A hipocrisia do brasileiro nos gols irregulares (dos outros)
- junho 27th, 2010
- Write comment

por Sylvio Micelli
Neste domingo de Copa do Mundo, erros capitais aconteceram nas duas partidas das oitavas de final da Copa do Mundo da África do Sul.
No jogo entre Alemanha e Inglaterra, Lampard fez um golaço, que não foi observado pelo juiz uruguaio Jorge Larrionda e o auxiliar Maurício Espinosa. Estava 2 a 1 para a Alemanha. Os ingleses empatariam a partida e como disseram todos os “entendidos do futebol”, a história do jogo poderia ter sido diferente.
Logo em seguida, na segunda partida do dia, o primeiro gol da Argentina contra o México veio num impedimento de Tevez. Mais uma vez, a mesma cantilena. Caso o gol tivesse sido anulado pelo italiano Roberto Rossetti, o jogo poderia ter sido outro.
Bobagem! Tanto Alemanha quanto a Argentina foram muito superiores aos seus adversários. Claro que existe a perspectiva de que as partidas poderiam ter sido mais difíceis, mas acho que o resultado final não seria outro senão a vitória e a bela disputa de quartas de final entre alemães e argentinos. Por sinal, as oitavas de final até aqui não apresentaram nenhuma zebra. A classificação uruguaia e mesmo a ganense, não são surpresas.
Quero deixar claro que sou totalmente favorável à tecnologia aplicada ao futebol em lances assim, ainda mais numa Copa do Mundo. Não veria problemas com um chip que ativaria um sinal quando a bola ultrapassasse a marca fatal. Também não vejo problemas com a anulação de gols irregulares depois de um replay para que juiz e bandeirinhas observassem jogadas complicadas. Sugiro, até, dois assistentes atrás de cada um dos gols para que a Fifa não venha com aquela discurseira tosca de que não dá para usar tecnologia em determinados lugares do mundo. Estamos falando de futebol profissional e que deve ser adaptado às necessidades que se impõem com o avanço tecnológico. A Copa do Mundo conta com 32 câmeras oficiais fora todas as máquinas nos estádios. Juiz e bandeirinhas contam com seis olhos, apenas.
O que realmente incomoda nessa história toda é a hipocrisia da maioria do brasileiro – o povo mesmo, jornalistas esportivos, comentaristas et caterva – quando o gol irregular é dos outros, especialmente se for argentino.
O maior problema do Brasil, num contexto macro, é o uso indiscriminado do velhíssimo, roto e esfarrapado “dois pesos e duas medidas”. E isso é em tudo. Não apenas no futebol. Veja na política: o partido X ao ser criticado pelo partido Y, alega que o Y fez a mesma coisa no passado e assim, sucessivamente. Continuamos, dia após dia, mês após mês, ano após ano, sendo o País do jeitinho, do acerto, do cafezinho…
Voltando à Copa do Mundo, como dever de justiça, devemos resgatar o gol de Luís Fabiano contra a Costa do Marfim. Um belo gol, sem dúvida, mas que foi irregular pelo uso do antebraço. A partida estava 1 a 0 para o Brasil. A partida também poderia ter sido outra e a boa equipe marfinense, em que pese violenta, poderia ter desclassificado a seleção portuguesa.
Aí, esses hipócritas nada falam ou se falam, acham “engraçadinho” o vídeo flagrado da conversa de Luís Fabiano com o juiz francês Stephane Lannoy que, mesmo em dúvida, validou o gol.
Mais do que nunca está atual a célebre exortação de Sérgio Porto, o nosso inesquecível e maravilhoso Stanislaw Ponte Preta: “Ou restauremos a moralidade ou nos locupletemos todos”. Ou seja: quer reclamar de Tevez, ou do gol não dado de Lampard, ou do gol de mão do francês Henry nas Eliminatórias contra a Irlanda ou até “La Mano de Dios” do gênio Diego Armando Maradona, contra a Inglaterra em 1986, comecemos por dar o exemplo e não achar que nossos gols irregulares, ainda que validados, sejam “obra do acaso” ou porque somos o melhor futebol do mundo.
Maradona em 1986
Luís Fabiano e o juiz contra a Costa do Marfim
O gol de Lampard que Larrionda não viu
Impedido, Tevez põe a Argentina na frente contra o México

por Sylvio Micelli

