por Sylvio Micelli

Acompanho a famosa e tradicional corrida desde 1980, quando José João da Silva acabou com um jejum de títulos do Brasil na competição. Sempre gostei de ver a disputa. Primeiro, porque sou paulistano e a corrida enaltece nossa cidade. E outra, porque gosto de esportes em geral.

Mas, tinha uma dívida comigo mesmo. Em 1999, assistindo a uma São Silvestre, prometi a mim mesmo abandonar o vício do fumo e, para provar minha saúde debilitada pela nicotina, correria no último dia do ano seguinte.

Parei de fumar. Voltei. Parei de novo. Mas apenas agora em 2004 cumpri o que havia prometido a mim mesmo, cinco anos atrás. Mesmo bem acima do meu peso, sem ter preparado-me para a prova, desafiei a mim mesmo. Curioso que decidi correr apoiado por um amigo que, por problemas de saúde, sequer chegou a se inscrever.

Cheguei à velha e conhecida Paulista e olhava para aquele pedaço de chão tomado por calcanhares dos mais variados tipos e histórias. O que estariam fazendo ali, refleti. Que tipo de ambição, ou penitência, ou promessa, ou diversão levaram aquelas gentes de perto ou de longe. Sim, porque éramos nós, o brilho, a tradição, a festa. Os atletas de ponta eram profissionais e como tal encaravam a corrida como mais uma atividade, tal e qual escrevo meus textos ou um médico cuida de doentes.

Percebi, então, que se trata de uma catarse coletiva. Uma grande psicanálise a céu aberto, onde espantam-se monstros e reavivam-se as esperanças de um novo ano.

Quando deu a largada corri o máximo que pude. Aguentei apenas até à Consolação. Mas havia de provar para mim mesmo que chegaria ao final dos infindáveis 15 quilômetros.

E caminhei, andei, trôpego, fatigado… Comecei a perceber coisas que no dia-a-dia do trabalho, nem notamos. Como eu poderia imaginar que no meio do Elevado Costa e Silva, nosso velho Minhocão – havia uma subida irritante. Ou que o viaduto após a Avenida Rudge era tão íngreme depois de 8 quilômetros exaustivos. Quase esmoreci ao observar que entre a Líbero Badaró e o Largo de São Francisco havia uma subidinha que ali estava para aniquilar o resto de energia que eu tinha. Falar da Brigadeiro, então…

Pessoas me apoiavam. Outras me escrachavam. Aquilo era, para elas, também uma catarse. Talvez não quisessem pagar o “mico”. Talvez não tivessem coragem. Alguns falavam “vai que falta pouco!”, “você consegue!”. Outros, “já acabou!”, “ou sai daí gordão!”… Na subida da Brigadeiro topei com alguns companheiros da competição que já voltavam. Apoiaram-me. “Vai que só falta você…” Minha meta era terminar a prova. Nem que para isso eu chegasse, guardada às devidas proporções, igual à atleta suíça Gabrielle Andersen-Scheiss, última colocada na maratona de Los Angeles nas Olimpíadas de 1984. Uma imagem, que muitos irão se lembrar e que até hoje emociona. Ela, cambaleando, até a linha de chegada.

Enfim, voltei à Paulista. Cheguei. Pisei o tapete que serve para cronometrar os tempos, como se um tapete vermelho houvesse sido estendido. E ao receber a medalha, mesmo chegando entre os últimos, chorei copiosamente porque, para mim, o importante é que a minha missão e o meu propósito estavam cumpridos.

“Corredor”: 7192 – 80ª Corrida Internacional de São Silvestre