Posts Tagged ‘Economia’

A permanência de Neymar: uma análise mercadológica


por Sylvio Micelli

Texto originalmente escrito para o Blog Canelada

Nesta semana, a diretoria do Santos anunciou a manutenção do atacante Neymar até a Copa de 2014, que acontece no Brasil. Independente da questão eleitoral – obviamente que a permanência do atleta praticamente define a reeleição da atual diretoria no final do ano – o fato deve ser enaltecido por todos.

Se o torcedor santista comemora e, claro, deve fazê-lo, há circunstâncias econômicas e mercadológicas envolvidas na transação.

1. Desde que Ronaldo Fenômeno foi repatriado pelo Corinthians em 2009, a ordem de mercado foi sendo modificada. O Brasil, até então exportador, passou a ser importador de craques sulamericanos, tais como Montillo, Valdívia, Conca e tantos outros, bem como passou a contar com os seus grandes jogadores. Além do próprio Ronaldo, vieram Roberto Carlos, Ronaldo Gaúcho, Fred, Juninho Pernambucano, Luís Fabiano e muitos outros, porque se mostrou a viabilidade econômica por meio de uma grande estrutura de marketing alicerçada por empresas patrocinadoras.

2. A Europa passa por maus bocados. Fruto da irresponsabilidade econômica de alguns países como Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha (PIIGS), o continente mostra-se frágil e, mesmo com o mundo da bola sendo algo a parte, não há como fugir do contexto. Não soaria bem, uma transação de milhões de euros a envolver Neymar neste momento.

3. Neymar está entre os melhores do ano conforme listagem divulgada pela Fifa, sendo o único atleta a atuar fora da Europa. Além de uma vitória pessoal e merecida, a Fifa comprovou que a ordem está invertida. Ou seja, ela “descobriu” que há vida inteligente e bola de qualidade do outro lado do Atlântico.

4. Sua baixa idade o credencia para amadurecer jogando no Brasil e tomar o rumo da Europa com 22, 23 anos e fazer história no Velho Continente.

Não me assustará se grandes jogadores que atuam na Europa vejam o Brasil com outros olhos e com um mercado a todo vapor.

Ganha o Brasil, não apenas por manter um grande atleta, mas por criar um efeito em cascata, que tende a preservar outros bons jogadores dentro do território nacional.

Itamar Franco: o melhor presidente pós regime militar

O baiano Itamar Augusto Cautiero Franco, que fez carreira política em Minas Gerais, faleceu hoje em São Paulo quatro dias após completar 81 anos. Internado há pouco mais de um mês, lutou até o fim contra uma leucemia.

Longe de discutir questões político-partidárias e passando os olhos pela política tupiniquim nas últimas três décadas afirmo, sem hesitar, que Itamar Franco foi o melhor presidente do Brasil após o regime militar.

Ele foi o 33º mandatário da República, cargo que ocupou por apenas dois anos, entre 29 de dezembro de 1992 e 1º de janeiro de 1995. Mas foram dois anos fundamentais na consolidação da democracia nacional após a queda do regime militar em 1985.

Com seu inconfundível topete, de fala mansa e demonstrando sempre tranquilidade, além de gostar de boas companhias femininas, Itamar assumiu o País durante um dos maiores escândalos de sua história que culminou com o impeachment de Fernando Collor de Mello.

E, como bom mineiro de criação, foi gerindo quase uma massa falida mergulhada numa crise hiperinflacionária e contando com o descrédito do povo brasileiro que em 1989 tinha ido às urnas escolher o primeiro presidente civil depois de quase 30 anos.

Sua gestão foi curta, mas nela foram estabelecidas as bases para o lançamento do Plano Real, que em 1994 conseguiu debelar a hiperinflação que havia sido submetida a uma série de infrutíferos planos econômicos desde o Cruzado (1986) de José Sarney.

Foi na gestão de Itamar que se realizou o plebiscito constitucional (1993), quando o brasileiro votou que o regime do País deveria ser presidencialista.

Itamar Franco ainda elegeria o seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, com o qual romperia algum tempo depois por divergências sobre as questões econômicas do Brasil.

Além de presidente, foi senador por quatro mandatos por Minas Gerais, governador do mesmo estado e prefeito de Juiz de Fora. Foi defensor da campanha “Diretas, Já!” e votou em Tancredo Neves, na eleição indireta para a presidência da República em 1985.

A gestão de Itamar passou longe dos escândalos de corrupção e ainda, por sorte, foi marcada pela conquista do tetracampeonato mundial de futebol pelo Brasil.

Não se fez justiça a Itamar em vida. Mas os livros de história hão de reconhecer o seu valor.

Salário Mínimo: a discussão de dois bêbados por uma garrafa de pinga

por Sylvio Micelli

A presidente Dilma Rousseff (PT) chega aos 50 dias de governo, cercada pelas discussões que envolvem o salário mínimo nacional. Salvo melhor juízo, é a questão mais relevante desde sua posse e que está diretamente relacionada ao Executivo e, obviamente, ao Legislativo nacionais.

Depois de um verdadeiro “leilão” de propostas com valores de R$ 540, R$ 545, R$ 560 e até R$ 600, a Câmara dos Deputados aprovou, na semana passada, a proposta original do governo de R$ 545, rejeitando-se todas as emendas que visavam majorar o valor. O Senado Federal não mexeu na proposta. Isso significa que o mínimo terá o gigantesco reajuste de R$ 1,17 por dia.

Diferentemente do aumento de mais de 61%, que os parlamentares votaram para si mesmos no final do ano passado gerando uma “revolta” nacional, as discussões sobre o mínimo nacional se arrastam e, para mim, parecem mais a discussão de dois bêbados por uma garrafa de pinga. Toda vez é sempre a mesma coisa. Os governantes de plantão, quaisquer que sejam eles, usam da mesma retórica neoliberal que, pensávamos, estava morta, cremada e dissolvida.

Mas a coisa não é bem assim. A discurseira é sempre a mesma. Que “o aumento de um real, impacta em não sei quantos milhões” e o aumento do mínimo continua, efetivamente, mínimo, esquálido, patético.

Em que pese respeitar, mesmo não concordando com programas assistencialistas do tipo “Bolsa Família” e outros, entendo que a majoração real do salário mínimo faria com que nossa economia expandisse. A mim, é importante que as classes C ou D possam comprar iogurte ou financiar passagens aéreas. Mas, sinceramente, preferiria que a classe D chegasse à classe C, que chegasse à classe B e assim, sucessivamente. A concentração de renda no Brasil continua ultrajante e nada é feito.

Nosso salário mínimo, cerca de US$ 328, continua sendo um dos menores do mundo. Vale ressaltar que ele teve um considerável aumento durante os oito anos do governo Lula, mas ainda assim, está muitíssimo aquém das reais necessidades do trabalhador. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o respeitável Dieese, aponta que o salário mínimo, hoje, deveria ser de R$ 2.194,00 para custear uma família de quatro pessoas com suas necessidades básicas que são moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social. Ou seja, R$ 545 não representa nem 25% disso.

O amigo jornalista Altamiro Borges, editor do Portal Vermelho, foi muito feliz no seu “O início preocupante do governo Dilma“. Miro avalia que o “corte cirúrgico de 50 bilhões no Orçamento da União confirma que os tecnocratas neoliberais estão com a bola toda no início do novo governo. Eles já bombardearam a proposta de aumento real do salário mínimo, aplaudiram a decisão do Banco Central de elevar a taxa de juros e, agora, festejam os cortes nos gastos púbicos. Tudo bem ao gosto das elites rentistas e para delírio da mídia do capital, que agora decidiu bajular a nova presidenta”.

O que devemos lamentar é que, num governo petista, o mesmo grupo que ironizou o aumento do mínimo em 2000, à época em 19,2%, agora acredita que a majoração em percentuais acima de 6,86% é impossível. Tudo isso em nome da tal governabilidade, esse monstro que unifica ideologias e rasga bandeiras de luta.

É, Dilma. Mais neoliberal impossível.

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Sylvio Micelli

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