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A Folha de São Paulo chegou ao fundo do poço

por Sylvio Micelli

Tempos atrás recebi em casa uma proposta para voltar a ser assinante do jornal “Falha”, ops… Folha de São Paulo (eles não admitem brincadeiras… eles não estão de brincadeira…)… Como sou lixeiro por natureza, guardei a listinha de 20 itens para um dia usar. O dia chegou.

Fui assinante do periódico durante anos, mais por dever de ofício que, propriamente, por gosto. Um dia desisti de tantas meias e falsas verdades e deixei de assinar qualquer coisa. Acompanho tudo pela Internet e, sinceramente, não sinto falta. Quando devo ter acesso a algum conteúdo “exclusivo” é fácil achar. Não existe tanta exclusividade na World Wide Web e isso, como sabemos, amedronta muita gente.

Após o episódio que culminou com a demissão dos colegas jornalistas, Alec Duarte, então editor-assistente de política da Folha, e a repórter do Agora SP, Carolina Rocha, simplesmente por escancararem uma prática comum no jornalismo via Twitter, a jóia mais “importante” da família Frias não poderia ter chafurdado mais na lama da falsidade e da falta de ética. Tudo fica ainda mais patético porque a decisão contou com o beneplácito de sua ouvidora (ombudsman) Suzana Singer que teria, ao menos em tese, a função de representar os anseios do leitor perante o jornal.

Questiono, por exemplo, o porquê de o editor e do redator que “mataram” Romeu Tuma antes da hora e beneficiaram diretamente a candidatura de Aloysio Nunes Ferreira não terem ido para o olho da rua. Terá sido mesmo um engano? Ou a coisa foi plantada para beneficiar o senador tucano? Mistério? Nem tanto…

Quer dizer então, que uma “barriga” desse tamanho – matar uma pessoa antes da hora – pode e brincar que o material sobre a morte de José Alencar já está pronto não pode? A morte de Alencar era, digamos, algo incerto, mas já sabido. Era só aguardar o momento e seria amador o veículo de comunicação que não tivesse se preparado para o fato. Outras biografias já estão prontas, independente do estado de saúde dos famosos, só aguardando o desfecho, pois como diriam os poetas, a morte é inexorável.

A Folha de São Paulo deve imaginar que seus leitores são imbecis e que eles não sabem quando estão sendo enganados. Eles sabem. É que a maioria desses mesmos leitores, não está nem aí para nada e acha que ler a Folha ou sua “prima”, a revista Veja, lhes dá um status plenamente aceito pela nossa sociedade.

Vamos então à listinha preparada pela Folha de São Paulo para convencer a mim, de que devo voltar a ser um assinante. Após cada item, seguem meus comentários:

1. O mais completo jornal do país

Completo sob qua ótica? O jornal tem uma cobertura razoável no estado de São Paulo e superficial no restante do País, como em Brasília ou Rio de Janeiro. O norte e nordeste do Brasil não existem para a Folha, exceto quando acontece alguma catástrofe;

2. Os melhores colunistas do Brasil

Há gente boa que escreve na Folha, reconheço. Mas a maioria – os “calunistas” da Folha – se acha o dono da verdade, naquela linha “se o mundo não se encaixa na minha teoria, então há algum problema com o mundo”;

3. Uma visão mais ampla dos acontecimentos do mundo

Impossível. Não há nem uma visão ampla dos acontecimentos do Brasil… o que dirá do resto? Quando muito, a Folha vai na linha da visão ocidental dos fatos ou de preferência reproduz textos de agências e colunistas internacionais;

4. Você pode alterar o endereço de entrega por um período, como no caso de férias

Oooohhhhh! O que seria das minhas férias ou do meu final de semana sem a companhia da Folha…;

5. Pluralidade de opiniões

Bobagem. Não é porque vez em quando vem um tema “relevante” com uma opinião SIM e outra, NÃO, que o jornal é plural. Pluralidade deveria ser vista e usada na apuração dos fatos. Sabe aquela primeira lição do bom e ético jornalismo – ouvir os dois lados – e formar opinião? Esqueça. A Folha já definiu seus mocinhos e bandidos. Eu, por exemplo, como escrevo sobre o funcionalismo público, serei sempre um bandido tentando provar que não cometi nenhum crime;

6. Uma grande variedade de cadernos

Verdade. Cópia do “primo mais velho”, o jornal O Estado de São Paulo que a Folha sempre “não quis” copiar. Ah… se a Folha soubesse que a maioria lê o caderno de Esportes e o de entretenimento…;

7. Análise dos acontecimentos com profundidade

Nada. Cobertura rasa e parcial de tudo. Preferencialmente com a visão “oficialista” para que se dê respaldo e “credibilidade” ao jornal;

8. Transparência nos artigos

Sim. Transparência nos artigos que interessam. Certa vez um amigo me disse: ‘quando leio o Estadão, sei qual é o lado deles. Quando leio a Folha sei que eles querem me enganar dizendo que não tem um lado…”;

9. Visual moderno, limpo e de fácil entendimento

Fato. O rótulo tem que ser bonito para vender. Não importa o conteúdo;

10. A conveniência de receber seu jornal em casa

… e a ideia de tirar você da banca. Vai que você descobre que existe vida inteligente além dos limites da Alameda Barão de Limeira… Acredite! Há sim vida inteligente no jornalismo brasileiro;

11. Independência

… ou morte. Não há o que comentar. Vender independência no jornalismo é como vender terreno na Lua. Todos defendem uma posição. Só não vale ser hipócrita. Quando faço um texto enaltecendo aspectos da luta do funcionalismo, claro que estou a defender um lado, até porque já temos muita mídia (oficial e extra-oficial) contra. Tento, sem muito sucesso, equilibrar um jogo naturalmente desigual;

12. Liberdade na apuração dos fatos

Nada. Já participei de episódios em que o jornalista até ouviu os dois lados, como manda o figurino. Na hora do texto, depois de editado etc e tal, a lauda trazia a versão oficial na íntegra e do nosso lado, uma citação, quando trazia. No começo cheguei a questionar os coleguinhas que me explicavam ser culpa do editor e o nível de hierarquia ía subindo. Depois desisti;

13. Referência para você debater assuntos da atualidade

… que é aquele lance que eu falei do status. Tem gente que acha que barzinho bom é só aquele que sai no Guia da Folha. Tem outros que acham que os donos da página 2 do jornal são verdadeiros gurus a proferir a mais arrebatadora verdade. Conheci gente que lia a página 2 da Folha e achava que sabia de toda a verdade universal…;

14. Informação de qualidade

… de acordo com os interesses. Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei;

15. Acesso ao conteúdo oferecido pela Folha Digital

Na mais pretensa linha “Pink & Cérebro” e nós vamos dominar o mundo;

16. Descontos exclusivos em coleções lançadas pela Folha

Verdade! O conteúdo pouco interessa. Vamos ao jornalismo “fast food“. Compremos o jornal e levemos inteiramente “de grátis”, dicionários, CDs, DVDs e outros brindes. Mais ou menos como aquela grande cadeia de sanduíches, que nem paga um salário mínimo aos seus escrav… ops… funcionários! Peça o seu lanche e leve os brinquedinhos. A qualidade da comida pouco importa.

17. Visão crítica do Brasil e do mundo

… sempre sob a ótica da Alameda Barão de Limeira. Mais uma informação que beira à soberba. A Folha só se lembra do Jardim Pantanal, aqui em São Paulo, quando inunda e de Parelheiros para fazer alguma matéria “cultural” ou de “ambiente”, que mais beira a calhau por falta de assunto;

18. Análise dos acontecimentos sob os mais diversos ângulos

Quanto mais obtuso esse ângulo, melhor. Lembremos que o obtusângulo é um ângulo que tem mais de 90º e menos de 180º, ou seja, algo naturalmente limitado e que não enxerga os 360º dos fatos;

19. Uma linguagem atual, clara e objetiva

Sempre com o intuito de convencer você de que eles são os arautos da democracia, mas de uma forma moderninha, quase um bate-papo;

20. Opção de entrega em um endereço nos dias de semana e em outro nos fins de semana

Volte ao item 4…

Por tudo isso e mais o conjunto da obra não pretendo voltar a ser assinante da Folha ou de qualquer outro veículo. Muito do que relatei acima pode ser aplicado a 95% do jornalismo brasileiro.

A questão da Folha de São Paulo é a seguinte: nos anos 80 ela foi importante ao equilibrar a relação de força com o Estadão. Este representava a opinião da classe dominante. Aquela flertava com as massas e adotava uma postura liberal e moderna. À medida que a Folha foi crescendo transformou-se num braço comprido do poder de plantão, definido por muitos como o quarto poder. O Estadão continua a ser o mesmo. Pegar um exemplar hoje ou de 30 anos atrás, noves fora nada, dá quase na mesma. A Folha perdeu o sentido e perdeu o rumo. Virou uma caricatura de si mesma, despencou sua tiragem de mais 1 milhão de exemplares nos anos 90 (nos tempos de Matinas Suzuki e o “Folhão de Domingo“, cópia deliberada do Estadão) para menos de 300 mil hoje, foi ultrapassada ano passado pelo Super Notícia de Minas Gerais, como líder nacional em circulação e agora demite jornalistas apenas pelo óbvio ululante.

A Folha não poderia ter ido tão fundo no poço de seu próprio lamaçal.

Agora entendo quando alguns amigos, jovens há mais tempo, diziam-me que não há nada pior “que comunista arrependido”.

Por isso que digo: FOLHA… NÃO DÁ PARA LER.

Chapéu de Ralf em Neymar ou o dia em que “a banana comeu o macaco”


por Sylvio Micelli

Texto originalmente escrito para o Blog Canelada

Há uma velha máxima no jornalismo que nos ensina o seguinte: quando o cachorro morde o homem, não é notícia. Mas se o homem morder o cachorro, aí sim, é notícia.

No último domingo, na vitória do Corinthians sobre o Santos (3 a 1), um lance pitoresco deu mais uma apimentada no clássico.

Neymar, pela sua intimidade com a bola, dar chapéu, é algo até previsível. Mas o Ralf dar chapéu em Neymar, como o próprio jogador disse após a partida, “é uma vez por ano”.

Para muitos foi a “vingança” do Corinthians. Ano passado, também pelo Campeonato Paulista, Neymar deu um chapéu em Chicão, mas com a bola parada.

Após o lance inusitado li uma ótima no Twitter que reproduzi no título do post: “foi o dia em que a banana comeu o macaco”.

Perdão, santistas e sem ressentimentos.

Para quem ainda não viu…

Jornalista Sylvio Micelli é entrevistado pelo Jornal dos Concursos

A vida em parágrafos: “A todo vapor”

Por Talita Fusco do Jornal dos Concursos & Empregos

“Às vezes, trabalho de segunda a segunda. Vivo na internet por horas”, afirma Sylvio José Miceli Júnior, 39 anos, funcionário público e jornalista. E que ninguém duvide do que ele diz, pois basta listar suas atribuições para se constatar que ele realmente não está exagerando. Escrevente concursado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ/SP), Sylvio Micelli – seu nome de guerra –está afastado do órgão para desempenhar a função de 1º secretário na diretoria da Associação dos Servidores do Tribunal de Justiça (Assetj). Ali, ele responde pela área de comunicação da entidade, que inclui, entre outras coisas, a publicação do jornal da Assetj. Mas, as coisas não param por aí. Simultaneamente, Micelli preside a Comissão Consultiva Mista do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe); é o diretor de imprensa da Federação das Entidades de Servidores Públicos do Estado de São Paulo (FESPESP) e da Federação Nacional dos Servidores do Poder Judiciário dos Estados e Distrito Federal (FENASJ); atua como responsável pela área de comunicação da Associação Nacional dos Servidores do Poder Judiciário (ANSJ) e ainda é membro da Assessoria Político-Parlamentar da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo (AFPESP). Depois de dez segundos concedidos ao leitor para que recupere o fôlego, há que se completar seu extenso currículo, citando a recém-conquistada coordenação na Comissão Permanente e Aberta dos Jornalistas em Assessoria de Comunicação (CPAJAC), do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP). “Também sou fanático pelas redes sociais e estou no orkut, facebook, twitter e mantenho um blog na internet, em que, além de funcionalismo público e jornalismo, escrevo sobre um pouco de tudo, de política ao Corinthians”, complementa Micelli.

Esta rotina frenética e engajada talvez pudesse ser prevista há algum tempo, na adolescência. Aos 16 anos, Micelli se envolveu nas movimentações estudantis no colégio e, no primeiro ano da faculdade de jornalismo, participava das reuniões do diretório acadêmico. Já o talento para a comunicação despontou ainda mais cedo, quando ele era criança. “Sonhava em ser jornalista aos cinco anos. Pegava pedaços de papel que minha mãe costurava e lá escrevia ‘notícias’ que ouvia no rádio e via na TV. Sempre fui um apaixonado por informação”.

A decisão em ingressar no funcionalismo surgiu da necessidade de trabalhar. Em 1991, resolveu prestar dois concursos, da Prefeitura de São Bernardo do Campo e do TJ, conseguiu a aprovação em ambos e optou pelo tribunal pela facilidade de acesso. Assim que assumiu o cargo, associou-se à Assetj por acreditar na importância de trabalhar pela categoria profissional na qual acabava de ingressar. A conclusão do curso de jornalismo ocorreu somente em 1996, quando Micelli já trabalhava como escrevente. Com o claro objetivo de atuar na área em que havia se graduado, Micelli tentou ser transferido para a assessoria de comunicação do TJ, mas não conseguiu, pois os cargos do setor eram comissionados. Foi em 1998 que uma oportunidade apareceu à sua frente. “Li um anúncio no jornal da Assetj que pedia a colaboração de quem quisesse escrever. Fui até lá, participei de algumas reuniões e, um ano depois, fui eleito para a diretoria executiva. De lá para cá, já são quatro reeleições. Desde o início, assumi a responsabilidade pelo mesmo jornal que me levou para lá. Coisas da vida”, reflete.

Durante toda a trajetória, o servidor não abandonou o lado concurseiro, participou de algumas seleções, passou em algumas, em outras foi reprovado. A última experiência foi o processo seletivo do Ministério Público da União (MPU) e ele garante que, se surgir algo que valha a pena sair do TJ, assume o novo cargo sem problemas. O futuro imaginado por ele não reserva espaço apenas para os concursos e editais, Micelli ainda planeja ter tempo para cuidar mais da esposa e dos dois filhos, escrever um livro, trabalhar em rádio e dar aulas na área de comunicação ou política. “O mais importante é permanecer sendo útil, quer seja no funcionalismo quer seja no jornalismo”. Por enquanto, o que já está certo é a permanência dele na Assetj, para continuar a luta em prol dos servidores judiciários.

O material foi publicado na edição impressa 1558 de 09 a 15 de outubro de 2010 do Jornal dos Concursos & Empregos e no site do JC&E.

Nota do Micelli: os elogios e as hipérboles são frutos do coleguismo da jornalista Talita Fusco. Sei que não mereço nem metade das palavras escritas na entrevista. E sem falsas modéstias!

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