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Gisele Bündchen, Maria da Penha e outras coisas muito mais importantes

por Sylvio Micelli

Nesta semana, o Brasil varonil foi chacoalhado com uma discussão sem a menor importância, mas como o bom humor e a inteligência tem sido sepultados em nome do politicamente correto, o tema ganhou ares de assunto de Estado.

A Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), vinculada ao Governo Federal, pediu que fosse retirada do ar uma campanha publicitária com a modelo Gisele Bündchen, que dispensa qualquer apresentação, para a tradicional marca de lingerie Hope. Em três curtíssimos comerciais, La Bündchen ora vestida, ora de lingerie conta para o seu “amor” situações “desagradáveis” como estourar o limite do cartão de crédito, bater o carro e trazer a mãe dela – a sogra – para morar com o casal. A campanha chama-se Hope Ensina e o conceito desenvolvido pela Agência Giovanni+Draftfcb é afirmar que, usando lingerie, informações desagradáveis são muito mais palatáveis (certo), do que se ela estivisse devidamente trajada (errado).

O comercial é indolor, simpático e de forma tranquila passa o recado enaltecendo ainda a sensualidade da mulher com piadas do dia a dia, coisas comesinhas que se falam em família, sem maiores problemas.

Entretanto, como o Brasil é um país sério, correto e defende a cidadania, devido a avassaladora quantidade de oito reclamações, segundo informações do site Globo.com, a Secretaria de Políticas para as Mulheres resolveu intervir. Li até discursos dizendo que o comercial além do conteúdo sexista, trata a mulher como um objeto e um retrocesso nas conquistas das mulheres.


Até o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) foi acionado e é bem provável, que em nome da moral e dos bons costumes tupiniquins, o comercial seja retirado do ar.

A interferência estatal no caso é patética. Sob a pretensa nuvem de querer evitar a exibição do corpo da mulher como um objeto meramente sexista, outros assuntos muito mais importantes para esta Secretaria, não figuram na ordem do dia. Não tenho dúvidas de que se outra modelo figurasse no comercial, o assunto passaria despercebido. Mas como é uma das mais famosas modelos do mundo, a SPM quis aparecer para os seus quinze minutinhos de fama.

Não me lembro, por exemplo, da SPM ter se manifestado de forma tão contundente, no caso dos assassinatos de Mércia Nakashima ou Elisa Samúdio. Também não vejo o trabalho da SPM nos casos de violência domésticas a que milhares de mulheres são submetidas todos os dias. Será que a SPM verifica, do Oiapoque ao Chuí, o cumprimento integral da Lei Maria da Penha?

Há uma colossal diferença entre a violência nossa de cada dia – lamentável e nojenta – e que a SPM sim, deve combater, e uma peça publicitária artística e bem feita.

Agora, amedrontado, aguardo que a tal Secretaria cancele, para sempre, o Carnaval brasileiro.

Bradesco, Globo e você: tudo a ver…

Banco Brasileiro dos Descontos (Bradesco) em propaganda de 1949por Sylvio Micelli

R$ 120 milhões por ano. Este é o valor que o Bradesco já está pagando, desde o início do mês, para patrocinar o Jornal Nacional da Rede Globo, o mais visto da televisão brasileira. A informação vem da própria instituição e de sites especializados em marketing, mas não é confirmada pela emissora. Na verdade isso pouco interessa. Quem é da área sabe que o Jornal Nacional não tem seu valor tabelado pela Globo e sempre é fruto de negociações.

Mas toda essa lenga-lenga econômico-publicitária é o que menos importa. Simplesmente, o banco de maior “presença” como diz sua campanha publicitária patrocina o jornal de maior “ibope”. E isso serve para que entendamos o mecanismo das grandes corporações e sua dominação, aqui ou alhures.

Pegue a maior instituição financeira do Brasil. Aquela que está presente em todos os municípios brasileiros (sic) levando “mobilidade bancária” com a locução inigualável de Ferreira Martins. Junte-se a isso, o jornal televisivo mais visto do país e pronto! A Rede Globo e o Bradesco vão ampliar, ainda mais, o nível de penetração em terras tupiniquins.

Importa se este banco (e os outros) cobra taxas por tudo e mais um pouco? Não! Importa se este banco (e os outros) cobra juros Logomarcas do Jornal Nacional ao longo de quatro décadasescorchantes de mim e de você e que a Taxa Selic é apenas uma referência abstrata dos juros que se cobra no Brasil? Não!

Importa se o Jornal Nacional traz um casal simpático divulgando notícias tendenciosas e de conteúdo duvidoso? Não! Importa se as classes A-B-C…Z são manipuladas por este jornal que apenas informa, mas não forma opiniões e é colocado entre novelas a fim de valorizar a “família brasileira? Não! É claro que não!

O que realmente importa é aquilo que o ator e âncora James Carville criou para a campanha de Bill Clinton, à presidência dos EUA, em 1992: “É a economia, estúpido“. E o Capitalismo selvagem aplicado em sua mais “deliciosa” essência.

O mundo encantado de Gilberto Kassab

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab - Foto: Sylvio Micellipor Sylvio Micelli

Diferentemente do que pensou a então candidata Marta Suplicy (PT), no início do segundo turno das eleições paulistanas em 2007, a vida pessoal de Gilberto Kassab (DEM) nunca me interessou. Gostaria, sim, que ele fosse um bom prefeito, mesmo sem o meu voto. Aliás, tenho por hábito votar em candidatos que raramente são eleitos. Isso porque voto em pessoas com as quais me identifico e não me submeto à polarização que a mídia sempre provoca nas eleições.

É lamentável constatar que a cidade de São Paulo está abandonada sob todas as formas e aspectos que o decoro permite relatar. Kassab, tanto na gestão herdada de José Serra como na sua própria, tem como marcas registradas, o vacilo, o balão de ensaio e a não solução dos problemas.

1. Cidade Limpa: a primeira grande meta de Gilberto Kassab, logo após a eleição de José Serra para o Governo do Estado, foi o projeto Cidade Limpa. Na verdade, um factóide que decepou a publicidade da maior cidade do país. Kassab alegou, à época, que a poluição visual era enorme. Isso é fato. E eu concordo. Mas deveria regulamentar a publicidade externa de forma decente. Acabou com os outdoors e reduziu o tamanho da publicidade externa. Muitos estabelecimentos abandonaram suas fachadas. O Cidade Limpa deixou a cidade sem poluição visual, mas suja, mal acabada. Além disso, as pixações, pinturas velhas e outras aberrações permanecem. Quem assistiu a Corrida de São Silvestre pela TV na semana passada, teve vergonha de ser paulistano.

2. Transportes: calcanhar de Aquiles desta e de outras gestões. Kassab, há mais de 3 anos no poder, pouco fez.

a) Rodízio de veículos: uma aberração do ponto de vista constitucional, pois fere o direito de ir e vir e que vem sendo mantida. O rodízio é, com perdão da palavra, uma burrice. A população comprou um segundo carro, o que aumentou a quantidade de veículos na cidade e, consequentemente, a poluição. Horário de pico? Agora você escolhe sua opção. Quer ficar preso em congestionamentos antes, durante ou depois do rodízio? Tanto pela manhã como no final do dia. Isso pouco importa. Quer sair da Mooca e ir à Praça da Sé, como é o meu caso? Você tem três opções: de carro – um trajeto de 5 km pode demorar mais de uma hora; de ônibus – idem ao carro. Além disso, os ônibus aqui são os elétricos. Quando cai a energia, nem quero comentar…; de metrô – tome um ônibus por uns 20 minutos para chegar ao Metrô Bresser. Ou vá na caminhada por igual período. Se conseguir entrar no vagão do metrô, vá como sardinha em lata até a Estação Sé;

b) Ônibus Fretados: outro vacilo de Kassab e de seu braço direito, o secretário Alexandre de Moraes. Os fretados abusavam da boa vontade no caótico trânsito paulistano? Por que eu vou regulamentar se é melhor podar, não é mesmo? Simples! Jogo os fretados para os pontos mais longínquos da cidade e faço todos acreditarem que um ônibus com 40, 50 passageiros incomoda mais do que se estes mesmos passageiros estivessem com seus carros. Depois eu me arrependo da bobagem que fiz e resolvo liberar os fretados na Berrini, ponto de grandes empresas da cidade.

c) Zona Azul: os agentes da CET (Companhia de Engenharia e Tráfego), que nada entendem de engenharia, nem de tráfego servem apenas para multar. Quando resolvem agir no trânsito, mais atrapalham do que se nada fizessem. Além disso, o cartão de Zona Azul pulou de R$ 1,80 para R$ 3,00. A alegação é de que foram anos sem aumento. Oras… Isso não significa que, quando você vai aumentar, precisa trazer toda a inflação do período. Raramente se encontra cartões a preço oficial. E você ainda estaciona, em determinados lugares para ser furtado.

d) Estacionamentos: a prefeitura nada faz. Estacionar na cidade é sinônimo de extorsão. Ano passado eu tive que pagar R$ 10 por 8 minutos de estacionamento. Há regiões da cidade onde o cartel rola solto. A prefeitura deveria subsidiar os estacionamentos para que a cidade pudesse respirar.

e) Inspeção Veicular: este tema foi a piada de 2009. E promete ser a piada de 2010. De mau gosto, óbvio! Em 2009, a prefeitura de Kassab decidiu fazer a inspeção veicular. Para isso, obrigou apenas os veículos novos de fazê-la. Oras… Se a inspeção é para manter a qualidade do ar, não seria correto começar com os carros mais antigos? Ou todos de uma vez? Além disso, você pagava uma taxa de R$ 52,73 para depois ser ressarcida pela prefeitura. A empresa responsável pela inspeção era a desconhecida Controlar e de repente se transformou numa potência adquirida pelo Grupo CCR, que controla as maiores estradas do país. Tudo muito estranho, num curto espaço de tempo. E a piada em 2010 permanece. Agora a prefeitura não vai devolver a taxa alegando que uma lei federal a impede de fazer o ressarcimento.

f) Tarifa de Ônibus: o presente de Ano Novo de Gilberto Kassab é aumentar a passagem de ônibus de R$ 2,30 para R$ 2,70. A alegação é a mesma da Zona Azul. Há tempos não se aumentava. Isso não significa que precisa ser tudo de uma vez. E, possivelmente, teremos que aguentar o prefeito falando que cumpriu uma promessa de campanha, afinal, desde sua posse, o valor permaneceu inalterado.

3. Serviço Público: seguindo a linha neoliberal característica da parceria PSDB/DEM, Kassab fez duas coisas com o funcionalismo público da cidade de São Paulo:

a) transformou o Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), patrimônio dos servidores paulistanos em hospital geral. A prefeitura deixou de descontar os 3% que o funcionalismo contribuía para o custeio do HSPM e abriu suas portas ao SUS. Vendeu a ideia como se fosse um grande negócio, afinal os servidores tiveram um “aumento real” nos vencimentos. Uma bobagem: aumento e reposição são coisas que o funcionalismo geralmente luta muito para ter muito pouco;

b) deu publicidade ao salário do funcionalismo, no mais alto estilo “Caçador de Marajás” de Fernando Collor de Mello. Outra grande bobagem. O subteto do funcionalismo não pode ser refém do proselitismo político. Nem de Kassab, nem de Serra. Se há abusos, estes devem ser corrigidos. Simples, assim.

4. Chuvas e inundações: culpar São Pedro pelo excesso de chuvas nada resolve. É sabido que a população tem boa parcela de responsabilidade nas inundações ao jogar de tudo nos córregos e rios. Mas cabe ao poder público: a) educar a população, b) agir de forma rígida, limpar córregos e rios, antecipando-se às inundações; c) promover políticas habitacionais que visem retirar moradores de áreas comprometidas; d) não ser leniente nem corrupto com ocupações desorganizadas e crescimento desordenado da cidade. O total abandono que vimos dos moradores do Jardim Romano, Jardim Pantanal e adjacências foi um absurdo. Duvido que se a inundação tivesse ocorrido na Vila Olímpia, se a prefeitura não teria tomado as devidas providências. Importante destacar aqui, que as subprefeituras continuam sendo usadas como moeda de troca política e competência, não necessariamente, faz parte dos indicados.

5. IPTU: o glorioso Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) chega no Ano Novo, mais gordo com “módicos” índices de até 45%. Aqui, mais uma vez, Kassab recuou. O projeto original encaminhado à Câmara Municipal previa índices de até 60%. O prefeito alega que algumas melhorias feitas na cidade, como estações de metrô por exemplo, valorizaram os imóveis e aumentaram o valor venal das propriedades. E os donos devem pagar. Os aumentos agora devem ser bienais.

Resumindo: a cidade de São Paulo está suja, triste e abandonada. Com as chuvas de verão, a tendência é piorar. Buracos, inundações, trânsito, caos, lixo e a sensação de que não há comando na maior cidade do País. Mas Kassab diz o contrário num mundo encantado aonde ele e seus apaniguados políticos habitam.

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Sylvio Micelli

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