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José Serra: o mal perdedor mau

por Sylvio Micelli

Antes que os censores tucanos de plantão me critiquem, que fique bem claro: não sou petista, nem lulista, nem dilmista. Meu candidato a presidente não chegou ao segundo turno. Não cabe aqui informar meu voto, mas tenham certeza de que sempre votei com a esquerda, desde 1989 quando pude exercer o direito/dever de votar. E para bom entendedor, meia cédula já basta.

No segundo turno das eleições presidenciais anulei meu voto. Cumpri com o tal do dever cívico, apenas. Não quero aqui convencer um ou outro lado sobre os motivos. Até porque, o baixo nível da campanha transformou a eleição num jogo de futebol inconsequente onde todos reclamavam e ninguém tinha razão. Não vi, enfim, em nenhum dos dois candidatos, uma oportunidade, ainda que mínima, de real mudança.

Passado o pleito, Dilma Rousseff tornou-se a primeira mulher presidente do Brasil. E ponto final, gostem ou não. Será a continuidade de Lula (para o bem ou para o mal) como, aliás, deixou bem claro durante a campanha (ela não enganou ninguém) e ratificou esta postura com a manutenção de peças chaves nos ministérios mais complexos.

Habitué da rede social Twitter, o candidato derrotado José Serra tem aparecido nos últimos tempos apenas para alfinetar e espicaçar (com seu bico tucano) o atual governo. Já usou as chuvas torrenciais que devem, ao final da contagem dos corpos, totalizar mais de mil mortos. Também fez uso do frágil argumento dos juros altos para defenestrar o governo Dilma e fez analogias sobre o “fisiologismo” na disputa de cargos. Escreve, ainda, sobre “incompetência” e “corrupção”.

Analisemos.

Escreveu Serra no Twitter em 12 de janeiro: “Enquanto a Saúde no Brasil vai muito mal, como mostram todas as pesquisas, Ministério da Saúde está paralisado pela briga fisiológica.”

Será que ele se esqueceu que, sob sua gestão, o Brasil teve altos índices de dengue o que lhe rendeu o nada honroso apelido de Ministro da Dengue? Dados confirmam que em 2001, como ministro da Saúde e que na propaganda era o “melhor ministro da Saúde da história”, ele gastou R$ 81 milhões em propaganda e apenas R$ 3 milhões em campanhas de combate à dengue. Como parte do plano econômico, demitiu seis mil “mata-mosquitos” contratados para eliminar os focos do Aedes Aegypti (transmissor da dengue). Resultado: em 2002 o estado do Rio de Janeiro, o mesmo que está submerso na tragédia das águas, registrou 207.521 casos de dengue, com 63 mortes.

Sobre o fisiologismo, a disputa de cargos sempre existiu. Inclusive nos oito anos de FHC. E não só lá. Tanto que o fisiológico José Serra optou por apoiar Gilberto Kassab para o cargo de prefeito de São Paulo em 2008, mesmo com o seu partido – o PSDB – tendo Geraldo Alckmin como candidato. A opção, que Serra acreditou ter sido a melhor, mostra agora seu erro estratégico. Ele está isolado dentro de seu próprio partido o que, certamente, gera a necessidade de maior consumo de antiácidos e digestivos em geral para o nosso ex-governador.

Mas o destemido José Serra, sobre as chuvas, em 16 de janeiro, ataca: “As tragédias não serão atenuadas com o gogó. Não bastam anúncios, como os feitos pelo gov. Lula-Dilma há 1 ano e nada acontecer”.

Obviamente que os estragos da enchente aqui em São Paulo são menores, mas existem e matam. Ano passado foi São Luiz do Paraitinga e boa parte do Vale Histórico. Este ano, Jundiaí e Mauá. Será que em 16 anos de governo, o PSDB não poderia ter sanado o problema das enchentes? E o caso da São Paulo governada (?) por Kassab (apoiado por ele)? Melhor eu parar por aqui…

Serra volta ao Twitter em 19 de janeiro para gritar: “Como eu disse mil vezes o PT destruiu a Funasa e a Anvisa, com fisiologismo, corrupção e incompetência”.

E aí, governador… Aliás, ex-governador… O que o senhor tem a dizer sobre o Banespa? E sobre a “entrega” da Nossa Caixa ao Banco do Brasil? E a Cesp? E tantos outros esqueletos no armário tucano? Melhor nem comentar, não é mesmo? O PSDB dilapidou o patrimônio do povo paulista sempre com a visão privatista-neoliberal-caolha que o senhor e seus asseclas trabalharam.

Serra retorna ao Twitter, enfim, para criticar os juros e o Copom no dia 20 de janeiro: “Os juros reais brasileiros,que já eram os mais altos do mundo,cresceram mais.Até agora,esta foi a medida mais importante do atual governo.”

Concordo que os juros no Brasil estão, realmente, abusivos e há, certamente, uma tendência inflacionária. O Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou, nesta semana, a taxa de juros para 11,25% (*). Mas mesmo sendo um índice alto, durante o governo FHC do qual Serra participou ativamente (tanto que impôs sua candidatura em 2002), nunca tivemos tal índice. A taxa do Copom mais baixa foi um 15,25% em fevereiro de 2001, sem que nos esqueçamos dos absurdos 45% de março de 1999 (que os tucanos vão botar a culpa na crise das bolsas da Rússia e da Ásia no período de 1997 a 2000). O governo FHC entregou a Lula, em janeiro de 2003, um índice de 25%. Apenas para que o leitor tenha referência, durante a crise econômica vivida pela Europa e Estados Unidos em 2008, o índice máximo que o Copom atingiu foi 13,75%.

É por essas e por outras, que José Serra demonstra, cada vez mais, ser um político em final de carreira. Novamente derrotado nas urnas (perdeu de Lula em 2002 e de Dilma em 2010), comporta-se como um mal perdedor. Com o devido respeito, de índole má, age com o fígado, é amargo e parece torcer para que tudo dê errado. Dá a sensação de que ele quer sorrir matreiramente e, ao final de tudo afirmar do modo mais tosco destinado aos perdedores, “eu não disse…”

Antes que os censores tucanos de plantão me ataquem, afirmando que Serra está fazendo o discurso de oposição, questiono: por que ele não faz propostas reais, uma espécie de governo paralelo? Por que ele não faz uma oposição no campo das ideias? Por que ele não aprende até com “caciques” de seu partido? Que ele seja crítico, ok. Mas ele deixa claro, nestas e noutras mensagens, que quer que tudo vá para o inferno. Quem perde não é a Dilma ou o PT. Perdemos todos, ele incluso.

(*) Com informações do Banco Central do Brasil

Dilma X Serra: debate de pouca solução e muita tergiversação


por Sylvio Micelli

O primeiro debate do segundo turno para a presidência da República, entre os candidatos José Serra e Dilma Rousseff, não tratou dos grandes temas nacionais como as reformas que todos afirmam, peremptoriamente, que são necessárias, mas que ninguém ousa fazê-las. Alterações tributárias e econômicas, reformas políticas e sociais e até a questão ambiental, estiveram ausentes da discussão.

Os candidatos preferiram destinar o precioso tempo dos eleitores com temas subjacentes, cuja análise deve ser feita muito mais sob a ótica social e deram prosseguimento à baixaria generalizada que se tem observado nos debates políticos. Parafraseando Plínio Marcos (*), o debate de Dilma e Serra foi a batalha de dois perdidos numa urna suja.

Assuntos como o aborto ou a criminalidade, por exemplo, foram debatidos com dogmas éticos, morais e até religiosos sendo que ambos os temas deveriam ser analisados no conjunto de reformas sociais que, há muito tempo, o estado brasileiro deve à sociedade. Aborto deve ser tratado como problema de saúde pública e não da forma hipócrita com que vem sendo discutido. Criminalidade, também, deveria ser analisada como resultado das enormes discrepâncias sociais do Brasil. Ambos os candidatos preferiram tratá-la como uma questão meramente quantitativa e que pode ser “resolvida” dependendo do número de policiais nas ruas. Qualquer brasileiro sabe que o abismo social em que vive o estado brasileiro só se resolve com políticas de saúde e educação sérias, que preparem a criança de hoje para ser o futuro de amanhã.

Outro tema apresentado à ribalta eleitoral foi a discussão sobre privatização envolvendo telefonia, pré-sal e assuntos correlatos. Mas isso foi usado para ataques mútuos e pouco analisou-se do tema como forma de desenvolvimento do estado brasileiro. Obviamente que sou contra a privatização. Mas que projeto, por exemplo, é oferecido que não seja a venda das instituições nacionais?

Observando cada candidato de per si, José Serra promete coisas que não cumpre. Fala da valorização de professores, educação e saúde, assuntos espinhosos que, sendo prefeito e governador de São Paulo, deixou muito a desejar.

Dilma Rousseff limita-se a dar prosseguimento às obras e feitos do governo a que pertence e a se defender dos ataques promovidos pelo seu adversário.

Tudo muito fraco. Tudo muito comezinho.

Vendo o debate senti-me um cidadão dinamarquês comendo biscoitos amanteigados Jacobsens. Não há problemas no Brasil. É tudo factóide!

E de tergiversação em tergiversação (verbo repetido à exaustão durante o encontro), percebe-se cada vez mais que há apenas projetos de poder e não projetos de Estado. E para que não for partidário de um ou de outro, fica muito difícil decidir em quem votar no segundo turno.

Pobre, Brasil!

Nota do Autor: (*) “Dois Perdidos numa Noite Suja” é uma peça de teatro do autor Plínio Marcos, um dos maiores gênios incompreendidos do teatro brasileiro. Escrita no ano de 1966, a peça foi apresentada pela primeira vez no mesmo ano, no Bar Ponto de Encontro, para uma pequena plateia. Foi adaptada para o cinema duas vezes, sendo a primeira no ano de 1970 sob a direção de Braz Chediak e a mais recente no ano de 2002 sob a direção de José Joffily. É uma das peças mais famosas de Plínio, tendo sido montada inúmeras vezes tanto no Brasil como em outros países. O texto é inspirado no conto “O terror de Roma” do escritor italiano Alberto Moravia. Dois personagens — Paco e Tonho — dividem um quarto numa hospedaria barata e durante o dia trabalham de carregadores no mercado. Todas as cenas se passam no quarto durante as noites. As personagens discutem sobre suas vidas, trabalho e perspectivas, mantendo uma relação conflituosa. O tema da marginalidade permeia todo o texto. Tonho se lamenta constantemente por não possuir um par de sapatos decente, fato ao qual atribui sua condição de pobreza. Ele inveja Paco que possui um bom par de sapatos e este, por sua vez, vive a provocar Tonho chamando-o de homossexual ao mesmo tempo que o considera como um parceiro. Paco, que já havia trabalhado como flautista, certa noite teve sua flauta roubada quando estava muito embriagado, entorpecido. No final, na tentativa de melhorar suas vidas, ambos são compelidos à realização de um ato que modificará radicalmente suas vidas. Fonte: Wikipedia

José Serra já perdeu a eleição. E para ele mesmo.

por Sylvio Micelli

A mais recente pesquisa eleitoral para o cargo de presidente da República indica que a candidata Dilma Rousseff (PT) conta com mais de 50% dos votos. Não confio muito em pesquisas. Elas sempre tem interesses subjacentes. Seja como for, todas as pesquisas apontam que a petista vencerá José Serra (PSDB) no primeiro turno.

Para boa parte dos tucanos que julgavam Dilma Rousseff um poste, o que não condiz com a realidade dos fatos, Serra está perdendo para ela. E se fosse Marina Silva (PV), Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), ou um cone de trânsito, ele seria derrotado da mesma forma.

Isso porque Serra já perdeu. E pior: para ele mesmo.

Ao longo da última década, José Serra adotou estratégias políticas erradas. Dono de uma peculiar arrogância, tratorou colegas de partido e correligionários e agora paga o altíssimo preço do abandono. O PSDB virou-lhe as costas de uma forma tão cristalina que a situação, além de inusitada, chega a ser patética.

Lembremos um pouco da história.

Em 2002, Serra se candidatou à presidência. Lá ele já não era uma unanimidade dentro de seu partido. Mas depois de oito anos de FHC era o melhor quadro que os tucanos dispunham. Mário Covas tinha acabado de falecer e Geraldo Alckmin assumiu o cargo de governador de São Paulo para “aprender” o ofício no maior estado do País. Serra foi derrotado por Lula, o que era meio óbvio. Mesmo com todo o terrorismo eleitoral perpetrado pela mídia da época, o risco-país em patamares astronômicos, o dólar na casa de R$ 4, não havia jeito de Lula ser derrotado, até pelo processo histórico de redemocratização do país. Talvez aí tenha sido o primeiro erro de avaliação de Serra. Ele poderia ter deixado outra cabeça, que não a dele, rolar na disputa contra Lula. Porque o mundo sabia que a vitória do petista era inevitável.

Em 2004, Serra candidatou-se à prefeitura de São Paulo tendo como vice, Gilberto Kassab (DEM). Ao não investir numa chapa “pura”, composta apenas por membros do PSDB, Serra gerou uma grave fissura no partido, uma ferida não curada até hoje. Criou-se a briga interna travada por “serristas” e “alckimistas”.

Dois anos depois, sem terminar o mandato de prefeito, ele sai candidato ao Governo do Estado de São Paulo. Serra opta agora por uma chapa pura com Alberto Goldman. Vence, mas também não termina o mandato.

Seu maior erro, a meu ver, aconteceu em 2008. Serra apoiou claramente a reeleição de Gilberto Kassab (DEM), mesmo tendo o PSDB um candidato próprio, Geraldo Alckmin, que chegou em 3º lugar. Ao entrar no barco vitorioso de Kassab, o tucano virou as costas para o seu partido.

Há um ditado italiano a ensinar, há séculos, que “a vingança é um prato que se come frio”.

José Serra, que já havia cometido muitos erros em suas estratégias, fez impor seu nome para a corrida ao Palácio do Planalto. Chegou a dar um cargo para Alckmin, em seu governo, como a saldar suas dívidas. Mas isso não resolveu.

Perdeu o segundo maior colégio eleitoral do Brasil com Aécio Neves, seu colega de Minas Gerais. Escolheu um vice-presidente, o senador Álvaro Dias (PSDB) que não contava com o respaldo da aliança demo-tucana. Teve que trocar de vice na marra com Índio da Costa (DEM) e gerou mais fissuras também no DEM.

E como dizem no popular: a casa caiu. Aliás, nem caiu. Sequer chegou a ser alicerçada.

Sua campanha vai de mal a pior. Além da favela cenográfica que foi criticada até por seus apoiadores, ele está visivelmente perdido. Virou alvo de chacota como o vídeo que reproduzo acima.

Como escrevi aqui no blog no último dia 08, no primeiro debate entre os candidatos à presidência, “Serra com sua empáfia habitual, foi tragado durante o debate. Desatento, não prestava atenção às perguntas formuladas. Falou a maior parte do tempo sobre as questões de saúde. Chegou até a falar de cirurgia de varizes, assunto de somenos importância diante do caos da saúde brasileira. De prático disse apenas que irá criar a Nota Fiscal Brasileira, a exemplo da Nota Fiscal Paulista, um embuste que serve para dar grandes prêmios a poucos e que não resolve os colossais problemas tributários do Brasil.

Para quem é de São Paulo, conhece José Serra de longa data. Ele faz com que eu lembre de uma antiga propaganda de um jornalão paulista. Ele tem “cara de conteúdo”. Faz a alegria da centro-direita dominante. Julga-se acima do bem e do mal. Mas não sabe dialogar com as massas. Odeia ser lembrado que faz parte da turma do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin e relata uma série de coisas que pretende fazer em nível nacional que não fez em nível estadual”.

O futuro de José Serra é incerto e não sabido. Talvez ele ganhe um prêmio de consolação, caso Geraldo Alckmin seja eleito. Talvez volte em dois anos para concorrer à prefeitura de São Paulo ou só reapareça em 2014 pleiteando uma vaga no Senado Federal ou na Câmara dos Deputados.

Quero deixar claro que não estou menosprezando a campanha da petista. Também não entrarei no mérito de nenhuma das campanhas. Particularmente, tenho motivos suficientes para não votar em nenhum dos dois. Também não gosto desse maniqueísmo eleitoral que transforma as campanhas num jogo de truco. A grande mídia – do lado de cá e do lado de lá – escolhe seus preferidos e jogam isso para o eleitor.

Nesta pseudo-democracia em que vivemos, o pluripartidarismo e a pluralidade de ideias e propostas deveria ser melhor explorada e não ficar meramente no discurso. Mas para tanto falta uma profunda reforma política que não interessa a ninguém. Perdemos todos, mas isso pouco importa. Há, de lado a lado, apenas planos de poder e não planos de governo.

Para quem ainda acha que os resultados só saem após a apuração dos votos devo avisar que milagres eleitorais acontecem na mesma proporção que coelhinhos da Páscoa ou Papais-Noel aparecem na janela aqui de casa.

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Sylvio Micelli

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