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A unificação dos títulos pela CBF e a politicagem do futebol brasileiro

por Sylvio Micelli

A Confederação Brasileira de Futebol reconhecerá, nesta quarta-feira 22 de dezembro, que a disputa da Taça Brasil, entre 1959 e 1968 e a disputa do Torneio Roberto Gomes Pedrosa e da Taça de Prata, entre 1967 e 1970, terão o mesmo valor que o Campeonato Brasileiro, este disputado desde 1971.

Trata-se, claramente, de mais um ato político que macula o futebol brasileiro.

A questão, neste caso, não é concordar ou discordar de que Santos e Palmeiras sejam os maiores beneficiados com a medida, mesmo sendo torcedor do Corinthians. Sinceramente, não é o tipo de coisa que me incomoda e sei reconhecer, obviamente, que as duas equipes tinham os melhores times da década de 60. Entretanto, é dever observar que a medida adotada pela CBF extrapola a questão meramente esportiva.

O Brasil, numa visão macro e bem mais ampla, precisa aprender a respeitar regras e contratos, não apenas no futebol. A partir do momento que, por uma mera canetada, reconhece-se qualquer coisa para dar um “cala a boca” aqui ou acolá, perde-se o respeito, perde-se a essência.

A unificação tem como base um dossiê, feito pelo jornalista Odir Cunha, que é santista. E a coisa foi crescendo sob o tacanho “eufemismo” de que seria um “absurdo” que Pelé e companhia, jamais tivessem sido campeões brasileiros. O mesmo se aplica a Ademir da Guia e à maravilhosa Academia de futebol montada pelo Palmeiras nos anos 60.

A Taça Brasil, por exemplo, assemelha-se muito à Copa do Brasil disputada hoje. Era um torneio que reunia os campeões de todos os estados e com equipes, com todo o respeito, que não disputariam a série D do Campeonato Brasileiro no terceiro milênio. O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, por sua vez, foi uma ampliação do Torneio Rio-São Paulo, com a participação de equipes convidadas e tornou-se o embrião do Campeonato Brasileiro que conhecemos hoje.

Já li reportagens que brechas serão abertas e que outros “títulos nacionais”, entre os anos de 1920 a 1937, também podem ser reconhecidos. Suponho, até, que não vai demorar muito e terá gente pedindo a unificação de títulos do Torneio Rio-São Paulo e da Copa do Brasil, apenas pelos números que eles representam.

Como diria o eterno jornalista Juarez Soares, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. O fato de Pelé ou Ademir não terem ganho um Campeonato Brasileiro nos moldes que é disputado hoje, não lhes trás nenhum demérito. Muito pelo contrário. Só um imbecil para acreditar que eles, e suas respectivas equipes, não foram campeões de tudo, inclusive do Brasil.

Isso, porém, não dá o direito de supor que campeonatos diferentes, com regras, quantidade de jogos e clubes diferentes devem ser tratados de forma isonômica pois, justamente, o Santos de Pelé ou a Academia de Ademir deveriam ser marcados como vencedores de títulos que ninguém mais os terá.

Justamente por isso, a unificação é uma bobagem e um tiro no pé, porque trata o Santos de Pelé ou o Palmeiras de Ademir como iguais. E eles foram muito superiores.

Em tempo: o glorioso São Paulo Futebol Clube precisa acabar com essa mania de perseguição. Ridículo acreditar que a CBF esteja reconhecendo os títulos da Taça Brasil e do “Robertão” para prejudicar o Tricolor. Menos, São Paulo! Menos.

Salário do Congresso: se você fosse deputado, realmente agiria diferente?

por Sylvio Micelli

O Congresso Nacional deu, nesta semana, mais uma clara demonstração de que não está nem aí com a “Hora do Brasil”, como diriam os jovens há mais tempo. Os conceitos de ética, moral e respeito, há muito tempo, já chafurdam na lama daquela Casa Legislativa que une o Senado Federal e a Câmara dos Deputados.

Os parlamentares, numa velocidade ímpar na história daquela Instituição, aumentaram os próprios salários em 61,83%, índice prá lá de abusivo. Pior: atrelaram, dentro dos “rigorosos” preceitos da lei, a majoração de seus vencimentos aos salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ou seja: o Congresso Nacional não terá mais aquele desgaste típico dessas ocasiões. Isso porque quando os magistrados do STF aumentarem os próprios vencimentos, ainda que seja por lei a ser aprovada no Congresso Nacional, haverá uma reação em cadeia. A majoração será para todos os poderes em âmbito federal, estadual e até municipal.

Que o ato é vergonhoso, não tenho dúvidas de que seja. Até entristeci-me ao ler alguns nomes que aprovaram tamanho desrespeito ao povo brasileiro. Mas aí surgiu-me uma dúvida, aliás, algumas:

a) será que realmente foi um desrespeito ao povo brasileiro? Houve muito alarde, reclamações, xingamentos, mas não podemos nos esquecer de que o Congresso Nacional, as assembleias estaduais e as câmaras municipais são eleitos por nós mesmos. Ainda que tenha havido um percentual de renovação do Legislativo nacional nas últimas eleições, muita gente capenga foi reeleita. E muita gente capenga retornou. Ora… se os parlamentares são reflexo de boa parte da sociedade outra dúvida está a aporrinhar-me:

b) será que você, leitor, caso fosse eleito deputado agiria de forma diferente? Será que você não advogaria em causa própria? Claro que sempre existem as exceções, até para que se justifique a regra…

c) será que os colegas jornalistas, em especial da grande mídia, que geralmente se comporta de forma genuflexa numa relação capciosa com o governo, agiria de forma diferente?

Deixo a dúvida para reflexão, porque nós brasileiros – todos sabemos – somos internacionalmente reconhecidos como o país do “jeitinho” e aí a roda pega. Não dá para cobrar dos nossos parlamentares uma postura que nós não adotamos. Não há como sermos paladinos da moral e dos bons costumes se nem mesmo um “bom dia” damos ao vizinho do lado. Porque aí tudo vai cheirar a hipocrisia e o Estado Brasileiro continuará da mesma forma.

Devo ressaltar uma entrevista que ouvi do deputado Ivan Valente (PSOL-SP), uma das últimas reservas morais que ainda possuímos. Ele disse que a sociedade precisa aprender, precisa questionar, precisa acompanhar o trabalho dos parlamentares. Só assim, num pleno exercício de cidadania, é que poderemos minimizar o poder de deputados, senadores e vereadores que vão para Brasília ou para os legislativos estaduais e municipais, apenas para trabalhar em benefício próprio transformando seus mandatos, concedidos pelo voto popular, num grande balcão de negócios.

Parabéns aos deputados que disseram NÃO ao aumento nos próprios salários. Certamente, eles foram / serão ridicularizados pelos seus pares ou criticados por outros que acreditam que atitudes éticas e morais fazem parte apenas do jogo de cena na arena política deste País.

  • Alfredo Kaefer  (PSDB, PR)
  • Assis do Couto  (PT, PR)
  • Augusto Carvalho  (PPS, DF)
  • Capitão Assumção  (PSB, ES)
  • Chico Alencar  (PSOL, RJ)
  • Cida Diogo  (PT, RJ)
  • Décio Lima  (PT, SC)
  • Dr. Talmir  (PV, SP)
  • Eduardo Valverde  (PT, RO)
  • Emanuel Fernandes  (PSDB, SP)
  • Ernandes Amorim  (PTB, RO)
  • Fernando Chiarelli  (PDT, SP)
  • Fernando Gabeira  (PV, RJ)
  • Gustavo Fruet  (PSDB (PR)
  • Henrique Afonso  (PV, AC)
  • Iran Barbosa  (PT, SE)
  • Ivan Valente  (PSOL, SP)
  • José C Stangarlini  (PSDB, SP)
  • Lelo Coimbra  (PMDB, ES)
  • Luciana Genro  (PSOL, RS)
  • Luiz Bassuma  (PV, BA)
  • Luiz Couto  (PT, PB)
  • Luiza Erundina  (PSB, SP)
  • Magela  (PT, DF)
  • Major Fábio  (DEM, PB)
  • Marcelo Almeida  (PMDB, PR)
  • Mauro Nazif  (PSB, RO)
  • Paes de Lira  (PTC, SP)
  • Paulo Pimenta  (PT, RS)
  • Raul Jungmann  (PPS, PE)
  • Regis de Oliveira  (PSC, SP)
  • Reinhold Stephanes  (PMDB, PR)
  • Sueli Vidigal  (PDT, ES)
  • Takayama  (PSC, PR)
  • Vander Loubet  (PT, MS)

Em tempo: ao ironizar o aumento que os parlamentares se concederam e que não o beneficia, o presidente Lula não contribuiu para o debate;

Em tempo (2): o (agora deputado eleito por São Paulo) Tiririca está errado. Seu bordão na campanha era “vote Tiririca, porque pior que está não fica”. Infelizmente, fica. Aliás, foi bastante sintomática a chegada do palhaço Tiririca ao Congresso Nacional no dia do “auto-alto-aumento”. No final das contas, todos somos feitos de palhaço. Ou não… cabe à sociedade refletir.

Na medalhinha: Alckmin pode liberar Orçamento do TJ-SP desde que dinheiro venha para os servidores

por Sylvio Micelli / ASSETJ

Desdobramento da maior greve da categoria e que durou 127 dias neste ano de 2010, as discussões sobre o Orçamento do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo tomaram forma a partir de outubro, quando o Executivo cortou a proposta enviada pelo TJ -SP em quase 54%.

Audiências públicas, reuniões, programas de TV foram se sucedendo fora e dentro da Assembleia Legislativa e a grita, generalizada, ecoou pelas associações, sindicato e entidades ligadas à própria Magistratura e Advogados. Até o presidente do TJ-SP, desembargador Antonio Carlos Viana Santos, deu as caras no Colégio de Líderes da Alesp na semana passada. Tudo e todos a pedir a manutenção da peça orçamentária em pouco mais de R$ 12 bilhões, que corresponde às reais necessidades do Poder Judiciário, em especial nas dívidas com os seus servidores.

No último domingo (05), o jornal Folha de São Paulo trouxe na coluna Painel, assinada pela jornalista Renata Lo Prete, a informação de que o governador eleito Geraldo Alckmin já teria acenado com a possibilidade de “assinar uma suplementação de verba”, assim que assumir o posto em 1º de janeiro, desde que os recursos sejam usados para “contemplar os pleitos salariais” da categoria. A nota observa, ainda, que Alckmin quer evitar um novo movimento paredista no seu retorno ao Palácio dos Bandeirantes.

Algumas conclusões podemos tirar disso:

1. Geraldo Alckmin, assim como o governador em exercício Alberto Goldman, já sabem que a Magistratura paulista, com as exceções de praxe, é perdulária e que usa os recursos criando novas formas, modelos, mágicas etc para engordar o salário que não é pequeno;

2. Sabem também que a Magistratura paulista gosta de benesses diversas, a ponto de criarem uma Comissão (publicada em Diário Oficial) para cuidar do lanchinho dos doutos magistrados e que, certamente, não comem pão com manteiga ou com mortadela (aliás, ambos são deliciosos…);

3. A greve e, consequentemente, os grevistas estão de parabéns. Provaram, ainda que contra tudo e contra todos, que o movimento reivindicatório é correto, justo, digno e legal;

4. Mas… não podemos nos deixar levar pelos “ideais magnânimos” do governador eleito, porque já o conhecemos de outros orçamentos e carnavais;

5. Se tudo isso está a acontecer é, certamente, pela demonstração de capacidade de mobilização que permanece, mesmo depois da greve suspensa.

Estejamos atentos, companheiros!

Confira o teor da coluna Painel do jornal Folha de São Paulo do último domingo, 05 de dezembro de 2010:

“Toga justa

Alckmin está disposto a negociar uma solução para o impasse orçamentário com o TJ-SP, que reivindica mais do que o dobro dos R$ 5,6 bilhões oferecidos pelo atual governo. Sem prejuízo de eventuais ajustes aprovados pela Assembleia, o tucano avisou a seus emissários com a magistratura que assinará a suplementação de verba logo após assumir o Bandeirantes.

Prevenção
A condição é que os recursos sejam utilizados essencialmente para contemplar os pleitos salariais dos servidores do Judiciário. Com o gesto, o tucano espera evitar paralisações no setor, a exemplo da que ocorreu este ano e durou 127 dias”.

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Sylvio Micelli

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