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Corinthians, Flamengo e Nelson Rodrigues no duelo das multidões

Corinthians X Flamengopor Sylvio Micelli

Esta noite no estádio Mário Filho (irmão de Nelson Rodrigues), o bom e velho Maracanã, outrora chamado “Maior do Mundo”, Flamengo e Corinthians fazem a primeira partida pelas oitavas-de-final da Copa Santander Libertadores. Fossem outros tempos e, certamente, o Maracanã teria mais de 100 mil pessoas.

O estádio carioca traz ótimas recordações para nós, corinthianos.

Em 05 de dezembro de 1976, um domingo paradoxalmente chuvoso na capital mais ensolarada do mundo – o Rio de Janeiro -, aconteceu a chamada “Invasão Corinthiana” no jogo semifinal contra o Fluminense. Quase 150 mil pessoas, metade corinthiana, dividiu o Maracanã pau-a-pau com a torcida do Fluminense. Carlos Alberto Pintinho marcou para o tricolor do nosso inesquecível Nelson Rodrigues. Mas Ruço, o “beijinho doce” imortalizado pelo não menos imortal Osmar Santos, selou o empate. Nos pênaltis, o goleiro Tobias defendeu duas cobranças e o Corinthians classificou-se para a final do Brasileiro daquele ano. Foi derrotado depois pelo muito superior time do Internacional gaúcho, que conquistaria o bicampeonato em 1976 com a maravilhosa equipe comandada por Paulo Roberto Falcão. Independente disso, a “Invasão” está na história, na alma e no coração de qualquer corinthiano e, quiçá, de qualquer um que adore futebol.

Mais de 24 anos depois, o alvinegro do Parque São Jorge voltou a fazer festa no Rio. Em 14 de janeiro de 2000, o Corinthians venceria o I Mundial Interclubes promovido pela Fifa. O jogo contra o Vasco da Gama foi para os pênaltis depois de um empate em 0 a 0. Nos pênaltis, Dida defendeu a cobrança de Gilberto. Os corinthianos Rincón, Fernando Baiano, Luizão e Edu converteram. Marcelinho Carioca, o “pé-de-anjo” da Fiel, perdeu quando teve a chance de decidir. Os vascaínos Romário, Alex e Viola marcaram. Edmundo perdeu quando poderia empatar a disputa. Corinthians campeão do mundo, mesmo tendo o título contestado por aqueles que não têm. A argumentação é pífia. O Corinthians não pode ser campeão do mundo, segundo nossos contrários, porque não venceu uma Libertadores e “porque não tem passaporte”. Pura inveja. Foi um torneio organizado pela entidade máxima de futebol. A final foi no mais famoso estádio do mundo e o Corinthians representou o Brasil como bicampeão brasileiro (1998-1999). Acho que o Campeonato Brasileiro é mais difícil que a Libertadores. Enfim, cada um com o seu cada qual…

As maiores torcidas do mundo – algo em torno de 70 milhões – jamais viram uma decisão de Campeonato Brasileiro, mas poderão ver hoje e na semana que vem, a decisão de quem permanece na disputa continental em 2010.

É muito injusto! Corinthians e Flamengo deveriam fazer uma final de Libertadores. Não uma partida intermediária. Mas quis o destino assim.

O Corinthians fez sua parte. Mesmo não mostrando um futebol convincente classificou-se, sem maiores problemas, num grupo fraco com o dobro de pontos do segundo colocado. Foi a melhor equipe dentre as 32 que disputam e levará a vantagem de jogar em casa todas as decisões até onde conseguir chegar.

Nelson Rodrigues, o mestre, o mago, o... tudo! Foto: ArquivoO Flamengo, por sua vez, classificou-se na velha e tosca “bacia das almas” dependendo de uma combinação de três resultados para continuar vivo na Libertadores.

Dois times de respeito. Dois times de história. Dois times com problemas.

Ronaldo e Adriano, duas estrelas mundiais, estão muito aquém de todo o futebol que sabem. Mas os outros jogadores dos dois times têm qualidades. E todo cuidado é pouco.

Que me perdoem as outras torcidas. Mas Corinthians e Flamengo é o maior clássico do planeta. Ouso complementar o que mestre Nelson Rodrigues afirmou com o “Fla-Flu começou 40 minutos antes do Nada”. Se ele estiver correto – e os mestres sempre estão – Palmeiras e Corinthians fizeram a preliminar. Corinthians e Flamengo fizeram o jogo principal.

É que nós, brasileiros, adoramos exaltar o que vem de fora e preferimos outros duelos como Barcelona X Real Madrid, Milan X Internazionale ou, até, Boca Jrs. X River Plate. Fosse esse jogo num país europeu e o mundo pararia.

Seja como for. O Brasil vai parar. Exceto para os torcedores que sobrarem das outras equipes que estiverem jogando no mesmo horário.

Nelson diria que “cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante, por um dia.” Será hoje o ideal dos anti-corinthianos.

Se fosse um jogo de truco seríamos nós e eles. E assim será sempre quando o Corinthians estiver envolvido.

Que vença o melhor. E que o Corinthians seja esse melhor.

O “Senhor Centenário” do Corinthians

Marcelinho Carioca e sua marca registradapor Sylvio Micelli

Ahhhh! Os nomes, listas e escolhas… Cada um tem a sua. Mas não tenho dúvidas de que a opção da diretoria do Corinthians em nomear Marcelinho Carioca, o “pé-de-anjo” da Fiel, como “embaixador” do clube em seu Centenário, foi a mais acertada.

A escolha de Marcelo Pereira Surcin, um jovem senhor de quase 39 anos, foi baseada em marketing esportivo, empatia e números.

Ainda em forma e não menos perfeito na cobrança de faltas e escanteios, Marcelinho está na ativa. Ou seja, pode participar de jogos amistosos e, a exclusivo critério do sério técnico Mano Menezes pode, eventualmente, entrar em partidas oficiais. O atleta sempre foi excelente em marketing pessoal. A cada gol marcado gesticulava para as câmeras para que a imagem fosse aproximada. Isso virou sua marca registrada.

A empatia entre a Fiel Torcida e o jogador é inegável. Sua camisa oficial de número 100 é a mais cara do clube e estava esgotada na primeira semana de vendas, desbancando as camisas 9 do atacante Ronaldo “Fenômeno” e 6, do recém contratado lateral esquerdo Roberto Carlos. Além disso, há um respeito mútuo. O jogador, atuando por outras equipes, chegou a marcar contra o Corinthians, e jamais comemorou. E o torcedor sempre gostou do jeito Marcelinho de ser. Muito articulado, às vezes controvertido, encrenqueiro, por vezes até petulante, mas extremamente corinthiano.

Por fim, os números. E a matemática não mente. Em 8 anos, foram 427 jogos com 206 gols marcados, muitos decisivos. Títulos, ninguém ganhou mais que ele. Foram dez, ao todo: um Mundial da Fifa (2000), dois títulos brasileiros (1998, 1999), uma Copa do Brasil (1995), quatro edições do Campeonato Paulista (1995, 1997, 1999 e 2001), uma Copa Bandeirantes (1994) e um Troféu Ramón de Carranza (1996).

É possível que seja uma jogada para que Marcelinho inicie sua carreira política? Sim. Ele não contaria com o meu voto. Mas não seria o primeiro atleta a tentar a empreitada. E a vida política é aberta a todos que a queiram.

Claro que a lista é grande. Uma equipe como o Corinthians tem vários candidatos a embaixador. Como esquecer de Sócrates, mentor da Democracia Corinthiana? E Basílio, o outro “pé-de-anjo” da Fiel, e seu gol inesquecível de 1977? E o querido Neto, que carregou um modesto Corinthians nas costas para sagrar-se campeão brasileiro em 1990? Mas se os fins, justificam os meios, o perfil de Marcelinho é inigualável. E a nação corinthiana, certamente, estará bem representada. E basta ele marcar um gol de falta para que o Pacaembu venha abaixo.

Ainda a tal da independência

A independência do Brasilpor Sylvio Micelli

Não há dia mais propício para escrever sobre independência do que no 7 de setembro. Não que eu ache que o ato de Pedro I seja relevante. O interesse dele era a Marquesa. E reproduzimos a mesma história, dois séculos depois, como se fosse uma grande imagem como é o imortal quadro “O Grito do Ipiranga” de Pedro Américo.

Não. Não é. A pseudo-independência deflagrada por Pedro I foi um ato rebelde do filho da coroa. Ele não foi nenhum Bolivar. Ninfomaníaco, como sabemos, o interesse dele era outro e, Portugal já não gozava do mesmo prestígio na Europa. Resolveu Pedro, então, ficar por estas plagas de clima tropical.

A história do Brasil tem uma série de erros, mais ou menos grosseiros, que ainda não nos concedeu uma identidade. Quem somos, afinal? Os índios foram dizimados. Os degredados foram trazidos para cá. Os escravos foram arrancados de suas origens. Vieram os imigrantes. Depois os migrantes neste caleidoscópio multi-facetado.

Falta-nos um libertador. Eis aí o nosso grande problema. Nossos mártires, cada qual à sua época, não nos trouxe uma “cara”. Sei. Tem muita gente que se locupleta, num nacionalismo estúpido, que o Brasil é o país de todas as caras. Ledo engano, companheiros!

Até o “Duas Caras”, um dos inimigos de Batman, tinha lá suas crises de consciência. O que dizer, então, de um povo com várias faces. Não prego aqui, de forma nenhuma, a raça única defendida por Hitler, mas o Brasil ainda tem muita coisa a galgar em busca de sua própria identidade.

Voltemos à Brasília. Agora descobri porque a comida no restaurante da Câmara dos Deputados era ruim. Pagava-se o tal do “mensalinho” e pronto. E pau no Severino Cavalcanti. Ao menos dá um refresco para Lula terminar seu mandato. Porque Severino entrou de cabeça no furacão Katrina que assola o Congresso há quase meio ano. E é uma cabeça fácil de ser decaptada para o regozijo das cleópatras do poder.

Ontem aconteceu em São Paulo um ato da OAB, centrais sindicais e partidos políticos, contra a corrupção. Estive lá, até porque o partido ao qual sou filiado, passa longe dos escândalos e tornou-se um reduto moral diante dos acontecimentos. Entretanto, ainda não consigo compreender, ainda não desce pela garganta, um ato contra o atual governo de origem trabalhadora. Ainda mais com a participação de parlamentares de partidos focados na tal da social democracia. Na Praça da Sé lembrei da minha adolescência, 21 anos atrás, no ato pelas Diretas, Já! Não consigo absorver o paradoxo.

Irrita-me, profundamente, uma campanha crescente pela Internet em prol do voto nulo. Da abstenção generalizada. Inocência ou burrice, tal ato traz enormes prejuízos para o país. O custo das eleições é caro. Mas eles acham que podem cancelar a eleição e realizar outra, com outros candidatos. Melhores ou piores? Abster-se ou votar nulo, apesar do reconhecido caráter opinativo, é se omitir da decisão. Digo isso com conhecimento de causa. Já anulei meu voto e arrependi-me amargamente. Sou um ardoroso defensor da política e julgo-a com um bem necessário. Temos errado, dia após dia, nas pessoas escolhidas. Mas isso não significa que devamos abrir mão do direito de escolhê-las. É um aprendizado, repito, de nosso embrionária democracia.

Finalizo aqui com uma alegria e uma reconhecida preocupação. Sou fanático por futebol. E simplemente torço, e que me desculpem meus muitos amigos contrários, para o time mais popular do país. Meu amado e idolatrado Corinthians que, semana passada, completou 95 anos de bons serviços em nome da alegria e da emoção.

Enfim, estamos na Copa do Mundo. Mais uma. Todas. Apenas o Brasil, que engoliu o Chile em parcos 18 minutos. Mas tive instantes de razão que torci contra. Por que iremos para a Copa? Para fomentar, mais uma vez, a questão do pão que nos falta para o circo, que temos em excesso? Por que temos que paralisar o país durante um mês? Ainda mais num ano eleitoral? Justamente nós, que precisamos aprender tanto na política e na sociedade para sermos imbatível como no futebol. Mas, enfim, temo que a Copa do Mundo seja mais uma vez usada eleitoralmente. Como em 50. E 70. E tantas outras. E será inivitável como sempre.

Texto originalmente escrito em 07/09/2005

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Sylvio Micelli

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