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Futebol: a diferença entre Argentina e Brasil está no torcedor

por Sylvio Micelli

Sei que o que vou escrever não será do agrado de muitos. Há um bairrismo tolo envolvendo o futebol brasileiro e o argentino. Quem começou com isso e quando vai terminar são incógnitas que minha limitada inteligência não ousa responder.

Mas uma coisa eu descobri definitivamente: a diferença está no torcedor.

O futebol é bem jogado aqui e lá. O Brasil tem mais técnica. A Argentina, mais raça. Há gênios de lado a lado. Maradona virou até igreja. Pelé, na minha opinião, não tem seu valor reconhecido à altura de sua grandeza. E aí, começam as diferenças.

Eu já possuía essa noção porque em 2006 tive a oportunidade de visitar a capital portenha. Buenos Aires não é só bela pelos seus prédios históricos, por sua carne maravilhosa ou pelo tango que eu tanto amo. Lá respira-se um nacionalismo ímpar e a Argentina, para eles, está acima de todas as coisas. Talvez, por isso, muitos julgam o povo argentino como arrogante ou prepotente. Nem uma coisa, nem outra. Eles são apenas argentinos. Até o final dos tempos, até as últimas consequências…

Andar pela Plaza de Mayo, centro de Buenos Aires e cenário de tantas e tantas manifestações contra a ditadura, é respirar o puro oxigênio “de la democracia y de la nación Argentina”.

E nós? Somos brasileiros?

Cada vez mais tenho a ideia de que nós brasileiros, vivemos um nacionalismo de fachada. Numa época como esta, de Copa do Mundo, as ruas estão pintadas de verde e amarelo, bandeiras são desfraldadas, rostos são pintados, buzinas soadas… Somos, enfim, 193 milhões em ação, prá frente Brasil do meu coração, numa livre adaptação da música de Miguel Gustavo que embalou a Copa de 1970 no México.

Tudo isso até o apito final do senhor Yuichi Nishimura, árbitro japonês da partida contra a Holanda que selou nossa derrota na Copa da África do Sul.

Findo o jogo partimos para a caça às bruxas, culpamos a tudo e a todos. Xingamos até a última geração do técnico, médico, jogadores porque talvez ainda não tenhamos a maturidade do povo argentino. E aqui engrosso com o chileno, o uruguaio e, pasmem, até com paraguaios e  bolivianos. Em termos de nacionalismo, todos eles tem muitos ensinamentos para nós.

Tudo no Brasil é motivo para descontentamento. Queremos a vitória acima de todas as coisas e será que fazemos por merecê-la? Quem será arrogante e prepotente ao criticar o gol irregular do outro e enaltecer o seu tento irregular como uma questão de “merecimento”? Cheguei até a ouvir narrador de futebol dizendo que em 2014, o Brasil iria comemorar o hepta…

Você perguntaria a mim: “ora, mas eles não têm defeitos?” “Sim”, eu responderia. Sem dúvida. Mas estes povos não tentam disfarçar com o nosso jeitinho tão bem conhecido.

Voltando ao assunto futebol, enquanto o Brasil foi recebido, em grande parte com vaias, jogadores escoltados e confusão, bode expiatório para a eliminação e coisas afins, na Argentina, Maradona e seus jogadores foram recebidos com festa. Enquanto Dunga já foi empurrado com sua comissão técnica ao cadafalso, Maradona recebe apelos para permanecer. E isso tudo porque eles foram estraçalhados pela Alemanha num “magro” 4 a 0.

Então, povo brasileiro, aprendamos com os hermanos. Sejamos nacionalistas de verdade. Carreguemos o verde e o amarelo em nossos corações, efetivamente. Cantemos o hino nacional com a mão no peito e sejamos sinceros e plenamente brasileiros não apenas quando a Pátria estiver de chuteiras, como já nos ensinou o sempre mestre, que não canso de repetir, Nelson Rodrigues.

P.S.: O treinador Dunga foi recebido em Porto Alegre com carinho. E eu pergunto: será por que o Rio Grande tem muito do nacionalismo já aqui relatado? Que cada um tire suas próprias conclusões.

El Uruguay y la otra “mano de Dios”

por Sylvio Micelli

Muitos amigos não entendem o apreço que tenho pelo futebol sulamericano. Sobretudo o argentino e o uruguaio. Sei que são concorrentes diretos do Brasil, mas a raça de ambos torna o esporte ainda mais especial.

Exemplo claro disso foi a segunda partida das quartas de final da Copa da África do Sul entre Uruguai e Gana, que aconteceu nesta sexta (02), logo depois de lambermos as feridas pela desclassificação do Brasil diante da Holanda.

A equipe africana dominou boa parte do jogo, contou com o imenso apoio da torcida, mas ao final, a magia da velha Celeste Olímpica voltou a brilhar.

Tudo seria mais um jogo complicado com empate no tempo normal e na prorrogação e a decisão nos pênaltis, quando no último minuto do segundo tempo da prorrogação, o atacante Luis Suárez, que nada fez no jogo inteiro (exceto perder um gol incrível), agiu do modo que somente um latino poderia fazer.

Numa cobrança de falta e no bate e rebate da bola, Adiyiah tocou para o gol que fatalmente colocaria Gana na semifinal da Copa, algo inédito para uma equipe do continente africano. A única alternativa de Suárez foi defender a bola com as mãos. Foi corretamente expulso e o pênalti marcado para os africanos. Um dos principais jogadores ganenses – Asamoah Gyan – bateu e a bola no travessão foi para fora.

Entrou em campo o imponderável e de um ato antidesportivo, ainda que dentro das regras do futebol – um jogador da linha defender a bola com as mãos – cria-se um herói. Logo após o pênalti perdido, o jogo foi encerrado. Suárez, a caminho dos vestiários, troca o choro compulsivo pela comemoração de um gol que ele não permitiu com “la otra mano de Dios”.

Robustecido pela inimaginável decisão de pênaltis, Uruguai venceu Gana, com direito a mais um gol maravilhosamente nervoso de El Loco Abreu com o seu habitual e irritante sangue frio nas cobranças de penalidade. E como disse Asamoah Gyan para o jornal português “A Bola” sobre o ato de Suárez, “agora é ele o herói do seu país…”.

Coisas que só o futebol tem.

E desde já torço por uma final entre Uruguai e Argentina. Seria fantástico ver a “reprise” da primeira final de uma Copa do Mundo, 80 anos depois.

Abram o olho. 40 anos depois, a Celeste Olímpica está de volta.

Desculpem os “entendidos” de futebol! Mas o Dunga é o menos culpado…

por Sylvio Micelli

Que me perdoem os que sabem tudo de futebol, em especial de boa parte da chamada crônica esportiva. Agora, após a eliminação do Brasil pela mediana equipe da Holanda, terá continuidade o linchamento público de Dunga, como se o técnico fosse o maior responsável pelo fato de a seleção ter caído nas quartas de final da Copa da África do Sul.

Tenho por hábito escrever que a derrota, assim como a morte, são órfãs e sempre sujeitas à incessante busca de explicações para coisas que nem sempre há como explicar.

Dunga tem sua parcela, mas certamente ele não é o único e nem mesmo o principal culpado. Analisando-se a estrutura da seleção brasileira, o principal culpado chama-se Ricardo Teixeira, há anos no comando da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A mídia esportiva até reclama da eternização de Teixeira no cargo mas pouco faz para que isso efetivamente mude.

Tenho algumas ponderações sobre a campanha do Brasil na África do Sul com o intuito de debater o futebol que é o assunto mais importante, dentro os menos importantes como já sentenciou Arrigo Sacchi, técnico vice-campeão italiano em 1994.

Hoje contra a Holanda, o Brasil fez no primeiro tempo seu melhor jogo na Copa. Felipe Melo, que virou vilão no segundo tempo, ao marcar um gol contra e ser expulso corretamente, foi comparado a Gerson no primeiro tempo pelo passe no gol do Robinho. Por isso que a vida é estranha e o futebol, mágico. De vilão a herói em apenas 45 minutos. E o Brasil poderia ter encerrado o primeiro tempo vencendo por no mínimo 2 a 0.

O primeiro gol da Holanda, contra de Felipe Melo, foi uma falha coletiva de marcação. Uma falta desnecessária de Michel Bastos, um chute despretencioso de excelente Sneijder, Júlio César titubeou ao sair do gol e pronto. Como diria Nelson Rodrigues, o Sobrenatural de Almeida entrou em campo. O Brasil pirou, tomou o segundo gol do mesmo baixinho Sneijder. Felipe Melo perdeu a cabeça e foi expulso. E a maionese azedou.

Considerada por muitos como “a melhor defesa do mundo”, o Brasil falhou. Tomou um gol que veio num chutão e depois outro gol numa cabeçada onde Sneijder, o mais baixo jogador em campo, subiu sem nenhuma marcação.

Mas do ponto de vista prático, o resultado foi injusto. O Brasil jogou muito mais que a Holanda no primeiro tempo. Não soube converter em gols as oportunidades que teve. Ou seja, um resultado absolutamente normal que em nada justifica a procura de vilões ou o crédito de culpas a esse ou aquele jogador ou técnico.

O Brasil fez um jogo sofrível contra a Coreia do Norte, uma boa partida frente à Costa do Marfim, uma disputa irritante contra Portugal e passeou contra o velho e bom Chile, nosso velho conhecido sulamericano.

Depois dos 2 a 1 da Holanda, a seleção brasileira tremeu e não conseguiu reverter o resultado. Faltou ao Brasil um jogador ao melhor estilo Dunga, para chamar a equipe à razão. O técnico Dunga não entra em campo. Mesmo com os jogadores que foram convocados dava para ganhar a Copa, até porque esta é sofrível.

Criticar o técnico é fácil. Mas seria bom pensar como foi a performance de Kaká e Luís Fabiano, por exemplo. Eles seriam os atacantes do País ao lado de Robinho. Este último fez bem a sua parte. Os outros dois deveram e muito. Maicon e Lúcio foram importantes e Elano, tão criticado pela Imprensa, fez falta nesta fase final. Para mim, o melhor jogador do Brasil nesta Copa foi Juan. Até falhou no gol contra do Felipe Melo, mas foi (quase) de uma perfeição ímpar na equipe.

É a terceira vez que o Brasil perde de virada. A primeira, trágica, na final de 1950 contra o Uruguai; a segunda, em 1998 contra a Noruega na fase de classificação, que não trouxe problemas e agora frente a Holanda que determinou nossa eliminação.

O comportamento da mídia

Na condição de jornalista tento sempre observar os movimentos dos colegas de Imprensa. Há um sério problema com a mídia esportiva brasileira. Ela, com raras exceções, está “sempre certa” e o técnico está “sempre errado”. Agindo muito mais como torcedores que profissionais atuam de forma emocional em detrimento da racionalidade proporcional que se esperaria, mesmo em se tratando de seleção brasileira.

Isso não é prerrogativa do Dunga. Por sinal, o ex-jogador chegou a comentar duas Copas do Mundo. A perseguição da mídia com os técnicos deve ter começado na copa de 1930 com o técnico Píndaro de Carvalho. De lá para cá, ninguém escapou. Nem mesmo Telê Santana, técnico das copas 1982 e 1986 e que contava até com um certo beneplácito da mídia. Até mesmo os técnicos campeões como Carlos Alberto Parreira (1994) e Luiz Felipe Scolari (2002) tiveram de suportar críticas em relação à convocação ou não deste ou daquele jogador, além dos esquemas de jogo.

Nesta Copa tivemos ainda um tempero extra. Uma briga pessoal de Dunga com a Rede Globo, maior emissora do País. Precisa ser macho para peitar a emissora que se julga acima do bem e do mal. O pior de tudo não é a Globo se achar o máximo. Boa parte da mídia, num corporativismo um tanto piegas, creditou o tratamento isonômico que Dunga quis dar à Imprensa como cerceamento ao trabalho dos repórteres, comentaristas etc. Cheguei a ler, ver e ouvir ironias do tipo: “se era para esconder o time para isso era melhor ter aberto tudo…”.

Não seria exagero acreditar que nossos cronistas e repórteres chegaram até a “comemorar” a desclassificação do Brasil, pelo simples prazer de falar “tá vendo, eu avisei…” Sei que isso deve ter acontecido a uma minoria e é lamentável, mas faz parte da natureza humana.

Fica tudo então para 2014. A Copa do Brasil que deve ser vencida. Seria muita burrice fazer outra Copa para entregar a quem quer que seja. Então, anote na agenda. Se você é daqueles patriotas de Copa do Mundo que já recolheu as bandeiras e o pseudo-nacionalismo, a seleção brasileira, obviamente já classificada para a sua Copa, deve estrear em 14 de junho de 2014 em local incerto e não sabido. Acho pouco provável que seja em São Paulo.

Ao Dunga, os meus respeitos. Coerente do começo ao fim.

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Sylvio Micelli

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