O horário político eleitoral e o exame de próstata
- agosto 30th, 2010
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por Sylvio Micelli
Há duas semanas começou o horário político eleitoral no rádio e na televisão. Até o final de setembro seremos brindados (ou não) com promessas evasivas que transformam o Brasil numa Dinamarca.
De dois em dois anos são sempre as mesmas reclamações.
Os grandes conglomerados de mídia reclamam do fato de ser um horário gratuíto que os impedem de auferir lucros ainda maiores. Alegam, por exemplo, que o custo de mais de R$ 800 milhões (nesta campanha de 2010) saem dos bolsos do contribuinte e que é injusto ser gratuíto para eles. Afirmam, ainda, que prejudicam a “prestação de serviço” que acreditam dar ao cidadão. As emissoras de rádio e TV acham que fazem um relevante favor em nome da democracia, ao realizarem debates com os principais candidatos, geralmente escolhidos pela própria mídia. Nunca é concedido espaço igual a todos os candidatos, sempre sob a pálida desculpa de que são muitos candidatos.
A população, em boa parte alienada, reclama da qualidade dos programas e, principalmente da qualidade dos próprios candidatos pois, afinal, toda a eleição tem um novo Cacareco (*). Muitos alegam que o debate de ideias fica camuflado por trás de programas que visam apenas conquistar votos. Outros não estão nem aí. Preferem desligar a TV ou o rádio na hora dos programas.
Diz um velho ditado que “casa onde falta pão, todo mundo reclama e ninguém tem razão”.
As reclamações, tanto da mídia como do eleitorado, parecem-me equivocadas.
A democracia ainda é imberbe no Brasil. Há uma sensação generalizada de que eleição é um mal necessário, pelo qual devemos passar a cada dois anos, como se fossem terríveis sessões de quimioterapia a expugar todo o mal que a classe política nos concede.
Os veículos de comunicação deveriam abster-se das críticas. Não poderiam se esquecer de que são concessões públicas e que eles não fazem mais do que a obrigação em divulgar as candidaturas. Eles poderiam ir além, ao promover debates amplamente democráticos e com candidatos a todos os cargos eletivos. Uma ou outra emissora ainda tenta. Mas ainda é muito pouco.
Ao eleitor, ainda falta cultura política. Por exemplo: os candidatos famosos compostos por humoristas, ex-atletas, cantores, filhos de apresentadores e mulheres que atendem por nome de frutas e afins, não deveriam ser criticados. É uma ironia. A mesma sociedade que lhes concede fama, ainda que sejam os tais quinze minutos eternizados por Andy Warhol, critica-lhes pelo exercício de cidadania.
Eu não me importo com candidatos famosos. Se eles forem competentes, que mal há. Há muitos candidatos desconhecidos (a grande maioria) que são o mais puro creme do lixo.
Enfim, vejo o horário eleitoral tal e qual o exame de próstata na avaliação do médico Dráuzio Varella, cuja competência e didatismo superou os consultórios e virou até filme. Varella, sobre o exame que traz desconforto e uma certa irritabilidade aos homens, afirma que é necessário, mas não o vê como um mal necessário. E, sendo um exame de toque, foi feito para uma avaliação médica e não para dar prazer.
Horário político é a mesma coisa. Não é um programa de entretenimento igual a tantos de qualidade duvidosa que passam em nossas péssimas emissoras de rádio e TV. Foi feito, mesmo com limitações, para uma avaliação dos candidatos.
A qualidade do horário e dos candidatos é um reflexo da sociedade. À medida que esta sociedade for amadurecendo, há uma tendência de sensível melhora nos candidatos e propostas. Abrir mão do horário político é uma aberração que remete aos tempos da ditadura e que uma sociedade, ainda que levemente democrática, não pode permitir.
(*) Cacareco foi um rinoceronte do Zoológico de São Paulo que, nas eleições de outubro de 1958 para vereador da cidade, ganhou cerca de 100 mil votos. À época, a eleição era realizada com cédulas de papel e os eleitores escreviam o nome de seu candidato de preferência.
Cacareco foi um dos mais famosos casos de voto nulo em massa da história da política brasileira, uma vez que se tornou o “candidato” mais votado do pleito: o partido mais votado não chegou a 95.000 votos.
Após o resultado das eleições, Stanislaw Ponte Preta comentou no jornal Última Hora que “diversos membros da cúpula do PSP andaram rondando a jaula de Cacareco, para o colocarem no lugar de Adhemar de Barros”. Já o então presidente Juscelino Kubitschek declarou: “Não sou intérprete de acontecimentos sociais e políticos. Aguardo as interpretações do próprio povo”.
A idéia de lançar o animal como candidato teria sido do jornalista Itaboraí Martins, em protesto contra o baixo nível dos outros 450 concorrentes. O fato se tornou notório e serviu como referência para várias análises de percentuais no Brasil de voto nulo e dos chamados votos de protesto.
Fonte: Wikipedia


