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Resumo da Ópera-Bufa Lulesca-Jeffersoniana

por Sylvio Micelli

A questão primordial que vejo neste caso todo é um processo de desmistificação de Lula e companhia graças ao “holofotismo” da mídia… Nós jornalistas, e que atire a primeira pedra quem pensar o contrário, adoramos sangue! Ver o circo pegar fogo. Algo como: “tá vendo, eu não falei?” Torcer pelo inferno de Dante… Citar “O Príncipe” de Maquiavel como um bálsamo para todos os males.

Quando Lula fala – e fala cada besteira – “que todo mundo já fez”, ele está certo! O jeitinho brasileiro já está intrínseco à cultura tupiniquim. Quem de nós já não pensou em dar um “jeitinho”, ou pagar um “cafezinho”, numa situação em que estivemos do outro lado da lei ou do que quer que seja? Atirem quantas pedras quiserem.

A própria eleição de Severino Cavalcanti à presidência da Câmara dos Deputados é reflexo disso. Ele se autodenominava representante do “baixo-clero”. Uma espécie de Robin Hood às avessas. Ele é o povão sim! Aquele que ajuda pinguços na cidade-natal. Ou que aceita o nepotismo diplomado.

A questão lulesca-jeffersoniana é muito menos importante que a patuléia nacional. Se houver o “impeachment” de Lula – o que acho pouco provável e nem torço para isso – vai apenas ser mais um caso, como o de Collor, nessa endemia nacional pouco resolutiva. Precisamos pensar, ainda, que vivemos num país novo (são 500 anos) em relação a outros tantos milenares e ainda buscamos uma identidade… Meus ancestrais vieram da Calábria e descendem dos mouros… Aqui, as múltiplas etnias não nos concedeu uma cara. Tenho que lembrar, com infinita saudade, de Cazuza! “Brasil, mostra a tua cara!”

Para piorar há diferenças gritantes na sociedade brasileira… Enquanto estou aqui no computador conversando com o “mundo”, não muito longe daqui em Marsillac, na zona sul ou Terceira Divisão, no final de Sapopemba na leste (nem precisa ir ao Nordeste) há comunidades que desconhecem luz, esgoto etc e tal… E estou falando da cidade de São Paulo, a esquina do mundo…

Pois bem. Nunca achei que Lula fosse resolver todos os problemas. Primeiro porque seria um maniqueísmo burro e não me deixo levar pelos sofismas que aqui ou acolá, tentam nos impor. Segundo porque nossa pseudo-democracia é ainda imberbe… E o mais importante dos fatores: nossa sociedade pequeno-burguesa sugou o país de tal forma sem conceder-lhe nada em troca que seria boçal da minha parte aceitar mudança radical em 4 anos. Aliás… acho que se começarmos a alterar algumas coisas, os efeitos serão lá na frente. 10, 20, 30 anos.

Traço críticas aqui à democracia porque ainda não tenho como compreender a democracia como um regime de governo que mantém crianças nos sinais, mendigos assassinados, malas e cuecas milionárias andando por aí. Mas, por enquanto, não apareceu outro regime despojado de idiossincrasias em contraponto às ditaduras que não cerceie liberdades, nem mate Herzog.

Esta ópera-bufa maluca traz à tona uma sensação geral de corrupção. Mas, o que sobra de fato é uma paralisia que prejudica o Brasil. O que mais me entristece, além da situação em si, porque quem me conhece sabe o quanto amo a ciência Política, é o agravamento da crise e as desculpas esfarrapadas do partidários de Lula.

Resquentar denúncias velhas, afirmar que todos fazem as mesmas coisas, tentar conspurcar a opinião pública e transformar corrupção em crime eleitoral é golpe baixo daqueles que sempre investiram-se da aurela de anjos, arcanjos e querubins. Agora acenam com um grande acordo… Uma enorme pizza a cobrir o Eixão Monumental. Que nem prefiro comentar. Mas que de modo algum assustar-me-á…

Oras… Os ainda partidários de Lula pensam que eu sou burro. Ou ingênuo. Ou imbecil. Até posso ser tudo isso. Ou cada vez menos saber das coisas como diz o mestre Cony. Mas eu sei muito bem o que todos fizeram nos verões passados.

Eu sei o que Sarney fez para permanecer no poder. Sei o que ele fez para chegar ao Poder. Sair do PDS e se juntar à Tancredo. Eu sei todos os casos de corrupção do Collor e até em que circunstâncias ele foi alçado ao poder pela mesma mídia que o derrubou. Também sei da língua afiada de Itamar e suas namoradas e sei muito mais dos oito anos de tucanato do FHC. Sei que houve compra de votos no caso da reeleição. Sei das privatizações que foram nefastas ao país. E é bem provável que Marcos Valério já estivesse aí a financiar o propinoduto aéreo Pampulha-JK e conexões.

Mas também sei que Lula foi um metalúrgico que se transformou no maior líder sindical do país. E não entro aqui na questão de mérito de seus atos enquanto sindicalista. Sei que ele lutou para chegar aonde chegou com seus parcos recursos que todos conhecemos. Sei também das idéias que ele defendeu. Dos discursos que proferiu. E de todas as ilações e frases feitas que proferiu.

E aí – e sempre tem um condicional para atrapalhar – a roda pega. Nunca apreciei Genoíno ou Zé Dirceu. Nem sabia da existência de Delúbio, Silvinho e outros “companheiros”. Nunca pensei tampouco que Lula daria um “cheque em branco” a Roberto Jefferson. Aquele mesmo que sempre gravitou em torno do poder constituído.

Em nome da tal “governabilidade”, que expressa apenas um projeto de poder e não um projeto de administração, Lula fez os acordos que não devia. Este Lula não é o mesmo de 1989. Hoje é um Lula pasteurizado em embalagem Tetra Pak para regozijo dos pequeno-burgueses que acham uma “gracinha” ter um presidente que bebe pinga e leva sua finada cadela para passear em carro oficial.

Enfim, ele se cercou das pessoas erradas. Ouviu conselhos errados. Não posso acreditar que ele não soubesse das coisas. E tudo isso é lastimável. Porque eu e mais 52 milhões de sonhadores votamos, como já escrevi, numa promessa de paraíso. Não votamos em Delúbio, Genoíno e companhia. Votamos no ícone. Elegemos o novo Messias. Pusemos nossas esperanças na brejeirice a la Mazzaropi de Lula. Ele era o comum do povo. Um pedaço de nós todos. E não foram promessas eleitoreiras. Durante um quartel de século, o Partido dos Trabalhadores com Lula, seu maior expoente, foi o Tim Maia da política. O síndico. Aquele pronto a soar o alarme. A derrubar o regime militar. A bradar pelas Diretas. A derrubar Collor. Lula foi esse brasileiro – que não desiste nunca. E nunca desistimos. Até eu que NUNCA havia votado no PT, porque sempre vi um ranço totalitário em suas hostes, rendi-me ao bordão nacional após o Penta: “agora vai!!!!!!!!!!!”.

E não foi. E o “medo” venceu a “esperança”. E tudo era tão igual que os petistas se armam para a defesa com comida resquentada. Ninguém fala “eu sou inocente”. Todos falam “ele também fez”. Todos correm em busca de provas contra os outros, mandam recados ameaçadores e não se defendem. A regra é mais ou menos assim “eu não me limpo, mas eu te sujo”. Agora temos aí, dinheiro, poder, corrupção, mentiras… Ninguém fala em milhares, mas em milhões. Mas os milhões são outros. Não são de dólares ou de reais. Mas são reais. Somos nós…

E nós? E quem nos defende da fome, do desemprego, da “doença” pública que não é mais saúde? Das terras que não são cultivadas, dos malabares nos semáforos e da prostituição infantil em troca de comida? Não queria tudo resolvido em 4 anos. Mas pelo menos o começo.

Sei de tanta coisa. Mas isso não sei. Não sei em quem votar. Não sei em que acreditar. O Brasil perdeu a cor. E como disse recentemente o grande Luiz Fernando Veríssimo “quem quase vive já morreu”.

Morte e redenção

por Sylvio Micelli

O “capo” caiu. Zé Dirrrrrrrceu, o super-ministro de Lula, o Golbery do PT já era. Confesso que não imaginava que isso poderia acontecer. E me baseio numa informação simples. Estava eu em Brasília, no começo de 2003, tudo novo e esperançoso, quando uma amiga, assessora de um parlamentar petista, confidenciou-me o que já imaginávamos: “ele [Dirceu] é o primeiro-ministro. É o que manda. É mais fácil cair o Lula do que ele”.

Dois anos e meio depois a realidade foi outra. Lula, para tentar salvar alguma coisa, cortou seu braço direito. E, apesar das negativas, Roberto Jefferson obteve sua primeira vitória. Ele que na terça-feira foi claro ao afirmar para Dirceu sair rápido. E saiu.

Vamos então analisar a massa falida. O teatro de horrores de Roberto Jefferson deve ter suas verdades. Afinal, derrubou o Chefe da Casa Civil da Presidência sem, sequer, mostrar provas. Dirceu perde ao voltar para a Câmara dos Deputados. Não apenas a pose. Ele arrumou muitas inimizades nesses trinta meses. É comum ouvir pelos corredores do Congresso que o Planalto, leia-se José Dirceu, não coopera com os parlamentares da base.

Quem ganha com a saída do Zé é Palocci. Um político mediano de Ribeirão Preto (quem conhece a cidade sabe o que estou falando) e que herdou o espólio político de Celso Daniel, assassinado há poucos meses da eleição de 2002.

Para Lula restam duas alternativas. Ou ele começa a de fato governar. E prova aquilo que a maioria já imaginava, ou seja, que ele era um fantoche na mão de Zé Dirceu. Ou ele toca a bola até o final do jogo para não perder mais.

Como seria governar um desgoverno? Lula tem 18 meses para virar o jogo e sem pirotecnia. Fazer uma reforma ministerial grande e densa. Cortar outros amigos e colocar os ministros para trabalhar, o que não aconteceu até aqui, com as exceções de praxe. Caberá ainda ao Presidente peitar a política econômica e exigir a queda dos juros para que o crescimento no país ocorra no segundo semestre e que ele ganhe oxigênio para 2006. O maior líder sindical brasileiro ainda deverá viajar menos para o exterior e se concentrar nos problemas nacionais.

Assumir que programas sociais fetichistas, como o Fome Zero por exemplo, não surtiram o efeito prático nem midiático imaginado e mexer no chiqueiro. Não há como se alimentar os porcos sem entrar lá dentro.

É isso. E seria a redenção. Toda essa história tem como principal vítima o povo brasileiro. Que acreditou, deu um cheque em branco para Lula e ele não saldou o crédito dado por 50 e tantos milhões de brasileiros, incluso este medíocre jornalista. Do contrário será a morte… Morte política de Lula, do PT e agregados. E a morte pior que é a vergonha sentida em ser brasileiro.

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