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Salário Mínimo: a discussão de dois bêbados por uma garrafa de pinga

por Sylvio Micelli

A presidente Dilma Rousseff (PT) chega aos 50 dias de governo, cercada pelas discussões que envolvem o salário mínimo nacional. Salvo melhor juízo, é a questão mais relevante desde sua posse e que está diretamente relacionada ao Executivo e, obviamente, ao Legislativo nacionais.

Depois de um verdadeiro “leilão” de propostas com valores de R$ 540, R$ 545, R$ 560 e até R$ 600, a Câmara dos Deputados aprovou, na semana passada, a proposta original do governo de R$ 545, rejeitando-se todas as emendas que visavam majorar o valor. O Senado Federal não mexeu na proposta. Isso significa que o mínimo terá o gigantesco reajuste de R$ 1,17 por dia.

Diferentemente do aumento de mais de 61%, que os parlamentares votaram para si mesmos no final do ano passado gerando uma “revolta” nacional, as discussões sobre o mínimo nacional se arrastam e, para mim, parecem mais a discussão de dois bêbados por uma garrafa de pinga. Toda vez é sempre a mesma coisa. Os governantes de plantão, quaisquer que sejam eles, usam da mesma retórica neoliberal que, pensávamos, estava morta, cremada e dissolvida.

Mas a coisa não é bem assim. A discurseira é sempre a mesma. Que “o aumento de um real, impacta em não sei quantos milhões” e o aumento do mínimo continua, efetivamente, mínimo, esquálido, patético.

Em que pese respeitar, mesmo não concordando com programas assistencialistas do tipo “Bolsa Família” e outros, entendo que a majoração real do salário mínimo faria com que nossa economia expandisse. A mim, é importante que as classes C ou D possam comprar iogurte ou financiar passagens aéreas. Mas, sinceramente, preferiria que a classe D chegasse à classe C, que chegasse à classe B e assim, sucessivamente. A concentração de renda no Brasil continua ultrajante e nada é feito.

Nosso salário mínimo, cerca de US$ 328, continua sendo um dos menores do mundo. Vale ressaltar que ele teve um considerável aumento durante os oito anos do governo Lula, mas ainda assim, está muitíssimo aquém das reais necessidades do trabalhador. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o respeitável Dieese, aponta que o salário mínimo, hoje, deveria ser de R$ 2.194,00 para custear uma família de quatro pessoas com suas necessidades básicas que são moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social. Ou seja, R$ 545 não representa nem 25% disso.

O amigo jornalista Altamiro Borges, editor do Portal Vermelho, foi muito feliz no seu “O início preocupante do governo Dilma“. Miro avalia que o “corte cirúrgico de 50 bilhões no Orçamento da União confirma que os tecnocratas neoliberais estão com a bola toda no início do novo governo. Eles já bombardearam a proposta de aumento real do salário mínimo, aplaudiram a decisão do Banco Central de elevar a taxa de juros e, agora, festejam os cortes nos gastos púbicos. Tudo bem ao gosto das elites rentistas e para delírio da mídia do capital, que agora decidiu bajular a nova presidenta”.

O que devemos lamentar é que, num governo petista, o mesmo grupo que ironizou o aumento do mínimo em 2000, à época em 19,2%, agora acredita que a majoração em percentuais acima de 6,86% é impossível. Tudo isso em nome da tal governabilidade, esse monstro que unifica ideologias e rasga bandeiras de luta.

É, Dilma. Mais neoliberal impossível.

José Serra: o mal perdedor mau

por Sylvio Micelli

Antes que os censores tucanos de plantão me critiquem, que fique bem claro: não sou petista, nem lulista, nem dilmista. Meu candidato a presidente não chegou ao segundo turno. Não cabe aqui informar meu voto, mas tenham certeza de que sempre votei com a esquerda, desde 1989 quando pude exercer o direito/dever de votar. E para bom entendedor, meia cédula já basta.

No segundo turno das eleições presidenciais anulei meu voto. Cumpri com o tal do dever cívico, apenas. Não quero aqui convencer um ou outro lado sobre os motivos. Até porque, o baixo nível da campanha transformou a eleição num jogo de futebol inconsequente onde todos reclamavam e ninguém tinha razão. Não vi, enfim, em nenhum dos dois candidatos, uma oportunidade, ainda que mínima, de real mudança.

Passado o pleito, Dilma Rousseff tornou-se a primeira mulher presidente do Brasil. E ponto final, gostem ou não. Será a continuidade de Lula (para o bem ou para o mal) como, aliás, deixou bem claro durante a campanha (ela não enganou ninguém) e ratificou esta postura com a manutenção de peças chaves nos ministérios mais complexos.

Habitué da rede social Twitter, o candidato derrotado José Serra tem aparecido nos últimos tempos apenas para alfinetar e espicaçar (com seu bico tucano) o atual governo. Já usou as chuvas torrenciais que devem, ao final da contagem dos corpos, totalizar mais de mil mortos. Também fez uso do frágil argumento dos juros altos para defenestrar o governo Dilma e fez analogias sobre o “fisiologismo” na disputa de cargos. Escreve, ainda, sobre “incompetência” e “corrupção”.

Analisemos.

Escreveu Serra no Twitter em 12 de janeiro: “Enquanto a Saúde no Brasil vai muito mal, como mostram todas as pesquisas, Ministério da Saúde está paralisado pela briga fisiológica.”

Será que ele se esqueceu que, sob sua gestão, o Brasil teve altos índices de dengue o que lhe rendeu o nada honroso apelido de Ministro da Dengue? Dados confirmam que em 2001, como ministro da Saúde e que na propaganda era o “melhor ministro da Saúde da história”, ele gastou R$ 81 milhões em propaganda e apenas R$ 3 milhões em campanhas de combate à dengue. Como parte do plano econômico, demitiu seis mil “mata-mosquitos” contratados para eliminar os focos do Aedes Aegypti (transmissor da dengue). Resultado: em 2002 o estado do Rio de Janeiro, o mesmo que está submerso na tragédia das águas, registrou 207.521 casos de dengue, com 63 mortes.

Sobre o fisiologismo, a disputa de cargos sempre existiu. Inclusive nos oito anos de FHC. E não só lá. Tanto que o fisiológico José Serra optou por apoiar Gilberto Kassab para o cargo de prefeito de São Paulo em 2008, mesmo com o seu partido – o PSDB – tendo Geraldo Alckmin como candidato. A opção, que Serra acreditou ter sido a melhor, mostra agora seu erro estratégico. Ele está isolado dentro de seu próprio partido o que, certamente, gera a necessidade de maior consumo de antiácidos e digestivos em geral para o nosso ex-governador.

Mas o destemido José Serra, sobre as chuvas, em 16 de janeiro, ataca: “As tragédias não serão atenuadas com o gogó. Não bastam anúncios, como os feitos pelo gov. Lula-Dilma há 1 ano e nada acontecer”.

Obviamente que os estragos da enchente aqui em São Paulo são menores, mas existem e matam. Ano passado foi São Luiz do Paraitinga e boa parte do Vale Histórico. Este ano, Jundiaí e Mauá. Será que em 16 anos de governo, o PSDB não poderia ter sanado o problema das enchentes? E o caso da São Paulo governada (?) por Kassab (apoiado por ele)? Melhor eu parar por aqui…

Serra volta ao Twitter em 19 de janeiro para gritar: “Como eu disse mil vezes o PT destruiu a Funasa e a Anvisa, com fisiologismo, corrupção e incompetência”.

E aí, governador… Aliás, ex-governador… O que o senhor tem a dizer sobre o Banespa? E sobre a “entrega” da Nossa Caixa ao Banco do Brasil? E a Cesp? E tantos outros esqueletos no armário tucano? Melhor nem comentar, não é mesmo? O PSDB dilapidou o patrimônio do povo paulista sempre com a visão privatista-neoliberal-caolha que o senhor e seus asseclas trabalharam.

Serra retorna ao Twitter, enfim, para criticar os juros e o Copom no dia 20 de janeiro: “Os juros reais brasileiros,que já eram os mais altos do mundo,cresceram mais.Até agora,esta foi a medida mais importante do atual governo.”

Concordo que os juros no Brasil estão, realmente, abusivos e há, certamente, uma tendência inflacionária. O Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou, nesta semana, a taxa de juros para 11,25% (*). Mas mesmo sendo um índice alto, durante o governo FHC do qual Serra participou ativamente (tanto que impôs sua candidatura em 2002), nunca tivemos tal índice. A taxa do Copom mais baixa foi um 15,25% em fevereiro de 2001, sem que nos esqueçamos dos absurdos 45% de março de 1999 (que os tucanos vão botar a culpa na crise das bolsas da Rússia e da Ásia no período de 1997 a 2000). O governo FHC entregou a Lula, em janeiro de 2003, um índice de 25%. Apenas para que o leitor tenha referência, durante a crise econômica vivida pela Europa e Estados Unidos em 2008, o índice máximo que o Copom atingiu foi 13,75%.

É por essas e por outras, que José Serra demonstra, cada vez mais, ser um político em final de carreira. Novamente derrotado nas urnas (perdeu de Lula em 2002 e de Dilma em 2010), comporta-se como um mal perdedor. Com o devido respeito, de índole má, age com o fígado, é amargo e parece torcer para que tudo dê errado. Dá a sensação de que ele quer sorrir matreiramente e, ao final de tudo afirmar do modo mais tosco destinado aos perdedores, “eu não disse…”

Antes que os censores tucanos de plantão me ataquem, afirmando que Serra está fazendo o discurso de oposição, questiono: por que ele não faz propostas reais, uma espécie de governo paralelo? Por que ele não faz uma oposição no campo das ideias? Por que ele não aprende até com “caciques” de seu partido? Que ele seja crítico, ok. Mas ele deixa claro, nestas e noutras mensagens, que quer que tudo vá para o inferno. Quem perde não é a Dilma ou o PT. Perdemos todos, ele incluso.

(*) Com informações do Banco Central do Brasil

A unificação dos títulos pela CBF e a politicagem do futebol brasileiro

por Sylvio Micelli

A Confederação Brasileira de Futebol reconhecerá, nesta quarta-feira 22 de dezembro, que a disputa da Taça Brasil, entre 1959 e 1968 e a disputa do Torneio Roberto Gomes Pedrosa e da Taça de Prata, entre 1967 e 1970, terão o mesmo valor que o Campeonato Brasileiro, este disputado desde 1971.

Trata-se, claramente, de mais um ato político que macula o futebol brasileiro.

A questão, neste caso, não é concordar ou discordar de que Santos e Palmeiras sejam os maiores beneficiados com a medida, mesmo sendo torcedor do Corinthians. Sinceramente, não é o tipo de coisa que me incomoda e sei reconhecer, obviamente, que as duas equipes tinham os melhores times da década de 60. Entretanto, é dever observar que a medida adotada pela CBF extrapola a questão meramente esportiva.

O Brasil, numa visão macro e bem mais ampla, precisa aprender a respeitar regras e contratos, não apenas no futebol. A partir do momento que, por uma mera canetada, reconhece-se qualquer coisa para dar um “cala a boca” aqui ou acolá, perde-se o respeito, perde-se a essência.

A unificação tem como base um dossiê, feito pelo jornalista Odir Cunha, que é santista. E a coisa foi crescendo sob o tacanho “eufemismo” de que seria um “absurdo” que Pelé e companhia, jamais tivessem sido campeões brasileiros. O mesmo se aplica a Ademir da Guia e à maravilhosa Academia de futebol montada pelo Palmeiras nos anos 60.

A Taça Brasil, por exemplo, assemelha-se muito à Copa do Brasil disputada hoje. Era um torneio que reunia os campeões de todos os estados e com equipes, com todo o respeito, que não disputariam a série D do Campeonato Brasileiro no terceiro milênio. O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, por sua vez, foi uma ampliação do Torneio Rio-São Paulo, com a participação de equipes convidadas e tornou-se o embrião do Campeonato Brasileiro que conhecemos hoje.

Já li reportagens que brechas serão abertas e que outros “títulos nacionais”, entre os anos de 1920 a 1937, também podem ser reconhecidos. Suponho, até, que não vai demorar muito e terá gente pedindo a unificação de títulos do Torneio Rio-São Paulo e da Copa do Brasil, apenas pelos números que eles representam.

Como diria o eterno jornalista Juarez Soares, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. O fato de Pelé ou Ademir não terem ganho um Campeonato Brasileiro nos moldes que é disputado hoje, não lhes trás nenhum demérito. Muito pelo contrário. Só um imbecil para acreditar que eles, e suas respectivas equipes, não foram campeões de tudo, inclusive do Brasil.

Isso, porém, não dá o direito de supor que campeonatos diferentes, com regras, quantidade de jogos e clubes diferentes devem ser tratados de forma isonômica pois, justamente, o Santos de Pelé ou a Academia de Ademir deveriam ser marcados como vencedores de títulos que ninguém mais os terá.

Justamente por isso, a unificação é uma bobagem e um tiro no pé, porque trata o Santos de Pelé ou o Palmeiras de Ademir como iguais. E eles foram muito superiores.

Em tempo: o glorioso São Paulo Futebol Clube precisa acabar com essa mania de perseguição. Ridículo acreditar que a CBF esteja reconhecendo os títulos da Taça Brasil e do “Robertão” para prejudicar o Tricolor. Menos, São Paulo! Menos.

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Sylvio Micelli

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