O debate dos presidenciáveis e as lições de Chaplin
- 2010/setembro/13
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por Sylvio Micelli
Noite de domingo, mais um debate eleitoral, desta vez promovido pela Rede TV! e pelo Grupo Folha com suas diversas mídias. Os quatro principais candidatos à presidência da República tiveram mais uma oportunidade para apresentar suas propostas. E mais uma vez, não aproveitaram o espaço. A audiência se mantém pífia, considerando-se um evento de tamanha importância para o nosso futuro, e isso é fruto direto da alienação de parte do eleitorado e da qualidade dos candidatos.
O horário eleitoral no rádio e na TV, iniciado há pouco mais de um mês, volta a mostrar cenas dignas de vale-tudo.
Um desesperado José Serra (PSDB), sem respaldo de seu próprio partido e perdido no tempo e no espaço agarra-se a factóides elaborados pelo casuísmo eleitoral. Preferiu gastar tempo falando do vazamento de dados de sua filha na Receita Federal e de uma suposta troca de favores praticada pela atual ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra que substituiu, justamente, a candidata petista Dilma Rousseff.
Concordo, plenamente, que atos como esse – vazamento de dados sigilosos e tráfico de influência – são máculas da política nacional e que deveriam, efetivamente, ser punidos exemplarmente. Mas todo esse estardalhaço, com o aparato da grande mídia e em plena campanha eleitoral, apenas faz com que Serra experimente uma queda livre nas pesquisas eleitorais e que Dilma, possivelmente, já se consagre nas urnas em menos de três semanas.
Os outros dois candidatos mantiveram-se da mesma forma que os demais encontros. Marina Silva (PV) profere um discurso único e demonstra total incapacidade de reverter um quadro que, eventualmente, poderia até levá-la ao segundo turno e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) torna-se um fanfarrão e desfruta de alguns minutos de fama a cada nova anedota que conta nos debates.
Tudo muito óbvio. Tudo muito triste.
Num dado momento cansei-me. Procurei por algo inteligente na TV, como alguém sedento busca um oásis no deserto. Achei num canal a cabo o filme “Tempos Modernos” (1936), um clássico com C maiúsculo de Charles Chaplin. Filme dos tempos do cinema-mudo, Chaplin não precisava dizer nada para contar a história americana do período da Grande Depressão, após a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Com as célebres imagens da máquina “engolindo” o homem ou de sua crise nervosa ao operar máquinas, a película é ainda um tapa com luva de pelica e parece tão atual se traçarmos um paralelo com a Crise Econômica (2008/2009) e a eterna discussão por redução de jornada de trabalho que se trava aqui ou alhures.
Não tive como não lembrar do célebre ensinamento de Platão: “O sábio fala porque tem alguma coisa a dizer; o tolo porque tem que dizer alguma coisa”.
É assim que vejo os debates políticos hoje. Adoraria que os candidatos vissem este e outros filmes de Chaplin. Muito do que se tem para fazer, não precisa ser inventado. Está na história. Basta ser feito.
por Sylvio Micelli
por Sylvio Micelli