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Opinião de Sylvio Micelli sobre “Caso Bruno” é publicado no Observatório da Imprensa

O site Observatório da Imprensa, especializado na visão crítica do trabalho da mídia, publicou o artigo “O machismo na cobertura de crimes passionais” do jornalista Sylvio Micelli.

No artigo, Micelli opina mais sobre a mídia na cobertura do caso, do que o caso propriamente dito.

Para publicação no site do OI o artigo teve intertítulos colocados pela edição. Está publicado na seção “Jornal de Debates”.


O Observatório da Imprensa é uma iniciativa do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É um veículo jornalístico focado na crítica da mídia, com presença regular na internet desde abril de 1996.

Nascido como site na web, em maio de 1998 o Observatório da Imprensa ganhou uma versão televisiva, produzida pela TVE do Rio de Janeiro e TV Cultura de São Paulo, e transmitida semanalmente pela Rede Pública de Televisão (confira a grade horária no site do programa).

Em maio de 2005, o Observatório da Imprensa chegou ao rádio, com um programa diário transmitido pela rádio Cultura FM de São Paulo, rádios MEC AM e FM do Rio de Janeiro, e rádios Nacional AM e FM de Brasília. Os áudios dos programas, na forma de um blog, estão disponíveis no site do OI.

Leia o artigo no site Observatório da Imprensa

Leia o artigo no blog do jornalista Sylvio Micelli

O machismo na cobertura de crimes passionais

por Sylvio Micelli

A mídia – sempre ela – mais uma vez está em palpos de aranha diante da cobertura de dois crimes passionais ou que ao menos imaginemos que sejam passionais. E a visão machista acaba por permear o noticiário. Eliza Samudio e Mércia Nakashima pagaram com a vida por crimes que não se justificam. Se é que algum crime, ainda mais de morte, pode ser justificado. Mais do que pagar com a vida, elas pagam com a reputação pelo simples fato de serem mulheres.

Vamos caso a caso.

Eliza Samudio foi, no início do caso, totalmente desqualificada pela mídia. Primeiro pela “grife” de amante do goleiro Bruno Fernandes das Dores de Souza, bom jogador do Flamengo, um dos clubes mais importantes do País. O termo amante, ainda que hipocritamente acreditemos viver numa sociedade aberta, é um mero eufemismo para vagabunda. Depois descobriram que ela teria feito filmes pornográficos e que o goleiro a teria conhecido numa “orgia”. Ou seja: sob a ótica de parte da mídia, o que se entregava para a sociedade é que ela era uma puta, uma “maria chuteira” qualquer e que sua morte aconteceu porque ela “procurou”. Alguns dias atrás o noticiário era bem esse. A partir do momento que o crime foi sendo desvendado, principalmente pelos requintes de crueldade, pela quantidade de pessoas envolvidas e pela sua quase clara premeditação, Elisa passou a figurar como vítima.

Longe de mim entrar no mérito do que ocorreu, até porque odeio mundo-cão e esta cobertura que boa parte da imprensa faz é nojenta. Com a esfarrapada desculpa de “esclarecer os fatos” revira-se os ossos de uma sociedade apodrecida para que seja dada a ela mais sangue e se possível muitas cabeças na bandeja para o orgasmo das “salomés” de plantão.

A mim parece-me que, tanto ela quanto Bruno, vieram de famílias problemáticas. Ela tentou o seu lugar ao sol. Ele conquistou o seu lugar ao sol e, possivelmente, jogou tudo para o alto cercado por péssimas companhias. E aqui ressalte-se que os clubes de futebol no Brasil “usam” os jogadores, mas não lhes dão nenhum suporte psicológico diante da grana fácil e dos pseudo-amigos que aparecem. A ambos, enfim, faltou os fortes esteios de família, coisa que a sociedade já não sabe muito bem o que é. Ainda que esta moça não tivesse um comportamento adequado aos padrões que se acredita correto, não cabe nem a mim nem a ninguém julgá-la e como já afirmei, NADA justifica sua morte.

O fato de Bruno ter vindo de camadas pobres da população também não justifica o crime. Trata-se de mais um preconceito tosco. Já tivemos pai de classe média alta jogando a filha pela janela, filha de classe alta mandando matar os pais e até jornalista de grande veículo matando a namorada.

Sobrou um bebê na história, mas poucos dão a devida importância. Em breve, sua guarda será “leiloada” na Justiça e padeço em imaginar quão sofrida será esta criança.

Mércia Nakashima é um caso um pouco diferente. Ela era uma “moça de família” conforme imagina a tal da opinião pública, essa massa amorfa que vai para lá ou para cá de acordo com os diversos interesses. Vem de uma família, em tese, bem estruturada, era advogada, ou seja, nada poderia ter acontecido com ela. Exceto pelo fato de seu ex-namorado, Mizael Bispo de Souza, não ter se conformado com o fim do relacionamento e, possivelmente, até pelo fato de ser ex-policial e ter fácil acesso a uma arma, ter resolvido matá-la.

Ainda assim, o noticiário é machista ma non troppo. Ouvi outro dia numa rádio que Mizael acreditava estar sendo traído e que “precisava limpar sua honra”. Leia-se, subliminarmente, que ela é culpada e que merecia morrer. Aqui volto à mesma retórica. Ainda que ela tivesse traído o namorado, NADA justifica sua morte.

A cobertura da imprensa já vem rançosa. Os fatos acontecem e deveriam ser analisados dentro do contexto do fato em si, sem outras adjetivações. Passou da hora de a mídia rever seus conceitos.

Os crimes ainda renderão muitas páginas impressas e eletrônicas. Outras coisas medonhas acontecerão. E depois tudo será esquecido quando os holofotes forem desligados.

Acabou a Copa Mercosul…

por Sylvio Micelli

Na semana passada, quando começaram as disputas das quartas de final da Copa do Mundo da África do Sul, enchi-me de esperança e orgulho e decretei a muitos amigos: “vamos transformar isso numa Copa América dentro da Copa do Mundo”. Até chegaram a corrigir-me. Era, na verdade, uma Copa Mercosul pois Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai classificaram-se entre os oito melhores. E os quatro países fazem parte deste imbróglio chamado Mercado Comum do Sul, uma união aduaneira de livre comércio intrazona e política comercial comum que se arrasta desde a sua formação em 1995. Mas isso é uma outra história.

Voltando à Copa do Mundo eu via no horizonte uma final apoteótica entre Brasil e Argentina, o que era plenamente possível. Seriam semifinais entre Brasil e Uruguai e outra disputa entre Argentina e Paraguai.

A trilha do caminho mostrou-me, porém, que o futebol europeu mesmo sendo pasteurizado e talvez desprovido de emoção é tecnicamente perfeito. Parece até aquela escola de samba que não empolga na avenida, mas que tecnicamente cumpre todos os requisitos e é campeã.

Nosotros fomos sendo despedaçados pelo caminho. Primeiro, o Brasil. Perdeu o jogo e a cabeça para uma Holanda longe de suas melhores equipes mas que chega à final. Depois a Argentina com Messi, Tevez e Maradona foi estraçalhada pela Alemanha. Foram recebidos com alegria por seu povo, mas decepcionaram. O Paraguai caiu de pé. Vendeu caro a derrota para a Espanha. E de quebra apresentou a modelo Larissa Riquelme para o mundo.

O Uruguai foi mais longe. Conseguiu vencer Gana nos pênaltis depois de um jogo histórico, quando um outro pênalti contra cometido por Luis Suárez no último instante de jogo e perdido por Gyan deu aos uruguaios o ânimo necessário para a disputa final. Perdeu hoje da Holanda por 3 a 2. Mas foi por pouco. Mesmo com suas limitações, a aguerrida Celeste Olímpica, que chegou desacreditada à África do Sul, foi a melhor equipe sulamericana. Vamos lembrar que o Uruguai só foi à Copa na repescagem contra a Costa Rica.

A Holanda está na final. De outro lado virá Alemanha ou Espanha. Provavelmente, a Alemanha passa e deve ser campeã. Mas na horrorosa Copa da Jabulani tudo é possível.

Para mim, a Copa acabou.

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Sylvio Micelli

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