Salário do Congresso: se você fosse deputado, realmente agiria diferente?
- dezembro 17th, 2010
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por Sylvio Micelli
O Congresso Nacional deu, nesta semana, mais uma clara demonstração de que não está nem aí com a “Hora do Brasil”, como diriam os jovens há mais tempo. Os conceitos de ética, moral e respeito, há muito tempo, já chafurdam na lama daquela Casa Legislativa que une o Senado Federal e a Câmara dos Deputados.
Os parlamentares, numa velocidade ímpar na história daquela Instituição, aumentaram os próprios salários em 61,83%, índice prá lá de abusivo. Pior: atrelaram, dentro dos “rigorosos” preceitos da lei, a majoração de seus vencimentos aos salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ou seja: o Congresso Nacional não terá mais aquele desgaste típico dessas ocasiões. Isso porque quando os magistrados do STF aumentarem os próprios vencimentos, ainda que seja por lei a ser aprovada no Congresso Nacional, haverá uma reação em cadeia. A majoração será para todos os poderes em âmbito federal, estadual e até municipal.
Que o ato é vergonhoso, não tenho dúvidas de que seja. Até entristeci-me ao ler alguns nomes que aprovaram tamanho desrespeito ao povo brasileiro. Mas aí surgiu-me uma dúvida, aliás, algumas:
a) será que realmente foi um desrespeito ao povo brasileiro? Houve muito alarde, reclamações, xingamentos, mas não podemos nos esquecer de que o Congresso Nacional, as assembleias estaduais e as câmaras municipais são eleitos por nós mesmos. Ainda que tenha havido um percentual de renovação do Legislativo nacional nas últimas eleições, muita gente capenga foi reeleita. E muita gente capenga retornou. Ora… se os parlamentares são reflexo de boa parte da sociedade outra dúvida está a aporrinhar-me:
b) será que você, leitor, caso fosse eleito deputado agiria de forma diferente? Será que você não advogaria em causa própria? Claro que sempre existem as exceções, até para que se justifique a regra…
c) será que os colegas jornalistas, em especial da grande mídia, que geralmente se comporta de forma genuflexa numa relação capciosa com o governo, agiria de forma diferente?
Deixo a dúvida para reflexão, porque nós brasileiros – todos sabemos – somos internacionalmente reconhecidos como o país do “jeitinho” e aí a roda pega. Não dá para cobrar dos nossos parlamentares uma postura que nós não adotamos. Não há como sermos paladinos da moral e dos bons costumes se nem mesmo um “bom dia” damos ao vizinho do lado. Porque aí tudo vai cheirar a hipocrisia e o Estado Brasileiro continuará da mesma forma.
Devo ressaltar uma entrevista que ouvi do deputado Ivan Valente (PSOL-SP), uma das últimas reservas morais que ainda possuímos. Ele disse que a sociedade precisa aprender, precisa questionar, precisa acompanhar o trabalho dos parlamentares. Só assim, num pleno exercício de cidadania, é que poderemos minimizar o poder de deputados, senadores e vereadores que vão para Brasília ou para os legislativos estaduais e municipais, apenas para trabalhar em benefício próprio transformando seus mandatos, concedidos pelo voto popular, num grande balcão de negócios.
Parabéns aos deputados que disseram NÃO ao aumento nos próprios salários. Certamente, eles foram / serão ridicularizados pelos seus pares ou criticados por outros que acreditam que atitudes éticas e morais fazem parte apenas do jogo de cena na arena política deste País.
- Alfredo Kaefer (PSDB, PR)
- Assis do Couto (PT, PR)
- Augusto Carvalho (PPS, DF)
- Capitão Assumção (PSB, ES)
- Chico Alencar (PSOL, RJ)
- Cida Diogo (PT, RJ)
- Décio Lima (PT, SC)
- Dr. Talmir (PV, SP)
- Eduardo Valverde (PT, RO)
- Emanuel Fernandes (PSDB, SP)
- Ernandes Amorim (PTB, RO)
- Fernando Chiarelli (PDT, SP)
- Fernando Gabeira (PV, RJ)
- Gustavo Fruet (PSDB (PR)
- Henrique Afonso (PV, AC)
- Iran Barbosa (PT, SE)
- Ivan Valente (PSOL, SP)
- José C Stangarlini (PSDB, SP)
- Lelo Coimbra (PMDB, ES)
- Luciana Genro (PSOL, RS)
- Luiz Bassuma (PV, BA)
- Luiz Couto (PT, PB)
- Luiza Erundina (PSB, SP)
- Magela (PT, DF)
- Major Fábio (DEM, PB)
- Marcelo Almeida (PMDB, PR)
- Mauro Nazif (PSB, RO)
- Paes de Lira (PTC, SP)
- Paulo Pimenta (PT, RS)
- Raul Jungmann (PPS, PE)
- Regis de Oliveira (PSC, SP)
- Reinhold Stephanes (PMDB, PR)
- Sueli Vidigal (PDT, ES)
- Takayama (PSC, PR)
- Vander Loubet (PT, MS)
Em tempo: ao ironizar o aumento que os parlamentares se concederam e que não o beneficia, o presidente Lula não contribuiu para o debate;
Em tempo (2): o (agora deputado eleito por São Paulo) Tiririca está errado. Seu bordão na campanha era “vote Tiririca, porque pior que está não fica”. Infelizmente, fica. Aliás, foi bastante sintomática a chegada do palhaço Tiririca ao Congresso Nacional no dia do “auto-alto-aumento”. No final das contas, todos somos feitos de palhaço. Ou não… cabe à sociedade refletir.
por Sylvio Micelli

