Jorge Larrionda não validou o golaço de Lampard e a Inglaterra provou do próprio veneno de quatro décadas atrás.

Perdendo por 2 a 1, os ingleses foram para cima. Bateram faltas em barreiras alemãs e em rápidos contra-ataques a Alemanha matou o jogo. Destaque para o meia Mesut Özil, um baixinho genial que é um verdadeiro motor Mercedes-Benz na seleção.

O golaço de Lampard entrará para a história dos não-gols que comentaremos nos botecos vida a fora.

O Brasil na Copa, o “estilo Dunga” e a mesmice da Imprensa

por Sylvio Micelli

Depois de dois jogos do Brasil na Copa do Mundo já é possível uma análise mais detalhada sobre a relação conturbada do técnico Dunga com a Imprensa. Como muitos já sabem, não faço parte do coro contra o técnico pelo qual tenho profundo respeito.

Já escrevi antes e reitero aqui, que acredito que o Brasil não será campeão, apenas por fatores extra-campo, principalmente pela realização da Copa de 2014 aqui. Muitos vão dizer que vejo fantasmas onde não existem, mas sempre tive a impressão de que Copa do Mundo é, sobretudo, uma disputa que envolve elementos políticos muito bem cristalizados. Basta analisar os campeões ao longo desses 80 anos e a interferência e/ou uso político da competição.

Dentro do contexto da atual disputa, a Copa do Mundo, até aqui, tem sido fraca. Os resultados são assustadores com tropeços de Alemanha, Inglaterra, Espanha, Itália todas consideradas como “sérias candidatas ao título” no discurso uníssono dos repórteres e comentaristas esportivos. A Holanda, outra sempre bem cotada, venceu mas não convenceu. E a Argentina, como até eles sabem, tem uma defesa sofrível e um ataque maravilhoso.

Contra a Coreia do Norte, a seleção brasileira foi fraca na primeira etapa. No segundo tempo jogou para o gasto e conseguiu ainda tomar um gol. O resultado de 2 a 1 fez sucesso na mídia do fiasco que estampou caras e bocas de Dunga no dia seguinte. Os gols de Maicon e Elano, em ótimas jogadas, pouco dominaram o noticiário que prefiriu explorar ao máximo o “estilo Dunga”, sempre de forma depreciativa. O Brasil foi fraco? Sim, sem dúvida. Mas poucos analistas observaram a forte marcação da equipe norte-coreana que se fechou para perder de pouco.

Foram acontecendo os jogos das “favoritas”. Com estas derrotadas ou amargando empates começaram a dar o devido valor para a seleção brasileira.

Agora há pouco, o Brasil deu um baile na Costa do Marfim considerada, ao lado de Gana, como as mais fortes seleções do continente africano. O Brasil começou titubeante e aos poucos dominou o jogo. Fez 3 a 0 e poderia ter feito mais. Em jogadas de Kaká, que ainda precisa melhorar muito, Luís Fabiano por duas vezes e Elano marcaram. O centroavante, por sinal, fez um belíssimo gol que remete ao histórico gol de Pelé contra o País de Gales na Copa de 1958. O Brasil ainda tomou um gol de Drogba numa falha de marcação, mas que não alterou o seu domínio em campo.

O fraquíssimo árbitro francês, Stephane Lannoy, permitiu que os marfinenses descessem a botinada e Kaká, até por ingenuidade, foi expulso por uma “simples” ombrada.

Fim de jogo e o Brasil, ao lado da Holanda, já está classificado para as oitavas de final da Copa da África do Sul.

Se a equipe ainda não mostrou um futebol de excelência fez o que dela se esperava e que o mundo inteiro reconhece. Menos aqui.

O que a mídia brasileira precisa aprender é o seguinte:

1. O Brasil é o país do futebol. Isso é óbvio. Portanto, há milhares de seleções possíveis e nunca, jamais, em tempo algum, alguém vai agradar a todos. Nem Telê Santana, querido pela mídia e que em 1982 montou a melhor seleção que vi jogar deixou de responder os porquês da convocação do goleiro Waldir Peres, só para citar um exemplo;

2. Muitos que idolatram Luiz Felipe Scolari que, por méritos, foi campeão com a seleção de 2002, esquecem-se de que o Brasil foi muito beneficiado no jogo contra a Bélgica nas oitavas de final daquela Copa. Por sinal, para que fique bem claro, Felipão e Dunga fizeram a mesma “escola”;

3. O Brasil é reconhecido no mundo inteiro. As equipes tremem ao ver a camisa amarela em campo. Isso foi nítido nas duas partidas. Mas aqui ainda preferem valorizar produtos de fora.

É claro que quando o Brasil perder, se perder, a mídia vai criticar tudo, todos e mais um pouco. Mas o “estilo Dunga” já fez com que muitos ficassem calados ou revessem os conceitos.

Agora é aguardar pelos duelos da Península Ibérica. Um, já marcado contra Portugal. E outro, bem provável contra a Espanha.

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Sylvio Micelli

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