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O debate dos presidenciáveis e as lições de Chaplin


por Sylvio Micelli

Noite de domingo, mais um debate eleitoral, desta vez promovido pela Rede TV! e pelo Grupo Folha com suas diversas mídias. Os quatro principais candidatos à presidência da República tiveram mais uma oportunidade para apresentar suas propostas. E mais uma vez, não aproveitaram o espaço. A audiência se mantém pífia, considerando-se um evento de tamanha importância para o nosso futuro, e isso é fruto direto da alienação de parte do eleitorado e da qualidade dos candidatos.

O horário eleitoral no rádio e na TV, iniciado há pouco mais de um mês, volta a mostrar cenas dignas de vale-tudo.

Um desesperado José Serra (PSDB), sem respaldo de seu próprio partido e perdido no tempo e no espaço agarra-se a factóides elaborados pelo casuísmo eleitoral. Preferiu gastar tempo falando do vazamento de dados de sua filha na Receita Federal e de uma suposta troca de favores praticada pela atual ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra que substituiu, justamente, a candidata petista Dilma Rousseff.

Concordo, plenamente, que atos como esse – vazamento de dados sigilosos e tráfico de influência – são máculas da política nacional e que deveriam, efetivamente, ser punidos exemplarmente. Mas todo esse estardalhaço, com o aparato da grande mídia e em plena campanha eleitoral, apenas faz com que Serra experimente uma queda livre nas pesquisas eleitorais e que Dilma, possivelmente, já se consagre nas urnas em menos de três semanas.

Os outros dois candidatos mantiveram-se da mesma forma que os demais encontros. Marina Silva (PV) profere um discurso único e demonstra total incapacidade de reverter um quadro que, eventualmente, poderia até levá-la ao segundo turno e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) torna-se um fanfarrão e desfruta de alguns minutos de fama a cada nova anedota que conta nos debates.

Tudo muito óbvio. Tudo muito triste.

Num dado momento cansei-me. Procurei por algo inteligente na TV, como alguém sedento busca um oásis no deserto. Achei num canal a cabo o filme “Tempos Modernos” (1936), um clássico com C maiúsculo de Charles Chaplin. Filme dos tempos do cinema-mudo, Chaplin não precisava dizer nada para contar a história americana do período da Grande Depressão, após a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Com as célebres imagens da máquina “engolindo” o homem ou de sua crise nervosa ao operar máquinas, a película é ainda um tapa com luva de pelica e parece tão atual se traçarmos um paralelo com a Crise Econômica (2008/2009) e a eterna discussão por redução de jornada de trabalho que se trava aqui ou alhures.

Não tive como não lembrar do célebre ensinamento de Platão: “O sábio fala porque tem alguma coisa a dizer; o tolo porque tem que dizer alguma coisa”.

É assim que vejo os debates políticos hoje. Adoraria que os candidatos vissem este e outros filmes de Chaplin. Muito do que se tem para fazer, não precisa ser inventado. Está na história. Basta ser feito.

Bradesco, Globo e você: tudo a ver…

Banco Brasileiro dos Descontos (Bradesco) em propaganda de 1949por Sylvio Micelli

R$ 120 milhões por ano. Este é o valor que o Bradesco já está pagando, desde o início do mês, para patrocinar o Jornal Nacional da Rede Globo, o mais visto da televisão brasileira. A informação vem da própria instituição e de sites especializados em marketing, mas não é confirmada pela emissora. Na verdade isso pouco interessa. Quem é da área sabe que o Jornal Nacional não tem seu valor tabelado pela Globo e sempre é fruto de negociações.

Mas toda essa lenga-lenga econômico-publicitária é o que menos importa. Simplesmente, o banco de maior “presença” como diz sua campanha publicitária patrocina o jornal de maior “ibope”. E isso serve para que entendamos o mecanismo das grandes corporações e sua dominação, aqui ou alhures.

Pegue a maior instituição financeira do Brasil. Aquela que está presente em todos os municípios brasileiros (sic) levando “mobilidade bancária” com a locução inigualável de Ferreira Martins. Junte-se a isso, o jornal televisivo mais visto do país e pronto! A Rede Globo e o Bradesco vão ampliar, ainda mais, o nível de penetração em terras tupiniquins.

Importa se este banco (e os outros) cobra taxas por tudo e mais um pouco? Não! Importa se este banco (e os outros) cobra juros Logomarcas do Jornal Nacional ao longo de quatro décadasescorchantes de mim e de você e que a Taxa Selic é apenas uma referência abstrata dos juros que se cobra no Brasil? Não!

Importa se o Jornal Nacional traz um casal simpático divulgando notícias tendenciosas e de conteúdo duvidoso? Não! Importa se as classes A-B-C…Z são manipuladas por este jornal que apenas informa, mas não forma opiniões e é colocado entre novelas a fim de valorizar a “família brasileira? Não! É claro que não!

O que realmente importa é aquilo que o ator e âncora James Carville criou para a campanha de Bill Clinton, à presidência dos EUA, em 1992: “É a economia, estúpido“. E o Capitalismo selvagem aplicado em sua mais “deliciosa” essência.

A arte brasileira de fechar a porteira depois que o cavalo fugiu

Igreja centenária destruída em São Luiz do Paraitinga (SP) - Foto: Agência Estado (AE)por Sylvio Micelli

O ano de 2010 não poderia ter começado pior para o Brasil. As tragédias, em decorrência das chuvas, causaram mortes em Angra dos Reis, Ilha Grande, Guararema, Bragança Paulista, São Paulo, Rio Grande do Sul e por aí fora. A turística São Luiz do Paraitinga, cravada no meio do Vale do Paraíba no interior paulista, teve grande parte do seu patrimônio histórico indo, literalmente, por água abaixo. Além dos mortos, prejuízo incalculável para as famílias, são de enorme monta os prejuízos financeiros de tudo o que aconteceu. Só para citar o caso de Paraitinga, a cidade terá de ser praticamente reconstruída. E quem paga isso sou eu e você, por meio dos inúmeros impostos.

Quando acontecem essas catástrofes, normalmente creditada a causas naturais ou a São Pedro, o poder público logo aparece com seu “beneplácito” para reconstruir, reformar, confortar, enfim, colocar, na medida do possível, a casa em ordem. Só nesta semana, o governo federal liberou não sei quantos milhões para Angra dos Reis e região. O governador paulista José Serra reuniou-se com secretários para discutir o atendimento às vítimas das enchentes e liberou outros tantos milhões para as cidades em estado de calamidade pública. O prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, para não ficar para trás, anunciou “vistosa” medida liberando moradores de um bairro da capital, submerso há mais de um mês, do pagamento da conta de água.

Modéstia a parte, não sou um neófito em política e, mesmo não concordando, até entendo seus mecanismos. Mas questiono o porquê de tais medidas não terem sido tomadas previamente. O poder público vive choramingando que não há verbas. E quando vêm a tragédia, o dinheiro aparece. Eu sei que os técnicos dos governos, quaisquer que sejam eles, vão dizer que o Estado tem verbas de “contenção” justamente para esta finalidade, ou seja, recursos extra-orçamentários para catástrofes do gênero. Mas aí eu volto a perguntar: não é preferível resolver antes do que chorar os mortos depois? Basta querer. Os milhões que são liberados para reconstruir seriam muito mais úteis para construir. E com certeza muito mais em conta para o bolso de todos nós.

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