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Michel Teló, BBB e os conceitos sobre cultura

por Sylvio Micelli

Os assuntos mais discutidos na primeira semana de 2012, ao menos nas redes sociais (que hoje pautam muita coisa), versam sobre a capa da revista semanal Época com o cantor (?) Michel Teló e sobre o início de mais uma edição do Big Brother Brasil transmitido pela Rede Globo de Televisão. Por sinal, apenas para constar, Época e Globo pertencem à mesma organização.

O paranaense Teló foi parar na capa da publicação por ser o “cantor, compositor, multiinstrumentista” que mais tocou nas rádios em 2011. Sua música (?) “Ai Se Eu Te Pego” vendeu horrores. Ele fez centenas de shows, ganhou um bom dinheiro e a segunda revista semanal mais vendida do Brasil achou por bem colocá-lo na primeira capa do ano. Mais que isso: destinou 12 páginas, isso mesmo, 12 longas páginas e o apresentou como a tradução de “valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”. Teló está na dele. Não tem culpa nenhuma.

O Big Brother Brasil, por sua vez, completa 10 anos de transmissão e chega à sua 12ª edição. A temática é mesma de sempre, em que pese a produção do programa tentar dar uma reciclada. Trancafia pessoas dentro de uma casa. Elas deverão viver e conviver com as diferenças ao longo das semanas. O jogo vai se desenrolando. As máscaras caem e o mais forte, ou o mais popular, ou o que der mais retorno de mídia, sagra-se o campeão. Tem gente que fez carreira artística e até política no jogo.

Vamos, enfim, aos fatos

Inicialmente, fico numa enorme sinuca de bico. Porque se eu elevar Teló e o BBB à condição de “cultura” irei contra tudo aquilo que suponho ser cultura e estarei a nivelar, por baixo, o que efetivamente entendo o que seja cultura. Se eu chamar o músico e atração global de subcultura, os patrulheiros de plantão (e eles sempre estão presentes) vão me chamar de preconceituoso, quiçá burguês, e de desrespeitar a cultura, que eles assim entendem, diversificada e multifacetada do meu país.

Então sobram duas óticas

Teló e BBB são estratégias de marketing para ganhar dinheiro. E muito dinheiro. Simples assim.

No caso do cantor, você pega um rapaz do interior do Paraná, jovem e simpático, que cai no gosto de jovens iguais a ele. Cria uma música (?) de pouquíssimos versos e de letra paupérrima, põe uma pegajosa melodia e usa de todos os métodos para que isso vire um hit. O resultado é infalível. Não é a primeira vez que acontece e também (infelizmente) não será a última. O Brasil passará por Teló, como já passou pelo Tcham, Créu, dancinha da garrafa e tantas coisas efêmeras que depois apodrecem nos sebos da vida.

O BBB é a catarse humana em versão compacta. Da mesma forma que se coloca uma dúzia ou mais pessoas dentro de uma casa, para que se suportem, mas no fundo todos são inimigos e buscam o prêmio ou fama (ou ambos), também em nosso dia-a-dia lidamos com diversas pessoas que adoraríamos mandar para o paredão (e vice-versa), mas que a santa hipocrisia social nos (lhes) impede.

Há, ainda, uma outra ótica. Essa muito mais perigosa e é dela que devemos (ou deveríamos) nos reguardar. Teló e BBB são braços fortes da grande mídia, em busca da hegemonia na comunicação, como nos ensina o mestre Vito Giannotti do Núcleo Piratininga de Comunicação. Quando a Época decreta que Teló traduz “valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”, ela quer dar hegemonia ao Brasil. Dizer que somos todos felizes como os Smurfs e que a música de Teló, que faz sucesso com a doméstica e com o empresário, acaba por aproximar todos nós. Olha que lindo! Um país sem preconceitos, onde todos somos rigorosamente iguais.

Por outro lado, o BBB, que (lembrando) pertence ao mesmo grupo de Época mostra que, sob confinamento, vence o mais forte ou o que cai no gosto da população. Dessa mesma população hegemônica que discutirá nas próximas semanas quem deve ir para o paredão e ficará a bisbilhotar se um novo casal é feito na casa (e, certamente, dois são desfeitos fora). Então, todas as terças à noite, o mercador de ilusões Pedro Bial, de forma histriônica, unirá um país de norte a sul, porque todos estarão (assim eles querem que seja) interessados em descobrir quem se dará mal naquela semana.

Essa hegemonia, meus caros, é o nosso grande problema. O Brasil deveria buscar a discussão de assuntos de mais importância. Claro que devemos ter lazer. Claro que o lúdico, mesmo de gosto duvidoso é importante. E aqui não reside nenhum preconceito da minha parte. É que a hegemonia faz com que boa parte dos cidadãos acredite que tratar de temas polêmicos não lhes pertence. Mas pertence, sim. Só nesta semana posso destacar três: as questões que envolvem o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a tentativa de abertura do Poder Judiciário, as chuvas que voltam sempre em janeiro (a Natureza é perfeita) e o pouco que se fez desde a desgraça do ano anterior e as eleições de 2012 que chegam logo, e há muito que mudar.

Enquanto deveríamos gastar nosso tempo com isso, e reitero que não se trata de discussão de elites, a mídia hegemônica nos impõe coisas “desimportantes”. E isso também não é novidade. É o “velho e bom” Panis et Circenses com que a Roma Antiga brindava seu povo. A única diferença é que os gladiadores de hoje, não derramam uma gota de sangue sequer.

Ao final de tudo mantenho a esperança de que dias melhores virão. Sempre acredito que o Brasil, enquanto sociedade, ainda é novo e devemos passar por tudo isso para que possamos amadurecer e chegar, um dia, aos conceitos de cultura de países nem tão longíquos daqui como a Argentina ou o Chile.

Já estaria feliz.

Itamar Franco: o melhor presidente pós regime militar

O baiano Itamar Augusto Cautiero Franco, que fez carreira política em Minas Gerais, faleceu hoje em São Paulo quatro dias após completar 81 anos. Internado há pouco mais de um mês, lutou até o fim contra uma leucemia.

Longe de discutir questões político-partidárias e passando os olhos pela política tupiniquim nas últimas três décadas afirmo, sem hesitar, que Itamar Franco foi o melhor presidente do Brasil após o regime militar.

Ele foi o 33º mandatário da República, cargo que ocupou por apenas dois anos, entre 29 de dezembro de 1992 e 1º de janeiro de 1995. Mas foram dois anos fundamentais na consolidação da democracia nacional após a queda do regime militar em 1985.

Com seu inconfundível topete, de fala mansa e demonstrando sempre tranquilidade, além de gostar de boas companhias femininas, Itamar assumiu o País durante um dos maiores escândalos de sua história que culminou com o impeachment de Fernando Collor de Mello.

E, como bom mineiro de criação, foi gerindo quase uma massa falida mergulhada numa crise hiperinflacionária e contando com o descrédito do povo brasileiro que em 1989 tinha ido às urnas escolher o primeiro presidente civil depois de quase 30 anos.

Sua gestão foi curta, mas nela foram estabelecidas as bases para o lançamento do Plano Real, que em 1994 conseguiu debelar a hiperinflação que havia sido submetida a uma série de infrutíferos planos econômicos desde o Cruzado (1986) de José Sarney.

Foi na gestão de Itamar que se realizou o plebiscito constitucional (1993), quando o brasileiro votou que o regime do País deveria ser presidencialista.

Itamar Franco ainda elegeria o seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, com o qual romperia algum tempo depois por divergências sobre as questões econômicas do Brasil.

Além de presidente, foi senador por quatro mandatos por Minas Gerais, governador do mesmo estado e prefeito de Juiz de Fora. Foi defensor da campanha “Diretas, Já!” e votou em Tancredo Neves, na eleição indireta para a presidência da República em 1985.

A gestão de Itamar passou longe dos escândalos de corrupção e ainda, por sorte, foi marcada pela conquista do tetracampeonato mundial de futebol pelo Brasil.

Não se fez justiça a Itamar em vida. Mas os livros de história hão de reconhecer o seu valor.

Copa-14, Olimpíadas-16 e o eterno complexo de vira-lata de parte do povo brasileiro

por Sylvio Micelli

Texto originalmente escrito para o Blog Canelada

À medida que a disputa da Copa do Mundo do Brasil em 2014 vai se aproximando, aumentam a quantidade de notícias sobre os atrasos nos estádios, aeroportos, infraestrutura, enfim, toda a logística envolvida em eventos desse porte.

A mídia, por falta de assuntos mais importantes ou para criar uma cortina de fumaça sobre aquilo que realmente deveria ser investigado e, ainda, sob o falso rótulo de “bem informar” o público, opta por noticiar o caos. Prefere, embuída “do melhor espírito público” e “das boas intenções de transparência”, vender ao mundo a nossa incompentência para realizar tais eventos.

Vi jornalistas, apresentadores e repórteres terem verdadeiros orgasmos e venderem informações falsas sobre questões que envolvem a Copa do Mundo, apenas com o intuito de polemizar.

Deixo exemplos para reflexão. Todo o país que se candidata a uma Copa, dá isenção de impostos. Isso é condição imposta pela FIFA e é sine qua non, para participar do processo. Portanto: informações sobre isenção de impostos, flexibilização de licitações como foi aprovada pela Câmara dos Deputados e outros medidas econômicas, fazem parte do jogo. Gostem ou não. Ainda mais considerando-se o excesso de impostos que pagamos aqui no Brasil…

Enfim, pautas propositivas como a autoestima do brasileiro ou a criação de milhares de empregos diretos e indiretos ou a criação de novos atletas no médio e longo prazos, não merecem nem uma nota no rodapé de uma página par.

O leitor já pode observar, portanto, e deixo claro para que não haja nenhuma dúvida, de que sou totalmente favorável à realização da Copa do Mundo de 2014 no País e dos Jogos Olímpicos na minha querida Rio de Janeiro, dois anos depois. Achei o máximo que, desde o ano passado, São Paulo passou a fazer parte do calendário da Fórmula Indy. E até entendo que poderíamos ter duas corridas de Fórmula 1 no Brasil: uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. A América do Sul já teve duas corridas, em tempos idos, uma no Rio e outra em Buenos Aires.

Esta minha visão de desenvolvimento, repito, – a médio e longo prazos – não é compartilhada por todos os brasileiros. Fôssemos talvez, um país de menor extensão territorial, muito de nossos problemas estariam resolvidos ou ao menos minimizados.

Mas a questão de fundo, a meu ver, é que existe em boa parte do povo brasileiro, aquele velho complexo de vira-lata a revirar os lixos do primeiro mundo, em busca de alguma migalha. Para essas pessoas é pecado ter Copa do Mundo no Brasil. Não podemos ter Jogos Olímpicos. Devemos ser eternamente um país em desenvolvimento. Devemos ser eternamente um país de terceiro mundo, daqueles bem medíocres, para que os nossos colonizadores de hoje, não fiquem nervosos. Jamais podemos crescer. Jamais podemos ser grandes ou ao menos pensarmos como gente grande. E há de fato, lamentavelmente, muita gente que gosta de ser / estar / permanecer colonizada e pouco importa quem seja o colonizador: outrora eram os portugueses, espanhóis, ingleses; hoje são os americanos e devem ser os chineses no futuro.

Para a manutenção do status quo de nossa miserabilidade, vende-se a doce ilusão de que, se não tivermos Copa do Mundo ou Olimpíadas ou qualquer outro evento de elevada monta, o dinheiro que se gastaria com “isso” seria aplicado em educação, saneamento, transportes, saúde, enfim, “coisas mais importantes”, considerando-se o nosso subdesenvolvimento.

Há, ainda, outra premissa interessante, ainda que equivocada. Não podemos ter eventos desse porte porque a corrupção será enorme e muito dinheiro será desviado.

Ah, meus caros! Como é doce sonhar! Como é doce se enganar, achando que ao tirar a Copa do Mundo daqui, as verbas serão efetivamente destinadas a essas coisas, certamente, “mais importantes”.

Ah! Como é sublime acreditar que tirando a Copa do Mundo daqui, a corrupção será menor.

O foco, meus amigos, está errado. O Brasil não só merece fazer tais eventos, como potência mundial que é, como fará sim, uma grande Copa e uma grande Olimpíada, mesmo contando com o fogo amigo de parte de seus próprios habitantes. Claro que o país terá seus acertos e erros como aconteceu a todos os países nas copas, desde 1930.

Não sou do tipo que se ufana do Brasil. Conheço nossas mazelas endêmicas, nossos problemas que sempre são contornados e jamais resolvidos. Mas efetivamente torço para o crescimento do país e a vinda de eventos desta natureza, além da autoestima e dos empregos já citados, fortalecem nossas relações internacionais e trazem um know-how para que o mundo saiba que há vida inteligente do lado de cá da linha do Equador.

Você que se preocupa com a corrupção, assim como eu me preocupo; você que se preocupa com a nossa infraestrutura deficitária, assim como eu me preocupo; comece fazendo um exercício de cidadania. Caso lembre em quem você tenha votado, fiscalize seus vereadores, deputados estaduais, federais e distritais. Cobre a solução dos problemas por parte do prefeito, do governador, do senador e do presidente Aí, sim, você estará jogando a favor do Brasil.


Nota do Autor:
aos protetores de animais informo que a imagem “vira-lata” é apenas metafórica. Tenho profundo respeito e carinho aos animais, em especial aos abandonados.

Para quem quiser ter uma outra visão sobre o tema, aconselho a leitura do texto “Copa 2014 – O otário que paga a conta” do colega Tiago Buckowsky

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