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O horário político eleitoral e o exame de próstata

por Sylvio Micelli

Há duas semanas começou o horário político eleitoral no rádio e na televisão. Até o final de setembro seremos brindados (ou não) com promessas evasivas que transformam o Brasil numa Dinamarca.

De dois em dois anos são sempre as mesmas reclamações.

Os grandes conglomerados de mídia reclamam do fato de ser um horário gratuíto que os impedem de auferir lucros ainda maiores. Alegam, por exemplo, que o custo de mais de R$ 800 milhões (nesta campanha de 2010) saem dos bolsos do contribuinte e que é injusto ser gratuíto para eles. Afirmam, ainda, que prejudicam a “prestação de serviço” que acreditam dar ao cidadão. As emissoras de rádio e TV acham que fazem um relevante favor em nome da democracia, ao realizarem debates com os principais candidatos, geralmente escolhidos pela própria mídia. Nunca é concedido espaço igual a todos os candidatos, sempre sob a pálida desculpa de que são muitos candidatos.

A população, em boa parte alienada, reclama da qualidade dos programas e, principalmente da qualidade dos próprios candidatos pois, afinal, toda a eleição tem um novo Cacareco (*). Muitos alegam que o debate de ideias fica camuflado por trás de programas que visam apenas conquistar votos. Outros não estão nem aí. Preferem desligar a TV ou o rádio na hora dos programas.

Diz um velho ditado que “casa onde falta pão, todo mundo reclama e ninguém tem razão”.

As reclamações, tanto da mídia como do eleitorado, parecem-me equivocadas.

A democracia ainda é imberbe no Brasil. Há uma sensação generalizada de que eleição é um mal necessário, pelo qual devemos passar a cada dois anos, como se fossem terríveis sessões de quimioterapia a expugar todo o mal que a classe política nos concede.

Os veículos de comunicação deveriam abster-se das críticas. Não poderiam se esquecer de que são concessões públicas e que eles não fazem mais do que a obrigação em divulgar as candidaturas. Eles poderiam ir além, ao promover debates amplamente democráticos e com candidatos a todos os cargos eletivos. Uma ou outra emissora ainda tenta. Mas ainda é muito pouco.

Ao eleitor, ainda falta cultura política. Por exemplo: os candidatos famosos compostos por humoristas, ex-atletas, cantores, filhos de apresentadores e mulheres que atendem por nome de frutas e afins, não deveriam ser criticados. É uma ironia. A mesma sociedade que lhes concede fama, ainda que sejam os tais quinze minutos eternizados por Andy Warhol, critica-lhes pelo exercício de cidadania.

Eu não me importo com candidatos famosos. Se eles forem competentes, que mal há. Há muitos candidatos desconhecidos (a grande maioria) que são o mais puro creme do lixo.

Enfim, vejo o horário eleitoral tal e qual o exame de próstata na avaliação do médico Dráuzio Varella, cuja competência e didatismo superou os consultórios e virou até filme. Varella, sobre o exame que traz desconforto e uma certa irritabilidade aos homens, afirma que é necessário, mas não o vê como um mal necessário. E, sendo um exame de toque, foi feito para uma avaliação médica e não para dar prazer.

Horário político é a mesma coisa. Não é um programa de entretenimento igual a tantos de qualidade duvidosa que passam em nossas péssimas emissoras de rádio e TV. Foi feito, mesmo com limitações, para uma avaliação dos candidatos.

A qualidade do horário e dos candidatos é um reflexo da sociedade. À medida que esta sociedade for amadurecendo, há uma tendência de sensível melhora nos candidatos e propostas. Abrir mão do horário político é uma aberração que remete aos tempos da ditadura e que uma sociedade, ainda que levemente democrática, não pode permitir.

(*) Cacareco foi um rinoceronte do Zoológico de São Paulo que, nas eleições de outubro de 1958  para vereador da cidade, ganhou cerca de 100 mil votos. À época, a eleição era realizada com cédulas de papel e os eleitores escreviam o nome de seu candidato de preferência.

Cacareco foi um dos mais famosos casos de voto nulo em massa da história da política brasileira, uma vez que se tornou o “candidato” mais votado do pleito: o partido mais votado não chegou a 95.000 votos.

Após o resultado das eleições, Stanislaw Ponte Preta comentou no jornal Última Hora que “diversos membros da cúpula do PSP andaram rondando a jaula de Cacareco, para o colocarem no lugar de Adhemar de Barros”. Já o então presidente Juscelino Kubitschek declarou: “Não sou intérprete de acontecimentos sociais e políticos. Aguardo as interpretações do próprio povo”.

A idéia de lançar o animal como candidato teria sido do jornalista Itaboraí Martins, em protesto contra o baixo nível dos outros 450 concorrentes. O fato se tornou notório e serviu como referência para várias análises de percentuais no Brasil de voto nulo e dos chamados votos de protesto.

Fonte: Wikipedia

José Serra já perdeu a eleição. E para ele mesmo.

por Sylvio Micelli

A mais recente pesquisa eleitoral para o cargo de presidente da República indica que a candidata Dilma Rousseff (PT) conta com mais de 50% dos votos. Não confio muito em pesquisas. Elas sempre tem interesses subjacentes. Seja como for, todas as pesquisas apontam que a petista vencerá José Serra (PSDB) no primeiro turno.

Para boa parte dos tucanos que julgavam Dilma Rousseff um poste, o que não condiz com a realidade dos fatos, Serra está perdendo para ela. E se fosse Marina Silva (PV), Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), ou um cone de trânsito, ele seria derrotado da mesma forma.

Isso porque Serra já perdeu. E pior: para ele mesmo.

Ao longo da última década, José Serra adotou estratégias políticas erradas. Dono de uma peculiar arrogância, tratorou colegas de partido e correligionários e agora paga o altíssimo preço do abandono. O PSDB virou-lhe as costas de uma forma tão cristalina que a situação, além de inusitada, chega a ser patética.

Lembremos um pouco da história.

Em 2002, Serra se candidatou à presidência. Lá ele já não era uma unanimidade dentro de seu partido. Mas depois de oito anos de FHC era o melhor quadro que os tucanos dispunham. Mário Covas tinha acabado de falecer e Geraldo Alckmin assumiu o cargo de governador de São Paulo para “aprender” o ofício no maior estado do País. Serra foi derrotado por Lula, o que era meio óbvio. Mesmo com todo o terrorismo eleitoral perpetrado pela mídia da época, o risco-país em patamares astronômicos, o dólar na casa de R$ 4, não havia jeito de Lula ser derrotado, até pelo processo histórico de redemocratização do país. Talvez aí tenha sido o primeiro erro de avaliação de Serra. Ele poderia ter deixado outra cabeça, que não a dele, rolar na disputa contra Lula. Porque o mundo sabia que a vitória do petista era inevitável.

Em 2004, Serra candidatou-se à prefeitura de São Paulo tendo como vice, Gilberto Kassab (DEM). Ao não investir numa chapa “pura”, composta apenas por membros do PSDB, Serra gerou uma grave fissura no partido, uma ferida não curada até hoje. Criou-se a briga interna travada por “serristas” e “alckimistas”.

Dois anos depois, sem terminar o mandato de prefeito, ele sai candidato ao Governo do Estado de São Paulo. Serra opta agora por uma chapa pura com Alberto Goldman. Vence, mas também não termina o mandato.

Seu maior erro, a meu ver, aconteceu em 2008. Serra apoiou claramente a reeleição de Gilberto Kassab (DEM), mesmo tendo o PSDB um candidato próprio, Geraldo Alckmin, que chegou em 3º lugar. Ao entrar no barco vitorioso de Kassab, o tucano virou as costas para o seu partido.

Há um ditado italiano a ensinar, há séculos, que “a vingança é um prato que se come frio”.

José Serra, que já havia cometido muitos erros em suas estratégias, fez impor seu nome para a corrida ao Palácio do Planalto. Chegou a dar um cargo para Alckmin, em seu governo, como a saldar suas dívidas. Mas isso não resolveu.

Perdeu o segundo maior colégio eleitoral do Brasil com Aécio Neves, seu colega de Minas Gerais. Escolheu um vice-presidente, o senador Álvaro Dias (PSDB) que não contava com o respaldo da aliança demo-tucana. Teve que trocar de vice na marra com Índio da Costa (DEM) e gerou mais fissuras também no DEM.

E como dizem no popular: a casa caiu. Aliás, nem caiu. Sequer chegou a ser alicerçada.

Sua campanha vai de mal a pior. Além da favela cenográfica que foi criticada até por seus apoiadores, ele está visivelmente perdido. Virou alvo de chacota como o vídeo que reproduzo acima.

Como escrevi aqui no blog no último dia 08, no primeiro debate entre os candidatos à presidência, “Serra com sua empáfia habitual, foi tragado durante o debate. Desatento, não prestava atenção às perguntas formuladas. Falou a maior parte do tempo sobre as questões de saúde. Chegou até a falar de cirurgia de varizes, assunto de somenos importância diante do caos da saúde brasileira. De prático disse apenas que irá criar a Nota Fiscal Brasileira, a exemplo da Nota Fiscal Paulista, um embuste que serve para dar grandes prêmios a poucos e que não resolve os colossais problemas tributários do Brasil.

Para quem é de São Paulo, conhece José Serra de longa data. Ele faz com que eu lembre de uma antiga propaganda de um jornalão paulista. Ele tem “cara de conteúdo”. Faz a alegria da centro-direita dominante. Julga-se acima do bem e do mal. Mas não sabe dialogar com as massas. Odeia ser lembrado que faz parte da turma do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin e relata uma série de coisas que pretende fazer em nível nacional que não fez em nível estadual”.

O futuro de José Serra é incerto e não sabido. Talvez ele ganhe um prêmio de consolação, caso Geraldo Alckmin seja eleito. Talvez volte em dois anos para concorrer à prefeitura de São Paulo ou só reapareça em 2014 pleiteando uma vaga no Senado Federal ou na Câmara dos Deputados.

Quero deixar claro que não estou menosprezando a campanha da petista. Também não entrarei no mérito de nenhuma das campanhas. Particularmente, tenho motivos suficientes para não votar em nenhum dos dois. Também não gosto desse maniqueísmo eleitoral que transforma as campanhas num jogo de truco. A grande mídia – do lado de cá e do lado de lá – escolhe seus preferidos e jogam isso para o eleitor.

Nesta pseudo-democracia em que vivemos, o pluripartidarismo e a pluralidade de ideias e propostas deveria ser melhor explorada e não ficar meramente no discurso. Mas para tanto falta uma profunda reforma política que não interessa a ninguém. Perdemos todos, mas isso pouco importa. Há, de lado a lado, apenas planos de poder e não planos de governo.

Para quem ainda acha que os resultados só saem após a apuração dos votos devo avisar que milagres eleitorais acontecem na mesma proporção que coelhinhos da Páscoa ou Papais-Noel aparecem na janela aqui de casa.

Opinião de Sylvio Micelli sobre “Caso Bruno” é publicado no Observatório da Imprensa

O site Observatório da Imprensa, especializado na visão crítica do trabalho da mídia, publicou o artigo “O machismo na cobertura de crimes passionais” do jornalista Sylvio Micelli.

No artigo, Micelli opina mais sobre a mídia na cobertura do caso, do que o caso propriamente dito.

Para publicação no site do OI o artigo teve intertítulos colocados pela edição. Está publicado na seção “Jornal de Debates”.


O Observatório da Imprensa é uma iniciativa do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É um veículo jornalístico focado na crítica da mídia, com presença regular na internet desde abril de 1996.

Nascido como site na web, em maio de 1998 o Observatório da Imprensa ganhou uma versão televisiva, produzida pela TVE do Rio de Janeiro e TV Cultura de São Paulo, e transmitida semanalmente pela Rede Pública de Televisão (confira a grade horária no site do programa).

Em maio de 2005, o Observatório da Imprensa chegou ao rádio, com um programa diário transmitido pela rádio Cultura FM de São Paulo, rádios MEC AM e FM do Rio de Janeiro, e rádios Nacional AM e FM de Brasília. Os áudios dos programas, na forma de um blog, estão disponíveis no site do OI.

Leia o artigo no site Observatório da Imprensa

Leia o artigo no blog do jornalista Sylvio Micelli

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