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O tumor de Lula e os abutres de parte da mídia

por Sylvio Micelli

No último sábado, o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, foi diagnosticado com um tumor na laringe, possivelmente fruto de sua vida de fumante que, como todos sabemos, especialmente os que fumaram ou fumam, trazem sequelas. Até aí, tudo normal.

Bastou o anúncio da doença, para que manifestações repugnantes começassem a inundar a Internet e suas redes sociais. Além de piadas de baixo nível, muitos se manifestaram no sentido de que o ex-presidente deveria “se tratar no Sistema Único de Saúde (SUS)” e outros desejaram a Lula, se possível, a morte imediata.

A coisa foi tão nojenta que Gilberto Dimenstein, um dos pensadores da grande mídia nacional, chegou a escrever que estava “envergonhado… de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano”.

Ora, Dimenstein? O que assusta você?

Esses “ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos” foram obra de boa parte dos abutres da mídia, inclusive do veículo do qual você faz parte.

Eu, por exemplo, votei em Lula apenas uma vez, no segundo turno de 2002. Não concordei com algumas coisas de seu governo, mas sei discernir que ele teve qualidades e defeitos como qualquer um.

Entretanto, a mídia desrespeitosa, desumana, raivosa criou uma opinião pública do mesmo nível… essa mesma que envergonha você.

Essa opinião pública rancorosa, boa parte da elite tupiniquim, é a mesma que adora quando comunidades carentes pegam fogo, que prega o ódio aos nordestinos nas redes sociais e que defende a violência como rémedio para a solução dos problemas sociais.

Eu tenho vergonha dessa opinião pública. Não sabe o que é cidadania. Não sabe o que é democracia. Torce contra o País, porque seu candidato não foi eleito. E é aí que reside boa parte do nosso atraso.

Respeito o ex-presidente Lula por sua trajetória. Se essa gente preconceituosa pode hoje escrever um monte de bobagens, muito se deve a ele e a história, não há como mudar.

Força, Lula!

José Serra: o mal perdedor mau

por Sylvio Micelli

Antes que os censores tucanos de plantão me critiquem, que fique bem claro: não sou petista, nem lulista, nem dilmista. Meu candidato a presidente não chegou ao segundo turno. Não cabe aqui informar meu voto, mas tenham certeza de que sempre votei com a esquerda, desde 1989 quando pude exercer o direito/dever de votar. E para bom entendedor, meia cédula já basta.

No segundo turno das eleições presidenciais anulei meu voto. Cumpri com o tal do dever cívico, apenas. Não quero aqui convencer um ou outro lado sobre os motivos. Até porque, o baixo nível da campanha transformou a eleição num jogo de futebol inconsequente onde todos reclamavam e ninguém tinha razão. Não vi, enfim, em nenhum dos dois candidatos, uma oportunidade, ainda que mínima, de real mudança.

Passado o pleito, Dilma Rousseff tornou-se a primeira mulher presidente do Brasil. E ponto final, gostem ou não. Será a continuidade de Lula (para o bem ou para o mal) como, aliás, deixou bem claro durante a campanha (ela não enganou ninguém) e ratificou esta postura com a manutenção de peças chaves nos ministérios mais complexos.

Habitué da rede social Twitter, o candidato derrotado José Serra tem aparecido nos últimos tempos apenas para alfinetar e espicaçar (com seu bico tucano) o atual governo. Já usou as chuvas torrenciais que devem, ao final da contagem dos corpos, totalizar mais de mil mortos. Também fez uso do frágil argumento dos juros altos para defenestrar o governo Dilma e fez analogias sobre o “fisiologismo” na disputa de cargos. Escreve, ainda, sobre “incompetência” e “corrupção”.

Analisemos.

Escreveu Serra no Twitter em 12 de janeiro: “Enquanto a Saúde no Brasil vai muito mal, como mostram todas as pesquisas, Ministério da Saúde está paralisado pela briga fisiológica.”

Será que ele se esqueceu que, sob sua gestão, o Brasil teve altos índices de dengue o que lhe rendeu o nada honroso apelido de Ministro da Dengue? Dados confirmam que em 2001, como ministro da Saúde e que na propaganda era o “melhor ministro da Saúde da história”, ele gastou R$ 81 milhões em propaganda e apenas R$ 3 milhões em campanhas de combate à dengue. Como parte do plano econômico, demitiu seis mil “mata-mosquitos” contratados para eliminar os focos do Aedes Aegypti (transmissor da dengue). Resultado: em 2002 o estado do Rio de Janeiro, o mesmo que está submerso na tragédia das águas, registrou 207.521 casos de dengue, com 63 mortes.

Sobre o fisiologismo, a disputa de cargos sempre existiu. Inclusive nos oito anos de FHC. E não só lá. Tanto que o fisiológico José Serra optou por apoiar Gilberto Kassab para o cargo de prefeito de São Paulo em 2008, mesmo com o seu partido – o PSDB – tendo Geraldo Alckmin como candidato. A opção, que Serra acreditou ter sido a melhor, mostra agora seu erro estratégico. Ele está isolado dentro de seu próprio partido o que, certamente, gera a necessidade de maior consumo de antiácidos e digestivos em geral para o nosso ex-governador.

Mas o destemido José Serra, sobre as chuvas, em 16 de janeiro, ataca: “As tragédias não serão atenuadas com o gogó. Não bastam anúncios, como os feitos pelo gov. Lula-Dilma há 1 ano e nada acontecer”.

Obviamente que os estragos da enchente aqui em São Paulo são menores, mas existem e matam. Ano passado foi São Luiz do Paraitinga e boa parte do Vale Histórico. Este ano, Jundiaí e Mauá. Será que em 16 anos de governo, o PSDB não poderia ter sanado o problema das enchentes? E o caso da São Paulo governada (?) por Kassab (apoiado por ele)? Melhor eu parar por aqui…

Serra volta ao Twitter em 19 de janeiro para gritar: “Como eu disse mil vezes o PT destruiu a Funasa e a Anvisa, com fisiologismo, corrupção e incompetência”.

E aí, governador… Aliás, ex-governador… O que o senhor tem a dizer sobre o Banespa? E sobre a “entrega” da Nossa Caixa ao Banco do Brasil? E a Cesp? E tantos outros esqueletos no armário tucano? Melhor nem comentar, não é mesmo? O PSDB dilapidou o patrimônio do povo paulista sempre com a visão privatista-neoliberal-caolha que o senhor e seus asseclas trabalharam.

Serra retorna ao Twitter, enfim, para criticar os juros e o Copom no dia 20 de janeiro: “Os juros reais brasileiros,que já eram os mais altos do mundo,cresceram mais.Até agora,esta foi a medida mais importante do atual governo.”

Concordo que os juros no Brasil estão, realmente, abusivos e há, certamente, uma tendência inflacionária. O Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou, nesta semana, a taxa de juros para 11,25% (*). Mas mesmo sendo um índice alto, durante o governo FHC do qual Serra participou ativamente (tanto que impôs sua candidatura em 2002), nunca tivemos tal índice. A taxa do Copom mais baixa foi um 15,25% em fevereiro de 2001, sem que nos esqueçamos dos absurdos 45% de março de 1999 (que os tucanos vão botar a culpa na crise das bolsas da Rússia e da Ásia no período de 1997 a 2000). O governo FHC entregou a Lula, em janeiro de 2003, um índice de 25%. Apenas para que o leitor tenha referência, durante a crise econômica vivida pela Europa e Estados Unidos em 2008, o índice máximo que o Copom atingiu foi 13,75%.

É por essas e por outras, que José Serra demonstra, cada vez mais, ser um político em final de carreira. Novamente derrotado nas urnas (perdeu de Lula em 2002 e de Dilma em 2010), comporta-se como um mal perdedor. Com o devido respeito, de índole má, age com o fígado, é amargo e parece torcer para que tudo dê errado. Dá a sensação de que ele quer sorrir matreiramente e, ao final de tudo afirmar do modo mais tosco destinado aos perdedores, “eu não disse…”

Antes que os censores tucanos de plantão me ataquem, afirmando que Serra está fazendo o discurso de oposição, questiono: por que ele não faz propostas reais, uma espécie de governo paralelo? Por que ele não faz uma oposição no campo das ideias? Por que ele não aprende até com “caciques” de seu partido? Que ele seja crítico, ok. Mas ele deixa claro, nestas e noutras mensagens, que quer que tudo vá para o inferno. Quem perde não é a Dilma ou o PT. Perdemos todos, ele incluso.

(*) Com informações do Banco Central do Brasil

Problemas de Aritmética

por Sylvio Micelli

Mais uma semana de paralisia geral nestas plagas. Mas também. Sem problemas. O Brasil caminha muito bem. Há casa, comida e roupa lavada para todos, não é mesmo?

Mais uma semana de paralisia geral. E com o devido respeito, uma sensação de coito interrompido na discussão entre Jefferson e Dirceu que não houve. Na terça-feira parecia jogo de Copa do Mundo. Todos grudados na telinha torcendo pelo Brasil. Contra um adversário invisível. Ou quiçá, indizível. Jogo de 0 a 0. E este périplo de CPIs começa a cansar.

Dizem que quanto mais provas, mais documentos, mais prolixidade, menos solução. Fujo aqui da turba que almeja sangue e cabeças em bandejas para regozijo das Salomés de plantão. Mas quero solução e começo a desconfiar que o caso de Lula, Valério e companhia, será como Collor, PC e companhia. Apenas um emblema. Uma pregação no deserto. Mas ao final, inexoravelmente, mudar-se-ão os cães, mas as coleiras lá permanecerão incólumes.

Nosso presidente – sim, votei nele e não me escondo agora – começou uma campanha pela reeleição. Substituiu o “aquilo roxo” de Collor pelo “terão que me engolir” que nem é dele e sim de Zagallo, nosso interminável técnico. Roteiro de filme velho. Lula, porém, não disse quem deverá engoli-lo. Se é a patuléia da qual faço parte, já estamos engolindo, num eterno gerúndio, anos a fio, diversos sapos – barbudos ou não. Lula foi para sua terra natal. Quem sabe para recobrar as energias que lhe faltam no Planalto. Afinal, o clima seco e inóspito de Brasília deve estar potencializado estes dias.

Resolver o problema do Brasil é simples. Caso de aritmética. Pouco conheço de números. Não gosto deles. Sei, apenas, contas de subtração do meu salário que nunca chega ao fim do mês. Prefiro as letras. Mas suponho que se soubéssemos as quatro operações matemáticas tudo seria resolvido. Quem sabe ressucitássemos Pitágoras ou Tales para que eles nos explicassem alguma coisa. Se bem que nunca entendi seus teoremas. O único teorema que compreendi na minha vida ignara foi o de Renato Russo.

Mas Pitágoras ou Tales ou ambos talvez explicassem, com os milhões que ouvimos nas últimas semanas, o quanto do nosso parco dinheiro multiplica-se para poucos dividirem. Com os catetos e a hipotenusa poderíamos comprender o salário mínimo do brasileiro. E volto ao caso da casa, comida e roupa lavada. Com R$ 300 de salário é impossível atender a esta versão básica, 1.0 de ser humano. Não há subtração que faça milagres.

O cofrinho do brasileiro não tem direito ao mensalão. O brasileiro não consegue pensar em um mês… Porque luta no dia-a-dia pela sobrevivência. Pode parecer até discurso panfletário. Mas não me resta outro pela situação.

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Sylvio Micelli

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