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O Brasil na Copa, o “estilo Dunga” e a mesmice da Imprensa

por Sylvio Micelli

Depois de dois jogos do Brasil na Copa do Mundo já é possível uma análise mais detalhada sobre a relação conturbada do técnico Dunga com a Imprensa. Como muitos já sabem, não faço parte do coro contra o técnico pelo qual tenho profundo respeito.

Já escrevi antes e reitero aqui, que acredito que o Brasil não será campeão, apenas por fatores extra-campo, principalmente pela realização da Copa de 2014 aqui. Muitos vão dizer que vejo fantasmas onde não existem, mas sempre tive a impressão de que Copa do Mundo é, sobretudo, uma disputa que envolve elementos políticos muito bem cristalizados. Basta analisar os campeões ao longo desses 80 anos e a interferência e/ou uso político da competição.

Dentro do contexto da atual disputa, a Copa do Mundo, até aqui, tem sido fraca. Os resultados são assustadores com tropeços de Alemanha, Inglaterra, Espanha, Itália todas consideradas como “sérias candidatas ao título” no discurso uníssono dos repórteres e comentaristas esportivos. A Holanda, outra sempre bem cotada, venceu mas não convenceu. E a Argentina, como até eles sabem, tem uma defesa sofrível e um ataque maravilhoso.

Contra a Coreia do Norte, a seleção brasileira foi fraca na primeira etapa. No segundo tempo jogou para o gasto e conseguiu ainda tomar um gol. O resultado de 2 a 1 fez sucesso na mídia do fiasco que estampou caras e bocas de Dunga no dia seguinte. Os gols de Maicon e Elano, em ótimas jogadas, pouco dominaram o noticiário que prefiriu explorar ao máximo o “estilo Dunga”, sempre de forma depreciativa. O Brasil foi fraco? Sim, sem dúvida. Mas poucos analistas observaram a forte marcação da equipe norte-coreana que se fechou para perder de pouco.

Foram acontecendo os jogos das “favoritas”. Com estas derrotadas ou amargando empates começaram a dar o devido valor para a seleção brasileira.

Agora há pouco, o Brasil deu um baile na Costa do Marfim considerada, ao lado de Gana, como as mais fortes seleções do continente africano. O Brasil começou titubeante e aos poucos dominou o jogo. Fez 3 a 0 e poderia ter feito mais. Em jogadas de Kaká, que ainda precisa melhorar muito, Luís Fabiano por duas vezes e Elano marcaram. O centroavante, por sinal, fez um belíssimo gol que remete ao histórico gol de Pelé contra o País de Gales na Copa de 1958. O Brasil ainda tomou um gol de Drogba numa falha de marcação, mas que não alterou o seu domínio em campo.

O fraquíssimo árbitro francês, Stephane Lannoy, permitiu que os marfinenses descessem a botinada e Kaká, até por ingenuidade, foi expulso por uma “simples” ombrada.

Fim de jogo e o Brasil, ao lado da Holanda, já está classificado para as oitavas de final da Copa da África do Sul.

Se a equipe ainda não mostrou um futebol de excelência fez o que dela se esperava e que o mundo inteiro reconhece. Menos aqui.

O que a mídia brasileira precisa aprender é o seguinte:

1. O Brasil é o país do futebol. Isso é óbvio. Portanto, há milhares de seleções possíveis e nunca, jamais, em tempo algum, alguém vai agradar a todos. Nem Telê Santana, querido pela mídia e que em 1982 montou a melhor seleção que vi jogar deixou de responder os porquês da convocação do goleiro Waldir Peres, só para citar um exemplo;

2. Muitos que idolatram Luiz Felipe Scolari que, por méritos, foi campeão com a seleção de 2002, esquecem-se de que o Brasil foi muito beneficiado no jogo contra a Bélgica nas oitavas de final daquela Copa. Por sinal, para que fique bem claro, Felipão e Dunga fizeram a mesma “escola”;

3. O Brasil é reconhecido no mundo inteiro. As equipes tremem ao ver a camisa amarela em campo. Isso foi nítido nas duas partidas. Mas aqui ainda preferem valorizar produtos de fora.

É claro que quando o Brasil perder, se perder, a mídia vai criticar tudo, todos e mais um pouco. Mas o “estilo Dunga” já fez com que muitos ficassem calados ou revessem os conceitos.

Agora é aguardar pelos duelos da Península Ibérica. Um, já marcado contra Portugal. E outro, bem provável contra a Espanha.

7 de abril, Dia do Jornalista… mas sem nada a comemorar!

Jornalista diplomadopor Sylvio Micelli (*)

Parabéns a você que, a meu exemplo, resolveu seguir a profissão que o mestre Ruy Barbosa assim definiu:

“Cada jornalista é para o comum do povo, ao mesmo tempo um mestre de primeiras letras e um catedrático de democracia em ação, um advogado e um censor, um familiar e um magistrado. Bebidas com o primeiro pão do dia, as suas lições penetram até ao fundo das consciências inexpertas, onde vão elaborar a moral usual, os rudimentos e os impulsos, de que depende a sorte dos governos e das nações.”

Pausa para um parêntese. Não confuda o jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador  brasileiro, Ruy Barbosa com o autor de novelas Benedito Ruy Barbosa. Fecho o parêntese. Escrevo isso porque já vi “coleguinhas” perguntarem cada coisa… Aliás, odeio o termo “coleguinha”. Se usar e quando usar, saibam todos que é puro cinismo.

Hoje é dia do Jornalista. Como define o site O Jornalista, 7 de abril é o nosso dia e aniversário da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Fundada no Rio de Janeiro (RJ), em 1908, a ABI completa 102 anos de existência e, devido a sua importância na vida da categoria e da vida nacional, o dia de sua fundação foi definido como o Dia Nacional do Jornalista.

Pela gama de atividades que todos nós jornalistas desenvolvemos é comum sermos parabenizados em outras ocasiões como 16 de fevereiro (Dia do Repórter) ou 10 de setembro (Dia da Imprensa), entre tantas outras datas caso sejamos radialistas, locutores, diagramadores etc etc e bota etc nisso.

Tantas datas para comemorar e, paradoxalmente, nada a comemorar.

A carreira e a profissão de jornalista passam pelo pior momento de sua história. Fruto, em muito, de uma desunião intrínseca à nossa categoria. Muitos podem até estranhar minha opinião porque há uma assertiva, conhecida por todos os “coleguinhas”, de que jornalista sempre anda junto. Isso é fato. Mas há uma grande diferença entre andar junto, beber junto, sair junto, talvez viver junto e… lutar junto, brigar junto.

Hoje, nosso diploma não vale nada, ainda que sub judice. O patético ministro Gilmar Mendes, quase ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (ainda bem!), chegou a nos comparar a cozinheiros, ano passado, quando se julgou a ação da obrigatoriedade do diploma para o exercício da nossa profissão. O próprio presidente Lula, que deve muito de sua vitoriosa história à boa parte da Imprensa, vive dizendo que só gostamos de “publicar desgraças” (sic). Nós, jornalistas, que nos orgulhávamos de pertencer a um simbólico quarto poder em meados dos anos 80, no processo de redemocratização do Brasil, estamos hoje inseridos e diluídos em meio aos três poderes.

Sobre a questão do diploma, que ainda caminha tropegamente no Congresso Nacional, acredito que cairá em definitivo, apesar de torcer e trabalhar pelo contrário. Isso porque a não exigência do diploma é de interesse da grande mídia e da mídia nepotista do interior do Brasil. Empobrece salários e as garantias da profissão e permite a qualquer mané achar que, para fazer jornalismo, basta saber que uma lauda tem 1400 toques. Isso quando sabe… Lamentavelmente teremos, cada vez mais, um jornalismo tendencioso e que em nada contribui para o crescimento do País. Não menos lamentável é a postura de alguns dos nossos sindicatos (São Paulo e Santa Catarina) que até iniciaram o aceite de todo e qualquer cidadão que se diz jornalista. Ainda bem que a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) obstou, mesmo que provisoriamente, tal atitude. Daí reitero a necessidade de refletirmos sobre a nossa contumaz desunião.

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), ao final, é uma grande ilusão. Ou desilusão. Vendida como o bálsamo para a cura de todos os males da Comunicação, no final do ano passado, ela anda meio esquecida. Eu mesmo, em entrevista que participei pela Fenaj com o Celso Schröder, coordenador do evento, critiquei o resultado do evento. Um compêndio de quase 700 propostas foi uma grande bobagem para agraciar a maior parte de interesses envolvidos e tentou, realmente, agradar a gregos e troianos. Schröder acredita que tantas propostas são uma agenda política. Que seja. Mas de difícil execução. Boa parte da grande mídia deu as costas para o evento provando que não está nem aí para que tenhamos uma Comunicação e, por consequência, um Jornalismo de qualidade.

Por fim, a aberração do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) é uma outra bobagem. Um programa que discute até o sexo dos anjos, não serve para muita coisa exceto para servir como balão de ensaio. Foi, até prova em contrário, abandonado pelo próprio governo que não deseja muitas discussões, digamos, existenciais, num ano eleitoral.

O que realmente o Jornalismo Brasileiro precisa hoje é de um Conselho Nacional de Jornalistas e seus braços estaduais. Não que seja o mesmo bálsamo vendido como a Confecom, mas um Conselho seria o início da regulamentação definitiva da profissão e da ação de informar a ser auto-regulamentada dentro de preceitos debatidos de ética e moral.

Acredito, hoje, que há quatro grandes categorias de jornalistas:

1. os que trabalham na chamada grande mídia: que não podem, não querem ou não se interessam em lutar contra o establishment do grande poder midiático, afinal tem que ganhar o pão. Fazem textos que, na imensa maioria das vezes, apenas refletem o pensamento (?) dos veículos que estão. Ouvir o outro lado? Ponderar, questionar, evitar o circo midiático e matérias que mostram apenas um lado da história? Com raríssimas e honrosas exceções, nada disso! Quando trabalham com os dois lados da história o fazem, geralmente, para ratificar o lado defendido pelo veículo em que estão. Formar opinião? Só se for a chamada a “opinião pública”, algo um tanto subjetivo e moldável a interesses diversos;

2. os que trabalham contra a chamada grande mídia: são exatamente iguais aos anteriores, mas em sentido inverso. Estão do outro lado do balcão. Para equilibrar a aberração do primeiro, também “esquecem” das lições mais comezinhas do bom jornalismo. Cometem os mesmos erros, mas acreditam firmemente que, desta forma equivocada, também com raríssimas exceções, formarão um mundo melhor (moldado aos interesses que defendem);

3. os meus queridos Assessores de Imprensa que, antes de tudo, são “vendedores” de um produto e que são considerados subproduto do jornalismo… o que é uma grande bobagem. Os dois primeiros que citei também vendem produtos, mas “ideológicos”. Os assessores, parece-me, são os que mais sofrem. Muitas vezes tem cada abacaxi para assessorar, isso sem falar no modus operandi que começa com o release e chega ao follow up com os “coleguinhas”. Já vi muitos amigos assessores serem espezinhados por outros “coleguinhas”. Já vi, também, jornalistas que já foram “de redação” e hoje, atuando em assessorias de Imprensa, arrependem-se do que fizeram no passado;

4. sobra, então, o “resto”. Revoltados em geral, jornalistas contra tudo e contra todos, arrependidos e por aí vai. Tentam ainda exercer o jornalismo reflexivo e formar opinião. São uns raros missionários que nos brindam com importantes lições.

Permito-me não me inserir em nenhum dos grupos que apontei. Acho que cada um que conhece meu trabalho pode dar a definição que quiser. Posso afirmar, com tranquila consciência, que sempre tento observar os dois ou múltiplos lados da moeda e hoje, meu trabalho consiste, principalmente, em tentar orientar a grande mídia sobre o generalismo pobre que se faz do serviço público e de seus servidores.

Seja como for, amo o Jornalismo, mais do que qualquer coisa, excetuando-se, obviamente, a família que é a base de tudo. Minha opção pela carreira nasceu ainda na mais tenra idade quando achava que escrever o dia-a-dia dos fatos era uma forma de preservar a história e sedimentar o futuro. Acertei na escolha. Ainda que mal remunerado, mal compreendido, com horários díspares de qualquer outro mortal e sempre com a sensação de que faltou alguma coisa. Mas é só – bem ou mal – o que sei fazer. Um jornalista e nada mais, como indico no meu blog, é o que sou. E com muita honra. Tudo o que venha – antes ou depois – terá sido apenas calhau para encher página ou nariz-de-cera que leva do nada a lugar nenhum.

Abraços, amigos e amigas do Jornalismo.

Em tempo, para os não jornalistas que perderam seu tempo e chegaram até aqui:

1. Release ou Press-Release é um comunicado, matéria ou convite, muito usual nas assessorias de Imprensa. Serve para divulgar uma notícia ou acontecimento, pelo qual os jornalistas decidem se vão ou não divulgar.

2. Follow up é a busca da resposta ao release enviado. Quando se faz o follow up se quer um retorno daquilo que você enviou e que ainda não obteve resposta.

3. Calhau designa, no jargão jornalístico, matérias engavetadas ou “frias” que servem para preencher os espaços vazios das páginas e o lugar não preenchido pelos anunciantes. Normalmente é preenchido por anúncios da própria empresa, em busca de mais anunciantes e assinantes.

4. Nariz-de-cera, um tanto em desuso (ou será que não?), era o início rebuscado de matérias do chamado “velho” jornalismo. Com o advento do new journalism e do lead (do quem, que, quando, como, onde e por quê), tal introdução foi aposentada.

(*) O autor, 39, é Servidor Público e Jornalista. É diretor de Imprensa da Associação dos Servidores do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Assetj) e da Federação das Entidades de Servidores Públicos do Estado de São Paulo (Fespesp), além de outras “militâncias”. Mantém o blog “Um jornalista (diplomado) e nada mais” e é membro ativo de redes sociais como o Twitter e o Facebook.

7 de abril, Dia do Jornalista… mas sem nada a comemorar!

por Sylvio Micelli (*)

Parabéns a você que, a meu exemplo, resolveu seguir a profissão que o mestre Ruy Barbosa assim definiu:

“Cada jornalista é para o comum do povo, ao mesmo tempo um mestre de primeiras letras e um catedrático de democracia em ação, um advogado e um censor, um familiar e um magistrado. Bebidas com o primeiro pão do dia, as suas lições penetram até ao fundo das consciências inexpertas, onde vão elaborar a moral usual, os rudimentos e os impulsos, de que depende a sorte dos governos e das nações.”

Pausa para um parêntese. Não confuda o jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador  brasileiro, Ruy Barbosa com o autor de novelas Benedito Ruy Barbosa. Fecho o parêntese. Escrevo isso porque já vi “coleguinhas” perguntarem cada coisa… Aliás, odeio o termo “coleguinha”. Se usar e quando usar, saibam todos que é puro cinismo.

Hoje é dia do Jornalista. Como define o site O Jornalista, 7 de abril é o nosso dia e aniversário da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Fundada no Rio de Janeiro (RJ), em 1908, a ABI completa 102 anos de existência e, devido a sua importância na vida da categoria e da vida nacional, o dia de sua fundação foi definido como o Dia Nacional do Jornalista.



Pela gama de atividades que todos nós jornalistas desenvolvemos é comum sermos parabenizados em outras ocasiões como 16 de fevereiro (Dia do Repórter) ou 10 de setembro (Dia da Imprensa), entre tantas outras datas caso sejamos radialistas, locutores, diagramadores etc etc e bota etc nisso.

Tantas datas para comemorar e, paradoxalmente, nada a comemorar.

A carreira e a profissão de jornalista passam pelo pior momento de sua história. Fruto, em muito, de uma desunião intrínseca à nossa categoria. Muitos podem até estranhar minha opinião porque há uma assertiva, conhecida por todos os “coleguinhas”, de que jornalista sempre anda junto. Isso é fato. Mas há uma grande diferença entre andar junto, beber junto, sair junto, talvez viver junto e… lutar junto, brigar junto.

Hoje, nosso diploma não vale nada, ainda que sub judice. O patético ministro Gilmar Mendes, quase ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (ainda bem!), chegou a nos comparar a cozinheiros, ano passado, quando se julgou a ação da obrigatoriedade do diploma para o exercício da nossa profissão. O próprio presidente Lula, que deve muito de sua vitoriosa história à boa parte da Imprensa, vive dizendo que só gostamos de “publicar desgraças” (sic). Nós, jornalistas, que nos orgulhávamos de pertencer a um simbólico quarto poder em meados dos anos 80, no processo de redemocratização do Brasil, estamos hoje inseridos e diluídos em meio aos três poderes.

Sobre a questão do diploma, que ainda caminha tropegamente no Congresso Nacional, acredito que cairá em definitivo, apesar de torcer e trabalhar pelo contrário. Isso porque a não exigência do diploma é de interesse da grande mídia e da mídia nepotista do interior do Brasil. Empobrece salários e as garantias da profissão e permite a qualquer mané achar que, para fazer jornalismo, basta saber que uma lauda tem 1400 toques. Isso quando sabe… Lamentavelmente teremos, cada vez mais, um jornalismo tendencioso e que em nada contribui para o crescimento do País. Não menos lamentável é a postura de alguns dos nossos sindicatos (São Paulo e Santa Catarina) que até iniciaram o aceite de todo e qualquer cidadão que se diz jornalista. Ainda bem que a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) obstou, mesmo que provisoriamente, tal atitude. Daí reitero a necessidade de refletirmos sobre a nossa contumaz desunião.

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), ao final, é uma grande ilusão. Ou desilusão. Vendida como o bálsamo para a cura de todos os males da Comunicação, no final do ano passado, ela anda meio esquecida. Eu mesmo, em entrevista que participei pela Fenaj com o Celso Schröder, coordenador do evento, critiquei o resultado do evento. Um compêndio de quase 700 propostas foi uma grande bobagem para agraciar a maior parte de interesses envolvidos e tentou, realmente, agradar a gregos e troianos. Schröder acredita que tantas propostas são uma agenda política. Que seja. Mas de difícil execução. Boa parte da grande mídia deu as costas para o evento provando que não está nem aí para que tenhamos uma Comunicação e, por consequência, um Jornalismo de qualidade.

Por fim, a aberração do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) é uma outra bobagem. Um programa que discute até o sexo dos anjos, não serve para muita coisa exceto para servir como balão de ensaio. Foi, até prova em contrário, abandonado pelo próprio governo que não deseja muitas discussões, digamos, existenciais, num ano eleitoral.

O que realmente o Jornalismo Brasileiro precisa hoje é de um Conselho Nacional de Jornalistas e seus braços estaduais. Não que seja o mesmo bálsamo vendido como a Confecom, mas um Conselho seria o início da regulamentação definitiva da profissão e da ação de informar a ser auto-regulamentada dentro de preceitos debatidos de ética e moral.

Acredito, hoje, que há quatro grandes categorias de jornalistas:

1. os que trabalham na chamada grande mídia: que não podem, não querem ou não se interessam em lutar contra o establishment do grande poder midiático, afinal tem que ganhar o pão. Fazem textos que, na imensa maioria das vezes, apenas refletem o pensamento (?) dos veículos que estão. Ouvir o outro lado? Ponderar, questionar, evitar o circo midiático e matérias que mostram apenas um lado da história? Com raríssimas e honrosas exceções, nada disso! Quando trabalham com os dois lados da história o fazem, geralmente, para ratificar o lado defendido pelo veículo em que estão. Formar opinião? Só se for a chamada a “opinião pública”, algo um tanto subjetivo e moldável a interesses diversos;

2. os que trabalham contra a chamada grande mídia: são exatamente iguais aos anteriores, mas em sentido inverso. Estão do outro lado do balcão. Para equilibrar a aberração do primeiro, também “esquecem” das lições mais comezinhas do bom jornalismo. Cometem os mesmos erros, mas acreditam firmemente que, desta forma equivocada, também com raríssimas exceções, formarão um mundo melhor (moldado aos interesses que defendem);

3. os meus queridos Assessores de Imprensa que, antes de tudo, são “vendedores” de um produto e que são considerados subproduto do jornalismo… o que é uma grande bobagem. Os dois primeiros que citei também vendem produtos, mas “ideológicos”. Os assessores, parece-me, são os que mais sofrem. Muitas vezes tem cada abacaxi para assessorar, isso sem falar no modus operandi que começa com o release e chega ao follow up com os “coleguinhas”. Já vi muitos amigos assessores serem espezinhados por outros “coleguinhas”. Já vi, também, jornalistas que já foram “de redação” e hoje, atuando em assessorias de Imprensa, arrependem-se do que fizeram no passado;

4. sobra, então, o “resto”. Revoltados em geral, jornalistas contra tudo e contra todos, arrependidos e por aí vai. Tentam ainda exercer o jornalismo reflexivo e formar opinião. São uns raros missionários que nos brindam com importantes lições.

Permito-me não me inserir em nenhum dos grupos que apontei. Acho que cada um que conhece meu trabalho pode dar a definição que quiser. Posso afirmar, com tranquila consciência, que sempre tento observar os dois ou múltiplos lados da moeda e hoje, meu trabalho consiste, principalmente, em tentar orientar a grande mídia sobre o generalismo pobre que se faz do serviço público e de seus servidores.

Seja como for, amo o Jornalismo, mais do que qualquer coisa, excetuando-se, obviamente, a família que é a base de tudo. Minha opção pela carreira nasceu ainda na mais tenra idade quando achava que escrever o dia-a-dia dos fatos era uma forma de preservar a história e sedimentar o futuro. Acertei na escolha. Ainda que mal remunerado, mal compreendido, com horários díspares de qualquer outro mortal e sempre com a sensação de que faltou alguma coisa. Mas é só – bem ou mal – o que sei fazer. Um jornalista e nada mais, como indico no meu blog, é o que sou. E com muita honra. Tudo o que venha – antes ou depois – terá sido apenas calhau para encher página ou nariz-de-cera que leva do nada a lugar nenhum.

Abraços, amigos e amigas do Jornalismo.

Em tempo, para os não jornalistas que perderam seu tempo e chegaram até aqui:

1. Release ou Press-Release é um comunicado, matéria ou convite, muito usual nas assessorias de Imprensa. Serve para divulgar uma notícia ou acontecimento, pelo qual os jornalistas decidem se vão ou não divulgar.

2. Follow up é a busca da resposta ao release enviado. Quando se faz o follow up se quer um retorno daquilo que você enviou e que ainda não obteve resposta.

3. Calhau designa, no jargão jornalístico, matérias engavetadas ou “frias” que servem para preencher os espaços vazios das páginas e o lugar não preenchido pelos anunciantes. Normalmente é preenchido por anúncios da própria empresa, em busca de mais anunciantes e assinantes.

4. Nariz-de-cera, um tanto em desuso (ou será que não?), era o início rebuscado de matérias do chamado “velho” jornalismo. Com o advento do new journalism e do lead (do quem, que, quando, como, onde e por quê), tal introdução foi aposentada.

(*) O autor, 39, é Servidor Público e Jornalista. É diretor de Imprensa da Associação dos Servidores do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Assetj) e da Federação das Entidades de Servidores Públicos do Estado de São Paulo (Fespesp), além de outras “militâncias”. Mantém o blog “Um jornalista (diplomado) e nada mais” e é membro ativo de redes sociais como o Twitter e o Facebook.

O pacote de bondades versus o saco de maldades

O governador de São Paulo, José Serrapor Sylvio Micelli

Na edição do “Jornal da Bandeirantes Gente” que foi ao ar no último dia 25 de fevereiro, o colega jornalista Rafael Colombo, durante a apresentação, fez ironia de que o governador paulista José Serra estaria por conceder um “pacote de bondades” ao funcionalismo público do estado de São Paulo para evitar que greves sejam feitas em ano eleitoral. Na verdade ele reproduziu um pensamento que a chamada grande mídia já havia soltado dias antes.

Pessoalmente, acompanho a carreira de Rafael Colombo desde o início, como repórter de uma das mais tradicionais rádios paulistanas até sua efetivação, há pouco, como um dos apresentadores do não menos tradicional “Jornal da Bandeirantes Gente” no ar desde 1978. Parece-me ser competente, pois do contrário não chegaria à bancada do jornal anteriormente citado. Mantém, ainda, um interessante blog com foco na cidade de São Paulo e está antenado às redes sociais como o Twitter.

Pois bem. Escrito isto e com o intuito de fomentar o debate e o exercício do bom jornalismo que nos ensina, lá na primeira aula, que devemos ouvir os dois lados da questão, teço a seguinte crítica:

1. o governador José Serra não é nenhum bom samaritano. Em especial com o funcionalismo. Ele é cruel e mantém uma política de desmonte do serviço público com a perpetuação do PSDB no governo do estado de São Paulo há uma década e meia. A verdade é que ele é um dos expoentes do conhecidíssimo e manjado neoliberalismo nascido sob a égide de Margaret Thatcher / Ronald Reagan, que reduz o Estado ao máximo sob o frágil e viciado argumento de “enxugar a máquina”. Isso cai para a grande mídia como um bálsamo para a cura de todos os males. Ledo engano. A péssima prestação de serviço público em determinados setores advém, justamente, desse pensamento neoliberal. Ressalto aqui, antes que se pense, que não sou petista. Tenho muitas críticas a eles também.

2. A reposição salarial dos servidores “na mesma data e sem distinção de índices” é um preceito constitucional expresso no Artigo 37, inciso X da Constituição Federal. Penso que todos devemos cumprir a Carta Magna do País. O que dirá, então, de um governador de estado, que ainda almeja a presidência da República?

3. A política salarial não existe no estado de São Paulo. Veja você, meu caro colega, que além do artigo constitucional a que já fiz referência, ainda temos leis estaduais que instituíram a data-base dos servidores públicos, que por sinal vence hoje, dia 1º de março e que, sistematicamente, não é cumprida pelo governo do estado de São Paulo. A data-base, como suponho que você saiba, existe inclusive na iniciativa privada. Tem como principal função discutir a recomposição salarial, ainda que inflacionária e, se possível, a majoração salarial que é o chamado aumento real de salário.

4. Em relação aos servidores aposentados, mormente os professores, é preciso que se diga que o professor deve ser remunerado por aquilo que já fez pelo cidadão e não por aquilo que irá fazer em sua aposentadoria. O governo do estado de São Paulo prefere manter uma nefasta política de gratificações, extensiva apenas aos servidores da ativa. O correto e o justo é a majoração dos salários como já fiz referências e que seja paritário a servidores ativos, aposentados e pensionistas. Por sinal, a paridade salarial também é um mandamento constitucional expresso no Artigo 40, § 4º.

5. Os vencimentos dos servidores públicos do estado de São Paulo estão dentre os piores do País. Mesmo o estado sendo considerado o mais rico e, consequentemente, aquele que produz boa parte da riqueza nacional. Salvo engano, não me lembro de uma categoria de servidores, uma única que seja, que esteja na ponta dos melhores salários do Brasil. Isso gera desilusão e revolta no servidor que não é valorizado, não tem dignas condições de trabalho e acaba por buscar outros concursos na esfera federal e até em determinadas prefeituras.

6. Aproveito o ensejo para lembrarmos do calote oficial dos precatórios alimentares, agora sacramentado pela Emenda Constitucional nº 62. Mais de 70 mil servidores já faleceram sem receberem, em vida, sua justa indenização salarial via precatório alimentar. Infelizmente, outros tantos morrerão nas mesmas condições, muitos na miséria sem ter condições de comprar medicamentos para uma sobrevida.

Veja bem. É preciso repensar esse comportamento, em especial da grande mídia, em relação ao funcionalismo público. Primeiro porque já se tornou lugar comum atribuir a nós, servidores, todas as mazelas e responsabilidades pela má gestão do Estado. Lá atrás, com Collor de Mello, começou esta perseguição. Ele era o “Caçador de Marajás”. Virou queridinho da mídia. Foi eleito presidente da República e o resto da história todo mundo conhece.

Além disso, o Serviço Público gera um dos maiores paradoxos que conheço. Ele é criticado por todos. Entretanto, qualquer concurso público que se abre, milhares e milhares de pessoas tentam uma vaga. Há concursos mais concorridos que muitos vestibulares. Certamente você argumentará que a questão dos concursos se deve ao fato dos “bons salários e da estabilidade”. No estado de São Paulo tal afirmação é falaciosa. Nem temos bons salários e a pretendida estabilidade já não é tão estável assim graças às reformas previdenciárias de FHC (1998) e de Lula (2003).

Então, meu jovem jornalista, acredito que o pacote de bondades que você quis afirmar trata-se, na verdade, de um saco de maldades que o servidor público do estado de São Paulo conhece e sofre na pele todos os dias.

(*) O autor, 39, é jornalista e servidor público do Judiciário

É diretor de Imprensa da Associação dos Servidores do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Assetj), da Federação das Entidades de Servidores Públicos do Estado de São Paulo (Fespesp) e da Associação Nacional dos Servidores do Poder Judiciário (ANSJ). É, ainda, presidente da Comissão Consultiva Mista (CCM) do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe)

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