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A liberdade de Imprensa e a Imprensa liberta

por Sylvio Micelli

A chamada grande mídia está com medo. Vê, paulatinamente, ruir seus alicerces antiquados, nepotistas e reacionários. Prova disso, é a capa da revista Veja desta semana, a mais conservadora delas. Com o título “A Liberdade sob ataque” chega até a reproduzir artigos da Constituição Federal que só são cumpridos quando há o interesse de fazê-lo.

Afinal de contas, que Imprensa a revista acredita que querem calar? Esta, embolorada e viciada que está aí e da qual Veja faz parte ou a nova Imprensa que nasceu com a liberdade dos blogues e das redes sociais?

Durante a faculdade (apenas para os diplomados, claro…) somos ensinados a crer que a prática do bom Jornalismo passa, necessária e invariavelmente, pela isenção, pela ética e pela moral. Aprendemos que sempre devemos ouvir os dois ou mais lados da questão e que nossa missão é formar opiniões para salvaguardar o direito da sociedade em receber uma informação clara, pura, translúcida. Isso seria, ao menos em tese, bom para o cidadão e ótimo para o País.

Na prática, porém, como todos sabemos, a teoria é outra.

A Revista Veja e os velhos jornalões – agora reduzidos a três (Folha de S. Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo) – insistem numa pseudo-liberdade de Imprensa que eles não exercem. As notícias e opiniões sempre são dirigidas a interesses diversos que não são os mesmos da sociedade. Querem pautar a população com informações enviesadas que, sabidamente, tendem apenas a manter o establishment e nada oferecem de concreto para esta sociedade. Parecem que não aprenderam as lições com a ascenção e queda de Collor, e tantos outros “pés pelas mãos” cometidos ao longo da história.

Passei, recentemente, pela maior greve do funcionalismo público de São Paulo. A minha categoria – Judiciário Estadual – paralisou as atividades por 127 dias. As notícias (poucas) que saíram na tal da grande mídia eram ácidas, críticas e quando ouviam-nos, já vinham com a pauta pronta sequiosos pelas respostas que combinavam com o texto que necessitavam fazer. Registre-se, aqui, que houve uma ou outra exceção (até para justificar a regra).

Nesta semana, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo com seu histórico Auditório Vladimir Herzog, foi palco de um ato promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, entidade da qual sou membro do Conselho Consultivo (ainda que ausente por tantos compromissos). O ato, que reuniu quase mil pessoas, é prova irrefutável de que algo está errado com esta mídia em estado de obsolescência.

É óbvio, que a grande mídia não soube assimilar o golpe. Prefere um reducionismo tolo ao afirmar que o ato é político-partidário com infiltrações de diversas organizações sociais ou aquilo que a Veja acredita ser o “Petismo”. E é, justamente aí, que as revistas e jornais anacrônicos erram. Politizam, partidariamente, o que não é para politizar. Defendem seus candidatos e interesses tratorando as lições do bom Jornalismo. Pois bem. Não sou petista. Nem mesmo sou alinhado a muitos dos dogmas do Partido dos Trabalhadores, em que pese reconhecer sua importância na política nacional. Meus candidatos, há mais de duas décadas, raramente são eleitos, porque voto em pessoas e não em partidos. Ou seja: nem de longe faço parte do “Petismo” e, além de mim, há milhares de colegas que analisam a mídia sob uma nova ótica.

Será Erenice Guerra corrupta? Seus parentes idem? Oras… todos foram dispensados e ponto final. Que a Receita Federal, Polícia Federal e todas as instituições envolvidas investiguem e apontem culpados. Mas este, e outros casos, são usados como moeda de troca no circo eleitoral. Ao tomar partido, a velha mídia erra e abre, cada vez mais espaço, para a mídia alternativa que tenho orgulho em pertencer.

Esta nova Imprensa nasce liberta. E alguns, mais cáusticos, hão de dizer: “não é liberta… também defende seus interesses…” Pois bem. A mídia alternativa, amparada por blogues e redes e organizações sociais diversas, nasce para ser o contraponto, nasce para restabelecer o equilíbrio, nasce para mostrar o outro lado que a velha mídia esqueceu nas lições do Jornalismo isento e imparcial.

Atenção, barões da mídia: a extinção da versão impressa do Jornal do Brasil (o quarto jornalão histórico de nosso País) não foi um caso isolado. Há ainda muita letra a passar pela rotativa. Quem viver, verá.

O debate dos presidenciáveis e as lições de Chaplin


por Sylvio Micelli

Noite de domingo, mais um debate eleitoral, desta vez promovido pela Rede TV! e pelo Grupo Folha com suas diversas mídias. Os quatro principais candidatos à presidência da República tiveram mais uma oportunidade para apresentar suas propostas. E mais uma vez, não aproveitaram o espaço. A audiência se mantém pífia, considerando-se um evento de tamanha importância para o nosso futuro, e isso é fruto direto da alienação de parte do eleitorado e da qualidade dos candidatos.

O horário eleitoral no rádio e na TV, iniciado há pouco mais de um mês, volta a mostrar cenas dignas de vale-tudo.

Um desesperado José Serra (PSDB), sem respaldo de seu próprio partido e perdido no tempo e no espaço agarra-se a factóides elaborados pelo casuísmo eleitoral. Preferiu gastar tempo falando do vazamento de dados de sua filha na Receita Federal e de uma suposta troca de favores praticada pela atual ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra que substituiu, justamente, a candidata petista Dilma Rousseff.

Concordo, plenamente, que atos como esse – vazamento de dados sigilosos e tráfico de influência – são máculas da política nacional e que deveriam, efetivamente, ser punidos exemplarmente. Mas todo esse estardalhaço, com o aparato da grande mídia e em plena campanha eleitoral, apenas faz com que Serra experimente uma queda livre nas pesquisas eleitorais e que Dilma, possivelmente, já se consagre nas urnas em menos de três semanas.

Os outros dois candidatos mantiveram-se da mesma forma que os demais encontros. Marina Silva (PV) profere um discurso único e demonstra total incapacidade de reverter um quadro que, eventualmente, poderia até levá-la ao segundo turno e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) torna-se um fanfarrão e desfruta de alguns minutos de fama a cada nova anedota que conta nos debates.

Tudo muito óbvio. Tudo muito triste.

Num dado momento cansei-me. Procurei por algo inteligente na TV, como alguém sedento busca um oásis no deserto. Achei num canal a cabo o filme “Tempos Modernos” (1936), um clássico com C maiúsculo de Charles Chaplin. Filme dos tempos do cinema-mudo, Chaplin não precisava dizer nada para contar a história americana do período da Grande Depressão, após a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Com as célebres imagens da máquina “engolindo” o homem ou de sua crise nervosa ao operar máquinas, a película é ainda um tapa com luva de pelica e parece tão atual se traçarmos um paralelo com a Crise Econômica (2008/2009) e a eterna discussão por redução de jornada de trabalho que se trava aqui ou alhures.

Não tive como não lembrar do célebre ensinamento de Platão: “O sábio fala porque tem alguma coisa a dizer; o tolo porque tem que dizer alguma coisa”.

É assim que vejo os debates políticos hoje. Adoraria que os candidatos vissem este e outros filmes de Chaplin. Muito do que se tem para fazer, não precisa ser inventado. Está na história. Basta ser feito.

Tiririca e outros bichos

por Sylvio Micelli

Desde o início da campanha eleitoral, muito se fala da candidatura de Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço, humorista, cantor (?) e “abestado” Tiririca.

Já li vários e-mails e reportagens, aqui e ali, no geral muito críticas à candidatura. Listas circulam pela Internet detonando candidatos famosos compostos por humoristas, ex-jogadores de futebol e até mulheres que atendem pelo nome de frutas. Pessoas ironizam a formação educacional de tais postulantes. Seja como for, o fato é que Tiririca dominou os noticiários e deverá ser eleito sem nenhuma dificuldade.

Toda essa celeuma é uma tremenda hipocrisia que (juro!) pensei que tivesse deixado de existir após a eleição de Lula ao maior cargo do País.

Tenho, enfim, algumas ponderações sobre o tema:

1. O cidadão Francisco Everardo Oliveira Silva, bem como seus companheiros de (má) fama, tem todo o direito de votar e ser votado. A Constituição Federal garante isso a todo o brasileiro.

2. Sua campanha é de uma ironia deslavada e de extrema perspicácia. Seu slogan “Pior que tá, não fica” não deve ser motivo de risos e sim, de reflexão. Suas perguntas capiciosas do tipo “você sabe o que faz um deputado?” demonstra com exatidão que boa parte da população não acredita no Legislativo.

3. Suas roupas alegres e seu material de campanha fazem troça com esta triste realidade nacional.

E aí eu pergunto: estará ele errado? Estará seu partido (PR – Partido da República) errado?

Tiririca, assim como aconteceu com Enéas Carneiro (do extinto Prona e que se fundiu ao Partido Liberal para formar o PR) e em priscas eras com o rinoceronte Cacareco, é fruto de uma sociedade, em parte alienada, em parte descrente.

Caso ele seja eleito – e tudo indica que o será e com mais de 1 milhão de votos – teremos mais um deputado fruto do voto de protesto que, apesar de imbecil para os que se julgam acima do bem e do mal – demonstra que boa parte da população não está nem aí para a política, porque já sabe que as promessas dos engravatados, repetidas a cada pleito, estão esvaziadas e raramente são cumpridas.

A possível eleição de Tiririca também é um aviso para que os próximos governantes pautem, discutam e votem as reformas que o Brasil precisa – política, econômica, tributária e, quiçá, moral – mas que não interessa a ninguém, porque geralmente mexe no interesse de todos.

O problema, enfim, não está no Tiririca e nos outros “famosos”. O problema está na classe política, em boa parte desacreditada e no eleitorado, em boa parte alienado.

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Sylvio Micelli

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